quinta-feira, 6 de junho de 2013

7.

Sou como uma rachadura no tempo. Não atrapalho, muito menos ajudo, apenas estou ali tentando representar algum perigo real para todos que me veem. Eu sou uma espécie de lixo do mundo que não fede nem cheira. Eu sou o Karma, eu sou a arma. Eu sou apenas um idiota egocêntrico que, por um acaso, está presenciando todo o mundo conhecido girando ao seu redor, como se realmente fosse o centro das atenções, como se realmente fizesse tanta diferença quanto Gandhi, Mandela e Lincoln fizeram.

A minivan começou a andar.

Ela não tem janelas traseiras, é um desses modelos preparados para transporte de algum tipo de carga. Estamos sentados em algumas caixas que estavam ali dentro, não imagino a quanto tempo.

- Alan, para onde iremos?
- aprenda a esperar, filho. A maioria das respostas da vida você recebe após esperar.

Mas uma de suas frases bonitinhas. Apesar de inteligente, esse cara me dá nos nervos. Se eu tivesse uma arma agora eu atiraria nele. Sem piedade.

Feixes de luz passam pela minha cara. São as luzes da cidade ao passar pelo para-brisas e finalmente encontrarem meu rosto cansado.

Alan e um outro cara que está sentado a seu lado parecem estar preparando algo em cima de um espelho. Provavelmente cocaína. Alan me oferece.

- Obrigado. Já tenho problemas demais para dormir. Isso me tornaria um insone absoluto e isso não me parece tão divertido. - sou inflexível.
- Quando insone, você não sabe exatamente como as coisas funcionam. Quando ligado, entorpecido, você controla como as coisas funcionam. - ele tenta me persuadir.
- Não, obrigado. Tenho medo do que posso criar. - inflexível.

A nota enrolada colocada no nariz de Alan viaja sobre uma carreira do pó branco milimetricamente preparada sobre o espelho. Essa maldita droga parece inofensiva quando vista desse jeito. Em menos de um segundo ele desapareceu com mais uma carreira.

- Isso aumenta a astúcia do homem.
- Um homem de verdade não precisa disso para  ser astuto. - respondo feroz.
- E por acaso você já é um homem de verdade?
- E se eu for? - Fico numa posição de como se eu fosse levantar para enfrentá-lo.
- Vai enfrentar um velho coitado e perder uma noite maravilhosa? - ele é bom com as palavras.
- Não. - volto a sentar normalmente.
- Aceita um conhaque? - não consigo recusar um conhaque.
- Um dose apenas. Quero me manter sóbrio o suficiente para ter certeza de que valeu a pena sair daquele bar para passar um tempo repugnante com você. - antipático.
- Não tenha dúvidas, filho. Não tenha dúvidas. - disse enquanto acendia um cigarro.

A minivan está atravessando a cidade, cruzando-a de leste a oeste.

O conhaque borbulha em meu estômago, os únicos sons no ambiente são do motor da minivan e do meu ácido estomacal completamente inquieto. Acho que só eu posso escutar meu estômago, os outros homens na minivan nem olham para mim, apenas para o caminho que seguimos.

A van para de frente para o portão de um condomínio desses de classe média alta, buzina, alguns segundos depois o portão começa a abrir.

Do lado de dentro só vejo grandes casarões. Aqui, provavelmente, moram bicheiros, fazendeiros, políticos e pastores. Grande parte é o nojo em carne e osso da sociedade. é melhor eu me manter em silêncio aqui dentro, caso contrário podem soltar os cães.

Descemos da minivan, enfim, em frente a uma grande casa branca com vidros temperados escuros. Jamais imaginaria que iria acabar num lugar desses após sair de um bar no barranco das lamentações. Esse velho pode não ter min ha confiança, mas alimentou meu senso de curiosidade e superou as expectativas.

- Aqui é a casa do vereador Amadeu. Ele é muito influente em quase todo tipo de negócio que movimente muito dinheiro nessa cidade.

Vereador Amadeu. Carlos Antônio Amadeu. Presidente da Câmara e dono de algumas terras nos arredores da cidade. Um homem de poder. Um homem do tipo que desprezo antes mesmo de conhecer.

Sim, sou ignorante além de antipático.

