Confuso não é a palavra correta. Talvez desnorteado? Não... Foda-se.
Descobrir que aquele passado que um dia pôde representar tudo agora na verdade é apenas mais uma lembrança sem forma, cor, sabor, cheiro. Ou talvez tenha tudo isso, mas minha percepção deixou de ser aquela que fora há muito tempo. eu dificilmente me reconheceria ao defrontar o espelho. Frio, calculista, ligando o foda-se, literalmente.
Não consigo encarar a porra dessa calcinha. Nunca imaginei que ela iria jogá-la em cima de mim. Na verdade eu acho que nunca a conheci o suficiente para saber o que ela faria ou não. só não queria ter lembrado de Ana enquanto transava com Flávia. Se eu pudesse explodiria uma bomba de 100 megatons neste exato momento só para fazer minha mente parar de funcionar nesse frenesi frenético, mas eu sei que quando isso acontece não há bomba que possa me parar.
Eu sou a bomba. Pronto para explodir.
Explodir.
Explodir significa pegar a porra do smartphone e ligar para Ana, mas esse seria o erro mais grotesco que eu cometeria. Pensa, pensa, pensa. Odeio pensar demais. Pensa, caralho, pensa, pensa, pensa...
Se eu ligo para Ana agora, tentando reatar, tenho certeza de que tudo dará certo; a priori.
Na situação que me enfiei existem diversos fatores que poderiam acabar com todas as minhas chances de sucesso a longo prazo. Uma delas seria a morte, levando em conta que sou um matador particular da merda de um vereador idiota e eu querer dar as costas para essa merda de vida significa que ele vai mandar Armando vir à minha porta e me enfiar a porra de um projétil de 9mm na merda da minha cabeça. Sem falar que eu fiz a merda de ligar para minha ex, levá-la para meu lugar secreto - sim, o lugar em que a levei era um lugar que eu visitava sempre sozinho afim de relaxar -, foder com ela como nunca havia feito... e agora ela deve estar achando que eu a quero. Quem mandou eu gostar de fazer as coisas bem feitas? Se bem que para alguém que faz as coisas bem feitas eu sou uma bela de uma tragédia. Caos.
Meu cigarro acabou. Já fumei dois maços hoje. A ideia do câncer parece algo simplório agora. Sabe aquele sentimento de ter fodido com sua vida? Mas de ter fodido pra caralho. Ter fodido tanto que se piorar é capaz de me fazer sorrir.
Campainha.
- Paulo. - conheço essa voz. Acho que terei a bala em minha cabeça. Graças a Deus.
O caminho até a porta nunca foi tão longo. O tempo e espaço se distorceram à minha volta. Eu...
A estrada até o inferno pode até ser pavimentada pelas boas intenções, mas o inferno foi construído pelas más ações do ser humano, com toda sua arrogância, malevolência, mas nunca ignorância. a ignorância é inocente. Inocência não significa salvação.
- Armando. - do mesmo modo que falei arregalei meus olhos. Ele está todo ensanguentado e entrou sem nem ao menos pedir licença. Como se precisasse pedir algo.
- Paulo, quero saber agora se confia em mim ou se é apenas mais um fantoche. - ele foi tão afirmativo no que disse que eu nem sei se espera uma resposta.
- Fantoche?
- Tire esse sorriso cínico e desesperado da porra de seu rosto... - ele lavava as mãos no banheiro enquanto olhava de canto para mim. Armando nunca foi tão explícito ao falar comigo. Também nunca apareceu coberto de sangue na porta de minha casa. - Você sabe do que estou falando. Amadeu.
- Faço o que faço por mim. Eu... - hesitante. O que está acontecendo comigo?
- Fale. Não hesite ao falar comigo. - a voz dele soou dura e fria feito aço.
- Eu odeio aquele merda. - inflexível. Estou de volta ao jogo.
- Então vou te contar o motivo de eu estar assim. Mas antes teria algumas roupas para me emprestar? Não quero continuar sentindo esse maldito cheiro de sangue. - ele se olhava no espelho com um olhar tão fundo, tão perdido. Era nítido que estava mantendo a pose de durão, mas por dentro estava tão destruído quanto eu.
- Pode pegar algumas no meu guarda roupas. Quer que eu estacione seu carro aqui dentro? - sei ser generoso.
- Obrigado, Paulo. Desde que estourou os miolos daquele velho cego e babaca eu soube que era confiável.
- Então por que perguntou? - inflexível.
