Na maioria das vezes as respostas para perguntas sem importância parecem mais importantes que os reais resultados nos projetos em que nos engajamos. mas não seriam respostas também resultados reais? Digo, uma resposta verdadeira é um resultado real. Mas como saber se a resposta que outra pessoa te deu é algo verdadeiro? Confiamos cegamente, falamos abertamente, isso sem falar no que os outros podem descobrir sobre nós a todo momento através das malditas redes sociais, que além de nos exporem para o mundo como se fosse uma vitrine, ainda tem o maldito poder de consumir nossas preciosas horas que deveriam ser gastas produzindo algo de realmente bom para a merda desse planeta.
Respire fundo.
Flávia mantém ambas as mãos segurando sua pequena bolsa de couro preto. Ela só veste preto, e isso torna seus olhos azuis o maior destaque que existe nessa noite. As estrelas não serão nada perto disso.
- Você está cada vez mais quieto. - ela olhava apenas para a frente. Nunca para o lado. Nunca para mim.
- Ficando quieto evito falar merda.
- Mas é o que faz de melhor. - olhou para mim.
- E pelo jeito te agrada. - devolvi o olhar.
Fomos no carro dela. Ela nunca confiou em mim para dirigir. Garanto que ela tem bons motivos. Seguimos por uma rodovia até chegarmos em um ponto de venda abandonado, à beira da estrada. Flávia olhava para o céu, tentando não parecer impressionada. Ela nunca admitia a minha capacidade de impressioná-la.
- Aqui podemos ver todas as estrelas de que a cidade nos priva. - peguei a mão dela e fui apontando as constelações, dizendo seus nomes, ensinando-a a ver as formas e entendê-las.
- O conforto da cidade tem seu preço. - seus olhos brilhavam como os de um gato na escuridão.
- Mas não precisamos pagá-lo todos os dias. - eu nunca trouxe Ana aqui. Mas Ana não é importante agora. Talvez nunca mais seja importante.
Ela estava de costas para mim, o braço direito esticado e minha mão sobre seu pulso; o esquerdo rente ao corpo e minha outra mão ao seu encontro, deslizando do antebraço até a mão. Ela esticou ambos os braço para a frente no mesmo instante em que minha respiração intensificava-se perto de seu pescoço; nossos dedos se entrelaçaram, eu a virei e vi seus olhos fechados, expressão delirante. Fechei meus olhos e beijei sua boca.
Eu poderia chamar isso de erro, mas uma breve analise dos últimos seis meses de minha vida e posso garantir que este talvez seja o maior acerto que poderia ocorrer neste momento.
Encostei-a no porta-malas do carro, minhas mãos deslizavam por sua silhueta com a mesma facilidade que se ergueram para que ela tirasse minha camisa. Suas mãos estavam pousadas na cintura de minha calça quando eu comecei a beijá-la no pescoço; suas mãos então subiram para que envolvesse meu pescoço num leve abraço e eu puxava vagarosamente seu vestido preto, deslizando a ponta dos dedos por sua coxa, pela parte de dentro, e conforme o vestido subia ela gemia de tesão.
- Está certo de que vai fazer isso. - ela disse, me olhando no fundo dos olhos logo após eu tirar-lhe o vestido todo.
- O que é certo? - disse eu, enquanto ela abria o botão de minha calça.
Minhas calças ao chão, assim como toda a roupa que ainda restava dela. A penetração, o vai, o vem, o vai novamente, novamente, outra vez. Todos sabem como funciona; arranhões,mordidas, tapas e tudo mais que puder apimentar o momento. Mas o que se passa na cabeça de cada um enquanto ocorre o coito? Ela pensa no quanto eu sou sexy para mais facilmente chegar ao orgasmo enquanto eu desvio minha atenção do momento para poder evitá-lo afim de prolongar o prazer que dou a ela. Pensando assim o sexo parece uma troca injusta devido aos meios, mas muito justa quando alcançados os fins. Você ainda está prestando atenção? Sim, você com quem tenho falado desde a primeira linha dessa verborragia toda que chamo de minha história, está prestando atenção? Você deveria entender que o real motivo de eu estar contando minha vida abertamente à você é para que aprenda com minha conduta errante e faça algo melhor de sua vida. O será que você é incapaz disso? Pode aprender com meus erros ou eu não pareço real o suficiente? Você come o que pode te matar, paga por algo que o escraviza, se relaciona com quem nunca quis ter que trocar uma palavra e, o pior de tudo, sente-se satisfeito no fim das contas. Você pode ser o próximo grande gênio da humanidade mas preferiu fritar um hamburguer, lavar um carro, pintar um portão, dirigir um caminhão, beber todo álcool que puder e usar todo tipo de droga que conseguir sem parecer um drogado com medo de aceitar a realidade. Esta não será sua última chance de se redimir, mas não sei se a próxima conversa será tão intimista como essa.
Ia quase me esquecendo, estou trepando.
Beijo Flávia num beijo em que apenas nossas línguas se tocavam, suavemente, lentamente. Eu queria que hoje fosse um dia especial, que este momento fosse especial, mas no final das contas é apenas sexo, e eu gosto disso. Do sexo, não da casualidade. Mas eu queria que fosse algo mais, talvez porque ela seja minha ex e isso tem uma carga emocional absurda anexada, mas tanto faz. Na realidade, eu só consegui gozar após pensar em Ana.
O jogo virou dentro de minha cabeça.
Não. Não ligarei para Ana.
Flávia me deixou em frente ao Mr jack e me olhou no fundo dos olhos.
- Sonhe comigo, babaca. - disse enquanto jogava sua calcinha em minha direção antes de acelerar e desaparecer na suave neblina que se formara no decorrer da noite.
Se a maior distância entre dois pontos é a falta de comunicação, então eu acabei de entender que meu silêncio é o abismo entre mim e o que desejo.
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