- Amadeu! Quero que conheça meu amigo... - um segundo de silêncio e os dois trazem seus olhares em minha direção.
- Paulo. - respondo ao cumprimentar o maldito - É um prazer conhecê-lo senhor! - além de tudo agora eu sou dissimulado.
- O prazer é meu Paulo! - um sorriso amarelo - Alan! Mostre a casa para ele, pegue alguma bebida e, caso estejam interessados, as garotas estão na beira da piscina. - estou numa comédia adolescente aonde pessoas da política dão festas de faculdade.

Eu acho que já estive aqui antes. Tudo me parece tão familiar. A bancada de mármore branco que se liga a pia da cozinha por onde passamos para chegar aos fundos da grande casa. Os móveis planejados, o porcelanato e, até mesmo, os beirais superiores feitos em gesso.

Possivelmente me lembrarei o porque esse lugar me soa tão familiar amanhã, quando acordar de ressaca.

- Alan, por que motivo me trouxe aqui?
- Para conquistar sua confiança.
- Explique melhor, ainda não entendi o porquê me apresentar para um político poderoso numa mansão cheia de garotas seminuas conquistaria minha confiança. - percebem a ironia nessa frase?
- Todas as pessoas poderosas aqui nessa casa confiam em mim. Eu sou alguém confiável para se falar de dinheiro, de negócios e de mulheres. Amadeu é um grande gerenciador de contrabandos dentro de nossa cidade. Sem ele essa cidade não seria nada e, sem mim, Amadeu não seria nada.
- Pasme! - ele conseguiu me impressionar - Mas por que precisa da minha confiança? Sou um desconhecido, alcoólatra, insone e antipático. Tenho alguma qualidade aproveitável além de degustador de conhaques? - a ironia nos tiraniza. Quem mesmo disse isso?
- Você tem uma personalidade que me interessa. Você é curioso, atencioso e acima de qualquer suspeita. Você não confia nem mesmo em sua sombra. Você sabe conversar com as pessoas quando quer, sendo ameaçador ou agradável. Você, Paulo, é tudo o que preciso para montar um império. Nós montaremos um império. - ele não desvia o olhar de meu rosto nem por um segundo.
- Tudo bem. Se você diz. O que tenho que fazer? - flexível.
- Venha amanhã para falar com Amadeu. Ele te contratará para um pequeno serviço. Tem tempo livre durante as segundas e sextas-feiras no período da tarde?
- Estou de férias de meu emprego. Tenho tempo durante três longas semanas. Será suficiente?
- Precisará de duas, depois acho que poderá gerenciar o plano em seu tempo livre.
- Então é só eu vir aqui amanhã e falar com Amadeu, dizer que você me recomendou para esse trabalho?
- Não! - seus olhos arregalaram-se ainda mais - Jamais me relacione. Apenas diga que ouviu falar que ele precisava de alguém de confiança e que você é a pessoas certa para isso. Caso ele perguntar o porquê, responda que é porque você não confia nem mesmo em sua sombra. amadeu é um homem inteligente, perceberá que não está para brincadeiras neste mundo.
- Que mundo é esse ao qual se refere?
- Tráfico de influências. - ele faz uma breve pausa e baixa o tom de voz - O poder, filho, é algo abstrato. Você pode usá-lo para defender seus interesses ou o interesse de quem pague por isso. Acredite, isso movimenta mais dinheiro do que o tráfico de drogas nos dias de hoje, até porque, o que permite que o tráfico de drogas continue é o tráfico de influência e, como é algo abstrato, em partes, fica difícil provar que ele de fato existiu.
- Nossa! - comecei a suar frio - Você me surpreendeu mais uma vez Alan.
- Filho, você só precisa da confiança de Amadeu. Venha aqui amanhã, fale com ele como se hoje não houvesse existido e cresça.

Eu não consigo imaginar como posso ter chegado até aqui, entre um copo e outro de cuba libre eu fui ficando alegre, leve, pesado, embriagado. Acordo em casa ao meio dia e com uma ressaca maldita. Não me lembro de ter tomado apenas conhaque, mas eu estou cheirando a conhaque.

Amadeu. Carlos Antônio Amadeu. Maldito Amadeu.