segunda-feira, 11 de novembro de 2013

8. Anexação.

Durante 75% de minha triste e deprimida vida, eu detestei coisas fúteis como vestir-me bem para agradar alguém que se julga importante. No exato momento, vejo que os 25% restantes soam-me como Murphy esfregando sua teoria em minha cara e dizendo "eu estava certo", por mais que isso não tenha realmente nada a ver com a Lei de Murphy.

Pego meu melhor terno em meu guarda roupas, apenas por precaução, quero parecer confiável, como se precisasse provar algo a alguém.

Chamo um taxi pelo telefone, não quero chegar lá como um mendigo, como algo para me recuperar da noite anterior, escovo meus dentes, vou até a frente de minha casa e espero. Durante o caminho até a casa do vereador, imagino dezenas de possíveis discursos para apresentar-me a ele, de forma que soasse natural, de forma que soasse como se não houvéssemos nos conhecido na noite anterior.

Ainda não entendi o porquê de Alan ter me dito isso. Por que eu não poderia citar a noite anterior? Será que o excelentíssimo vereador Amadeu não faz negócios com quem aparece em suas festas?

Foda-se.

Não preciso de discurso algum.

Chego no portão do condomínio de Amadeu, toco o interfone.

-Boa tarde, com quem eu falo? - atendeu o porteiro.
-Olá! Meu nome é Paulo. Eu gostaria de encontrar-me com o vereador Amadeu. - fico uma graça com o vocabulário sutilmente formal.
-Um minuto por favor.

Esse é aquele momento em que o porteiro liga para o morador solicitado e averígua a situação, para saber se pode dar passagem ou não para o "estranho". Acredito que todas as pessoas "importantes" utilizem esse tipo de serviço.

-Senhor, que assunto você gostaria de tratar com o senhor vereador?
-Diga-o que é sobre um cargo de confiança. - mantive uma postura que demonstrasse confiança. Eu sou um pouco ator quando necessário.

Momentos de silêncio. Espera. Já falei como sou impaciente?

-Senhor Paulo, o vereador o espera em sua residência. - abriu o portão e deixou-me entrar.

Caminho pelo chão de ladrilho até a a casa do vereador, que com toda a certeza foi comprada com dinheiro público e também proveniente do crime organizado. é assim que penso.

Ele me esperava na porta frontal da casa, como um nobre anfitrião.

-Boa tarde vereador! Como vai? - meu sorriso é conquistador.
-Boa tarde senhor...
-Paulo!
-Paulo! Isso mesmo! Por favor, entre! - ele não lembra de mim. Estranho.

Entro em sua casa, não há o mínimo vestígio de uma grandiosa festa que ocorrera na noite anterior, mas são exatamente os mesmos móveis, nos mesmo lugares, como se nada nunca mudasse.

-Então senhor Paulo, veio me procurar pelo interesse em um cargo de confiança? - indagou ele.
-Exatamente. - minha postura era quase intimidadora - Senhor Amadeu, soube que precisa de alguém de extrema confiança para ajudá-lo em certos negócios dos quais vem tratando, e eu garanto ao senhor que sou a pessoa certa para isso. - eu sou Deus.
-Isso me soou um tanto prepotente, garoto, mas continue. - odeio que me chamem de garoto.

Dei um leve sorriso irônico.

-Vereador, olhe bem no fundo dos meus olhos e tente descobrir algo sobre mim. Tente descobrir minha idade, minha formação, meu emprego, minha renda, ou qualquer outra coisa de minha vida.
-Isso é impossível, meu caro.
-Exatamente. Eu não demonstro absolutamente nada ao mundo exterior, isso porque eu desconfio de minha própria sombra. Eu torno a anexação de todas as informações de minha vida uma simples e abstrata ideia, que apenas eu tenho acesso. - meu sorriso sínico, tom de voz firme e olhar forte o impressionaram severamente.
-Paulo, confesso-lhe que nunca me impressionaram de tal modo com palavras que não envolvessem números! Estou quase convencido de que você é o homem que preciso para o serviço. Você sabe do que se trata? - mesmo impressionado ele demonstra que não é tolo a ponto de se iludir facilmente.
-Senhor Amadeu, eu sei exatamente o que o senhor quer, e também sei o que posso fazer. Toda a influência para que essa cidade funcione vem de suas mãos, mas você tem muitas coisas para tratar em tão pouco tempo, por isso precisa de alguém de confiança para assessorá-lo, e por isso estou aqui. - nunca conseguiria ensaiar algo tão magnífico.
-Mais uma vez me surpreendeu. - ele baixou a guarda.
-Vereador Amadeu, não tome nenhuma decisão por enquanto. Aconselho que pense muito bem antes de me contratar. Amanhã virei aqui novamente para conversarmos, e então acertaremos o que será feito em diante. - construindo laços mais profundos.
-Eu aprecio generosamente sua postura senhor Paulo! Esperarei ansiosamente pela sua visita! - ele não consegue esconder o ânimo. Verme.
-Até mais vereador, passar bem.