- Queria ouvir de sua boca. A palavra de um homem vale muito para Nós Sicilianos. - qualquer fragilidade desapareceu agora.
- Vou guardar o carro. Tome um banho, Armando.
Com o carro na garagem, Armando no banho, baseado na mão, agora acho que conseguirei relaxar por um momento. Cada trago me traz um pouco de serenidade, de paz. Mas a viagem...
Caralho.
Ana? De onde veio? Eu não te vi chegar aqui. Do que está falando? Não consigo entender o que diz... Fale mais alto... mais devagar...
Flávia? Vá embora! Pare de me confundir! Você só fode comigo... em todos os sentidos! O quê? Não te entendo!
Não entendo nada do que vocês duas falam... uma de cada vez, por favor.
Devo estar louco. E fraco... Não me bata Ana! Pare de me bater! Droga... não consigo segurar a mão dela... em que lugar está a porra da minha mão!? Calor... Saia daqui Flávia! Ana, eu posso explicar... Sou cada vez mais clichê.
Cadê minha casa? Cadê meu beck? Armando? Ana? Por que só sobrou você aqui?
- Eu sempre fui e sempre serei seu maior pesadelo. Eu sei quem você é e sei como destruir sua vida. Ninguém vai poder te proteger. - essa voz doce e venenosa que saia da boca de Flávia pareceu me deixar tão zonzo que eu não sei mais o que está acontecendo...
Pare de me bater, Ana! PARE! PA...
- Você é confiável ou a porra de um drogado? - Armando. foi um delírio?
A almofada estava queimada, Armando começou a falar o que aconteceu,mas o erro é tão óbvio que ele nem precisa gastar saliva. Acho que finalmente percebi o quanto estou envolvido na merda dessa história.
- Preste atenção, Paulo. - ele segurou meu rosto de modo que eu não pudesse tirar os olhos dele. - o que vou lhe contar vai mudar todo o rumo do que estávamos fazendo. Tudo o que aconteceu, tudo o que fez, tudo o que iria fazer, mudou. Amadeu traiu minha confiança. - já pode parar de falar, Armando.
Acho que preciso encontrar Alan.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
quarta-feira, 22 de julho de 2015
23. Abismo.
Na maioria das vezes as respostas para perguntas sem importância parecem mais importantes que os reais resultados nos projetos em que nos engajamos. mas não seriam respostas também resultados reais? Digo, uma resposta verdadeira é um resultado real. Mas como saber se a resposta que outra pessoa te deu é algo verdadeiro? Confiamos cegamente, falamos abertamente, isso sem falar no que os outros podem descobrir sobre nós a todo momento através das malditas redes sociais, que além de nos exporem para o mundo como se fosse uma vitrine, ainda tem o maldito poder de consumir nossas preciosas horas que deveriam ser gastas produzindo algo de realmente bom para a merda desse planeta.
Respire fundo.
Flávia mantém ambas as mãos segurando sua pequena bolsa de couro preto. Ela só veste preto, e isso torna seus olhos azuis o maior destaque que existe nessa noite. As estrelas não serão nada perto disso.
- Você está cada vez mais quieto. - ela olhava apenas para a frente. Nunca para o lado. Nunca para mim.
- Ficando quieto evito falar merda.
- Mas é o que faz de melhor. - olhou para mim.
- E pelo jeito te agrada. - devolvi o olhar.
Fomos no carro dela. Ela nunca confiou em mim para dirigir. Garanto que ela tem bons motivos. Seguimos por uma rodovia até chegarmos em um ponto de venda abandonado, à beira da estrada. Flávia olhava para o céu, tentando não parecer impressionada. Ela nunca admitia a minha capacidade de impressioná-la.
- Aqui podemos ver todas as estrelas de que a cidade nos priva. - peguei a mão dela e fui apontando as constelações, dizendo seus nomes, ensinando-a a ver as formas e entendê-las.
- O conforto da cidade tem seu preço. - seus olhos brilhavam como os de um gato na escuridão.
- Mas não precisamos pagá-lo todos os dias. - eu nunca trouxe Ana aqui. Mas Ana não é importante agora. Talvez nunca mais seja importante.
Ela estava de costas para mim, o braço direito esticado e minha mão sobre seu pulso; o esquerdo rente ao corpo e minha outra mão ao seu encontro, deslizando do antebraço até a mão. Ela esticou ambos os braço para a frente no mesmo instante em que minha respiração intensificava-se perto de seu pescoço; nossos dedos se entrelaçaram, eu a virei e vi seus olhos fechados, expressão delirante. Fechei meus olhos e beijei sua boca.
