quinta-feira, 23 de julho de 2015

24. WTF.

Confuso não é a palavra correta. Talvez desnorteado? Não... Foda-se.

Descobrir que aquele passado que um dia pôde representar tudo agora na verdade é apenas mais uma lembrança sem forma, cor, sabor, cheiro. Ou talvez tenha tudo isso, mas minha percepção deixou de ser aquela que fora há muito tempo. eu dificilmente me reconheceria ao defrontar o espelho. Frio, calculista, ligando o foda-se, literalmente.

Não consigo encarar a porra dessa calcinha. Nunca imaginei que ela iria jogá-la em cima de mim. Na verdade eu acho que nunca a conheci o suficiente para saber o que ela faria ou não. só não queria ter lembrado de Ana enquanto transava com Flávia. Se eu pudesse explodiria uma bomba de 100 megatons neste exato momento só para fazer minha mente parar de funcionar nesse frenesi frenético, mas eu sei que quando isso acontece não há bomba que possa me parar.

Eu sou a bomba. Pronto para explodir.

Explodir.

Explodir significa pegar a porra do smartphone e ligar para Ana, mas esse seria o erro mais grotesco que eu cometeria. Pensa, pensa, pensa. Odeio pensar demais. Pensa, caralho, pensa, pensa, pensa...

Se eu ligo para Ana agora, tentando reatar, tenho certeza de que tudo dará certo; a priori.

Na situação que me enfiei existem diversos fatores que poderiam acabar com todas as minhas chances de sucesso a longo prazo. Uma delas seria a morte, levando em conta que sou um matador particular da merda de um vereador idiota e eu querer dar as costas para essa merda de vida significa que ele vai mandar Armando vir à minha porta e me enfiar a porra de um projétil de 9mm na merda da minha cabeça. Sem falar que eu fiz a merda de ligar para minha ex, levá-la para meu lugar secreto - sim, o lugar em que a levei era um lugar que eu visitava sempre sozinho afim de relaxar -, foder com ela como nunca havia feito... e agora ela deve estar achando que eu a quero. Quem mandou eu gostar de fazer as coisas bem feitas? Se bem que para alguém que faz as coisas bem feitas eu sou uma bela de uma tragédia. Caos.

Meu cigarro acabou. Já fumei dois maços hoje. A ideia do câncer parece algo simplório agora. Sabe aquele sentimento de ter fodido com sua vida? Mas de ter fodido pra caralho. Ter fodido tanto que se piorar é capaz de me fazer sorrir.

Campainha.

- Paulo. - conheço essa voz. Acho que terei a bala em minha cabeça. Graças a Deus.

O caminho até a porta nunca foi tão longo. O tempo e espaço se distorceram à minha volta. Eu...

A estrada até o inferno pode até ser pavimentada pelas boas intenções, mas o inferno foi construído pelas más ações do ser humano, com toda sua arrogância, malevolência, mas nunca ignorância. a ignorância é inocente. Inocência não significa salvação.

- Armando. - do mesmo modo que falei arregalei meus olhos. Ele está todo ensanguentado e entrou sem nem ao menos pedir licença. Como se precisasse pedir algo.
- Paulo, quero saber agora se confia em mim ou se é apenas mais um fantoche. - ele foi tão afirmativo no que disse que eu nem sei se espera uma resposta.
- Fantoche?
- Tire esse sorriso cínico e desesperado da porra de seu rosto... - ele lavava as mãos no banheiro enquanto olhava de canto para mim. Armando nunca foi tão explícito ao falar comigo. Também nunca apareceu coberto de sangue na porta de minha casa. - Você sabe do que estou falando. Amadeu.
- Faço o que faço por mim. Eu... - hesitante. O que está acontecendo comigo?
- Fale. Não hesite ao falar comigo. - a voz dele soou dura e fria feito aço.
- Eu odeio aquele merda. - inflexível. Estou de volta ao jogo.
- Então vou te contar o motivo de eu estar assim. Mas antes teria algumas roupas para me emprestar? Não quero continuar sentindo esse maldito cheiro de sangue. - ele se olhava no espelho com um olhar tão fundo, tão perdido. Era nítido que estava mantendo a pose de durão, mas por dentro estava tão destruído quanto eu.
- Pode pegar algumas no meu guarda roupas. Quer que eu estacione seu carro aqui dentro? - sei ser generoso.
- Obrigado, Paulo. Desde que estourou os miolos daquele velho cego e babaca eu soube que era confiável.
- Então por que perguntou? - inflexível.
- Queria ouvir de sua boca. A palavra de um homem vale muito para Nós Sicilianos. - qualquer fragilidade desapareceu agora.
- Vou guardar o carro. Tome um banho, Armando.

Com o carro na garagem, Armando no banho, baseado na mão, agora acho que conseguirei relaxar por um momento. Cada trago me traz um pouco de serenidade, de paz. Mas a viagem...

Caralho.

Ana? De onde veio? Eu não te vi chegar aqui. Do que está falando? Não consigo entender o que diz... Fale mais alto... mais devagar...

Flávia? Vá embora! Pare de me confundir! Você só fode comigo... em todos os sentidos! O quê? Não te entendo!

Não entendo nada do que vocês duas falam... uma de cada vez, por favor.

Devo estar louco. E fraco... Não me bata Ana! Pare de me bater! Droga... não consigo segurar a mão dela... em que lugar está a porra da minha mão!? Calor... Saia daqui Flávia! Ana, eu posso explicar... Sou cada vez mais clichê.

Cadê minha casa? Cadê meu beck? Armando? Ana? Por que só sobrou você aqui?

- Eu sempre fui e sempre serei seu maior pesadelo. Eu sei quem você é e sei como destruir sua vida. Ninguém vai poder te proteger. - essa voz doce e venenosa que saia da boca de Flávia pareceu me deixar tão zonzo que eu não sei mais o que está acontecendo...

Pare de me bater, Ana! PARE! PA...

- Você é confiável ou a porra de um drogado? - Armando. foi um delírio?

A almofada estava queimada, Armando começou a falar o que aconteceu,mas o erro é tão óbvio que ele nem precisa gastar saliva. Acho que finalmente percebi o quanto estou envolvido na merda dessa história.

- Preste atenção, Paulo. - ele segurou meu rosto de modo que eu não pudesse tirar os olhos dele. - o que vou lhe contar vai mudar todo o rumo do que estávamos fazendo. Tudo o que aconteceu, tudo o que fez, tudo o que iria fazer, mudou. Amadeu traiu minha confiança. - já pode parar de falar, Armando.

Acho que preciso encontrar Alan.

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