Eu dei as costas com o sentimento de missão cumprida. Agora só me resta seguir em frente nessa tão psicótica empreita que me espera. Assim acredito.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

7.

Sou como uma rachadura no tempo. Não atrapalho, muito menos ajudo, apenas estou ali tentando representar algum perigo real para todos que me veem. Eu sou uma espécie de lixo do mundo que não fede nem cheira. Eu sou o Karma, eu sou a arma. Eu sou apenas um idiota egocêntrico que, por um acaso, está presenciando todo o mundo conhecido girando ao seu redor, como se realmente fosse o centro das atenções, como se realmente fizesse tanta diferença quanto Gandhi, Mandela e Lincoln fizeram.

A minivan começou a andar.

Ela não tem janelas traseiras, é um desses modelos preparados para transporte de algum tipo de carga. Estamos sentados em algumas caixas que estavam ali dentro, não imagino a quanto tempo.

- Alan, para onde iremos?
- aprenda a esperar, filho. A maioria das respostas da vida você recebe após esperar.

Mas uma de suas frases bonitinhas. Apesar de inteligente, esse cara me dá nos nervos. Se eu tivesse uma arma agora eu atiraria nele. Sem piedade.

Feixes de luz passam pela minha cara. São as luzes da cidade ao passar pelo para-brisas e finalmente encontrarem meu rosto cansado.

Alan e um outro cara que está sentado a seu lado parecem estar preparando algo em cima de um espelho. Provavelmente cocaína. Alan me oferece.

- Obrigado. Já tenho problemas demais para dormir. Isso me tornaria um insone absoluto e isso não me parece tão divertido. - sou inflexível.
- Quando insone, você não sabe exatamente como as coisas funcionam. Quando ligado, entorpecido, você controla como as coisas funcionam. - ele tenta me persuadir.
- Não, obrigado. Tenho medo do que posso criar. - inflexível.

A nota enrolada colocada no nariz de Alan viaja sobre uma carreira do pó branco milimetricamente preparada sobre o espelho. Essa maldita droga parece inofensiva quando vista desse jeito. Em menos de um segundo ele desapareceu com mais uma carreira.

- Isso aumenta a astúcia do homem.
- Um homem de verdade não precisa disso para  ser astuto. - respondo feroz.
- E por acaso você já é um homem de verdade?
- E se eu for? - Fico numa posição de como se eu fosse levantar para enfrentá-lo.
- Vai enfrentar um velho coitado e perder uma noite maravilhosa? - ele é bom com as palavras.
- Não. - volto a sentar normalmente.
- Aceita um conhaque? - não consigo recusar um conhaque.
- Um dose apenas. Quero me manter sóbrio o suficiente para ter certeza de que valeu a pena sair daquele bar para passar um tempo repugnante com você. - antipático.
- Não tenha dúvidas, filho. Não tenha dúvidas. - disse enquanto acendia um cigarro.

A minivan está atravessando a cidade, cruzando-a de leste a oeste.

O conhaque borbulha em meu estômago, os únicos sons no ambiente são do motor da minivan e do meu ácido estomacal completamente inquieto. Acho que só eu posso escutar meu estômago, os outros homens na minivan nem olham para mim, apenas para o caminho que seguimos.

A van para de frente para o portão de um condomínio desses de classe média alta, buzina, alguns segundos depois o portão começa a abrir.

Do lado de dentro só vejo grandes casarões. Aqui, provavelmente, moram bicheiros, fazendeiros, políticos e pastores. Grande parte é o nojo em carne e osso da sociedade. é melhor eu me manter em silêncio aqui dentro, caso contrário podem soltar os cães.