Eu poderia chamar isso de erro, mas uma breve analise dos últimos seis meses de minha vida e posso garantir que este talvez seja o maior acerto que poderia ocorrer neste momento.
Encostei-a no porta-malas do carro, minhas mãos deslizavam por sua silhueta com a mesma facilidade que se ergueram para que ela tirasse minha camisa. Suas mãos estavam pousadas na cintura de minha calça quando eu comecei a beijá-la no pescoço; suas mãos então subiram para que envolvesse meu pescoço num leve abraço e eu puxava vagarosamente seu vestido preto, deslizando a ponta dos dedos por sua coxa, pela parte de dentro, e conforme o vestido subia ela gemia de tesão.
- Está certo de que vai fazer isso. - ela disse, me olhando no fundo dos olhos logo após eu tirar-lhe o vestido todo.
- O que é certo? - disse eu, enquanto ela abria o botão de minha calça.
Minhas calças ao chão, assim como toda a roupa que ainda restava dela. A penetração, o vai, o vem, o vai novamente, novamente, outra vez. Todos sabem como funciona; arranhões,mordidas, tapas e tudo mais que puder apimentar o momento. Mas o que se passa na cabeça de cada um enquanto ocorre o coito? Ela pensa no quanto eu sou sexy para mais facilmente chegar ao orgasmo enquanto eu desvio minha atenção do momento para poder evitá-lo afim de prolongar o prazer que dou a ela. Pensando assim o sexo parece uma troca injusta devido aos meios, mas muito justa quando alcançados os fins. Você ainda está prestando atenção? Sim, você com quem tenho falado desde a primeira linha dessa verborragia toda que chamo de minha história, está prestando atenção? Você deveria entender que o real motivo de eu estar contando minha vida abertamente à você é para que aprenda com minha conduta errante e faça algo melhor de sua vida. O será que você é incapaz disso? Pode aprender com meus erros ou eu não pareço real o suficiente? Você come o que pode te matar, paga por algo que o escraviza, se relaciona com quem nunca quis ter que trocar uma palavra e, o pior de tudo, sente-se satisfeito no fim das contas. Você pode ser o próximo grande gênio da humanidade mas preferiu fritar um hamburguer, lavar um carro, pintar um portão, dirigir um caminhão, beber todo álcool que puder e usar todo tipo de droga que conseguir sem parecer um drogado com medo de aceitar a realidade. Esta não será sua última chance de se redimir, mas não sei se a próxima conversa será tão intimista como essa.
Ia quase me esquecendo, estou trepando.
Beijo Flávia num beijo em que apenas nossas línguas se tocavam, suavemente, lentamente. Eu queria que hoje fosse um dia especial, que este momento fosse especial, mas no final das contas é apenas sexo, e eu gosto disso. Do sexo, não da casualidade. Mas eu queria que fosse algo mais, talvez porque ela seja minha ex e isso tem uma carga emocional absurda anexada, mas tanto faz. Na realidade, eu só consegui gozar após pensar em Ana.
O jogo virou dentro de minha cabeça.
Não. Não ligarei para Ana.
Flávia me deixou em frente ao Mr jack e me olhou no fundo dos olhos.
- Sonhe comigo, babaca. - disse enquanto jogava sua calcinha em minha direção antes de acelerar e desaparecer na suave neblina que se formara no decorrer da noite.
Se a maior distância entre dois pontos é a falta de comunicação, então eu acabei de entender que meu silêncio é o abismo entre mim e o que desejo.
Respire fundo.
Flávia mantém ambas as mãos segurando sua pequena bolsa de couro preto. Ela só veste preto, e isso torna seus olhos azuis o maior destaque que existe nessa noite. As estrelas não serão nada perto disso.
- Você está cada vez mais quieto. - ela olhava apenas para a frente. Nunca para o lado. Nunca para mim.
- Ficando quieto evito falar merda.
- Mas é o que faz de melhor. - olhou para mim.
- E pelo jeito te agrada. - devolvi o olhar.
Fomos no carro dela. Ela nunca confiou em mim para dirigir. Garanto que ela tem bons motivos. Seguimos por uma rodovia até chegarmos em um ponto de venda abandonado, à beira da estrada. Flávia olhava para o céu, tentando não parecer impressionada. Ela nunca admitia a minha capacidade de impressioná-la.