Descemos da minivan, enfim, em frente a uma grande casa branca com vidros temperados escuros. Jamais imaginaria que iria acabar num lugar desses após sair de um bar no barranco das lamentações. Esse velho pode não ter min ha confiança, mas alimentou meu senso de curiosidade e superou as expectativas.

- Aqui é a casa do vereador Amadeu. Ele é muito influente em quase todo tipo de negócio que movimente muito dinheiro nessa cidade.

Vereador Amadeu. Carlos Antônio Amadeu. Presidente da Câmara e dono de algumas terras nos arredores da cidade. Um homem de poder. Um homem do tipo que desprezo antes mesmo de conhecer.

Sim, sou ignorante além de antipático.

- Amadeu! Quero que conheça meu amigo... - um segundo de silêncio e os dois trazem seus olhares em minha direção.
- Paulo. - respondo ao cumprimentar o maldito - É um prazer conhecê-lo senhor! - além de tudo agora eu sou dissimulado.
- O prazer é meu Paulo! - um sorriso amarelo - Alan! Mostre a casa para ele, pegue alguma bebida e, caso estejam interessados, as garotas estão na beira da piscina. - estou numa comédia adolescente aonde pessoas da política dão festas de faculdade.

Eu acho que já estive aqui antes. Tudo me parece tão familiar. A bancada de mármore branco que se liga a pia da cozinha por onde passamos para chegar aos fundos da grande casa. Os móveis planejados, o porcelanato e, até mesmo, os beirais superiores feitos em gesso.

Possivelmente me lembrarei o porque esse lugar me soa tão familiar amanhã, quando acordar de ressaca.

- Alan, por que motivo me trouxe aqui?
- Para conquistar sua confiança.
- Explique melhor, ainda não entendi o porquê me apresentar para um político poderoso numa mansão cheia de garotas seminuas conquistaria minha confiança. - percebem a ironia nessa frase?
- Todas as pessoas poderosas aqui nessa casa confiam em mim. Eu sou alguém confiável para se falar de dinheiro, de negócios e de mulheres. Amadeu é um grande gerenciador de contrabandos dentro de nossa cidade. Sem ele essa cidade não seria nada e, sem mim, Amadeu não seria nada.
- Pasme! - ele conseguiu me impressionar - Mas por que precisa da minha confiança? Sou um desconhecido, alcoólatra, insone e antipático. Tenho alguma qualidade aproveitável além de degustador de conhaques? - a ironia nos tiraniza. Quem mesmo disse isso?
- Você tem uma personalidade que me interessa. Você é curioso, atencioso e acima de qualquer suspeita. Você não confia nem mesmo em sua sombra. Você sabe conversar com as pessoas quando quer, sendo ameaçador ou agradável. Você, Paulo, é tudo o que preciso para montar um império. Nós montaremos um império. - ele não desvia o olhar de meu rosto nem por um segundo.
- Tudo bem. Se você diz. O que tenho que fazer? - flexível.
- Venha amanhã para falar com Amadeu. Ele te contratará para um pequeno serviço. Tem tempo livre durante as segundas e sextas-feiras no período da tarde?
- Estou de férias de meu emprego. Tenho tempo durante três longas semanas. Será suficiente?
- Precisará de duas, depois acho que poderá gerenciar o plano em seu tempo livre.
- Então é só eu vir aqui amanhã e falar com Amadeu, dizer que você me recomendou para esse trabalho?
- Não! - seus olhos arregalaram-se ainda mais - Jamais me relacione. Apenas diga que ouviu falar que ele precisava de alguém de confiança e que você é a pessoas certa para isso. Caso ele perguntar o porquê, responda que é porque você não confia nem mesmo em sua sombra. amadeu é um homem inteligente, perceberá que não está para brincadeiras neste mundo.
- Que mundo é esse ao qual se refere?
- Tráfico de influências. - ele faz uma breve pausa e baixa o tom de voz - O poder, filho, é algo abstrato. Você pode usá-lo para defender seus interesses ou o interesse de quem pague por isso. Acredite, isso movimenta mais dinheiro do que o tráfico de drogas nos dias de hoje, até porque, o que permite que o tráfico de drogas continue é o tráfico de influência e, como é algo abstrato, em partes, fica difícil provar que ele de fato existiu.
- Nossa! - comecei a suar frio - Você me surpreendeu mais uma vez Alan.
- Filho, você só precisa da confiança de Amadeu. Venha aqui amanhã, fale com ele como se hoje não houvesse existido e cresça.