- Aqui podemos ver todas as estrelas de que a cidade nos priva. - peguei a mão dela e fui apontando as constelações, dizendo seus nomes, ensinando-a a ver as formas e entendê-las.
- O conforto da cidade tem seu preço. - seus olhos brilhavam como os de um gato na escuridão.
- Mas não precisamos pagá-lo todos os dias. - eu nunca trouxe Ana aqui. Mas Ana não é importante agora. Talvez nunca mais seja importante.
Ela estava de costas para mim, o braço direito esticado e minha mão sobre seu pulso; o esquerdo rente ao corpo e minha outra mão ao seu encontro, deslizando do antebraço até a mão. Ela esticou ambos os braço para a frente no mesmo instante em que minha respiração intensificava-se perto de seu pescoço; nossos dedos se entrelaçaram, eu a virei e vi seus olhos fechados, expressão delirante. Fechei meus olhos e beijei sua boca.
Eu poderia chamar isso de erro, mas uma breve analise dos últimos seis meses de minha vida e posso garantir que este talvez seja o maior acerto que poderia ocorrer neste momento.
Encostei-a no porta-malas do carro, minhas mãos deslizavam por sua silhueta com a mesma facilidade que se ergueram para que ela tirasse minha camisa. Suas mãos estavam pousadas na cintura de minha calça quando eu comecei a beijá-la no pescoço; suas mãos então subiram para que envolvesse meu pescoço num leve abraço e eu puxava vagarosamente seu vestido preto, deslizando a ponta dos dedos por sua coxa, pela parte de dentro, e conforme o vestido subia ela gemia de tesão.
- Está certo de que vai fazer isso. - ela disse, me olhando no fundo dos olhos logo após eu tirar-lhe o vestido todo.
- O que é certo? - disse eu, enquanto ela abria o botão de minha calça.
Minhas calças ao chão, assim como toda a roupa que ainda restava dela. A penetração, o vai, o vem, o vai novamente, novamente, outra vez. Todos sabem como funciona; arranhões,mordidas, tapas e tudo mais que puder apimentar o momento. Mas o que se passa na cabeça de cada um enquanto ocorre o coito? Ela pensa no quanto eu sou sexy para mais facilmente chegar ao orgasmo enquanto eu desvio minha atenção do momento para poder evitá-lo afim de prolongar o prazer que dou a ela. Pensando assim o sexo parece uma troca injusta devido aos meios, mas muito justa quando alcançados os fins. Você ainda está prestando atenção? Sim, você com quem tenho falado desde a primeira linha dessa verborragia toda que chamo de minha história, está prestando atenção? Você deveria entender que o real motivo de eu estar contando minha vida abertamente à você é para que aprenda com minha conduta errante e faça algo melhor de sua vida. O será que você é incapaz disso? Pode aprender com meus erros ou eu não pareço real o suficiente? Você come o que pode te matar, paga por algo que o escraviza, se relaciona com quem nunca quis ter que trocar uma palavra e, o pior de tudo, sente-se satisfeito no fim das contas. Você pode ser o próximo grande gênio da humanidade mas preferiu fritar um hamburguer, lavar um carro, pintar um portão, dirigir um caminhão, beber todo álcool que puder e usar todo tipo de droga que conseguir sem parecer um drogado com medo de aceitar a realidade. Esta não será sua última chance de se redimir, mas não sei se a próxima conversa será tão intimista como essa.
Ia quase me esquecendo, estou trepando.
Beijo Flávia num beijo em que apenas nossas línguas se tocavam, suavemente, lentamente. Eu queria que hoje fosse um dia especial, que este momento fosse especial, mas no final das contas é apenas sexo, e eu gosto disso. Do sexo, não da casualidade. Mas eu queria que fosse algo mais, talvez porque ela seja minha ex e isso tem uma carga emocional absurda anexada, mas tanto faz. Na realidade, eu só consegui gozar após pensar em Ana.
O jogo virou dentro de minha cabeça.
Não. Não ligarei para Ana.
Flávia me deixou em frente ao Mr jack e me olhou no fundo dos olhos.
- Sonhe comigo, babaca. - disse enquanto jogava sua calcinha em minha direção antes de acelerar e desaparecer na suave neblina que se formara no decorrer da noite.
Se a maior distância entre dois pontos é a falta de comunicação, então eu acabei de entender que meu silêncio é o abismo entre mim e o que desejo.
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