Eu não consigo imaginar como posso ter chegado até aqui, entre um copo e outro de cuba libre eu fui ficando alegre, leve, pesado, embriagado. Acordo em casa ao meio dia e com uma ressaca maldita. Não me lembro de ter tomado apenas conhaque, mas eu estou cheirando a conhaque.

Amadeu. Carlos Antônio Amadeu. Maldito Amadeu.

domingo, 28 de abril de 2013

6.


Algumas vezes me imagino como um velho, cego, com alguns livros em braile para serem devorados com o propósito de tornar-me menos solitário. Um fim trágico, concordo, porém até o consideraria como alternativa após uma breve reflexão sobre o dia-a-dia atual de nossa sociedade.

Não são todas as pirâmides que conseguem se manterem firmes sobre a areia fina.

Não sei se o que mais me assusta no mundo é a diversidade ou a hipocrisia. Ou será uma resultada da outra? Fica até complicado entender.

Aquele velho ritual de um dia tedioso ocorreu. Acordar, buscar algo pra fazer, tornar-me paranóico, enlouquecer, tomar uma dose de conhaque buscando distração, banho, refeição, televisão.

Eu poderia ligar para a Ana, mas prefiro fazer-me de difícil, esperar até um outro dia para desvendar um pouco mais dessa garota misteriosa, me divertir e diverti-la.

O tédio é apenas uma condição que nós mesmos impomos para tornar nossos dias algo medíocre.

Bom, chega desse domingo filosófico. Não sou um pensador moderno obsessivo, mas sim apenas mais uma pessoa com problemas no dia-a-dia.

Meu conhaque acabou.

Meu velho casaco jeans ainda serve para aquecer meu corpo em certas caminhadas noturnas, principalmente as que acabam me levando para algum bar estranho. Bar estranho, não. Eu conheço esse lugar. Olho para o balcão e deparo-me com a mesma velha de outra noite, ela novamente me olha de cima a baixo, aqueles olhos esbugalhados me assustam um pouco.

- O que vai querer rapaz?
- Uma dose de conhaque e uma cerveja, por favor. – quem fala “por favor” em um bar desses?

Começo a olhar ao meu redor, procurando por algo, mas não sei exatamente o que.

A mulher coloca um copo com conhaque no balcão e ao lado minha cerveja. Nem me preocupo se a cerveja está realmente gelada, faz tanto frio lá fora que eu a beberia quente e agradeceria.

Dou o primeiro gole no conhaque e olho para o lado, vejo um sujeito se aproximando, parece estar vindo em minha direção. Quem é ele?

- Você por aqui de novo, meu rapaz. – indagou ele.
- Como você pode ver! – disse eu com certa ironia na voz.
- Parece mais animado do que da última vez. – essa voz rouca é familiar. Sim! É o velho com quem conversei neste mesmo bar outra vez.
- Acho que estou conseguindo ajeitar certas coisas em minha vida.
- Isso é muito bom meu jovem. A vida passa muito rápido. Num dia eu era um garotão, cercado de mulheres, então no outro estava aqui, nesse bar, bebendo um conhaque junto de uma cerveja. – ele pareceu ironizar o que eu bebia.
- Triste fim, senhor.
- Não me chame de senhor! – disse assustado – Sou um jovem ainda! É nisso que acredito meu rapaz!
- Me desculpe, não quis ser rude com o senh... – um segundo de silêncio – Me desculpe novamente. – estou mendigando perdão de um desconhecido? - Qual o seu nome?
- Alan.
- Parece conhecer bem a vida Alan.
- Tento.
- Parece até ter criado certa antipatia por conta disso. – eu fui um tanto quanto desafiador nesse momento.
- Não tanto quanto você, meu jovem. – ele olhou para cima como se armasse um plano diabólico – Qual é mesmo seu nome? – seus olhos volveram-se em minha direção com um ar totalmente questionador.
- Paulo. – disse o primeiro nome que me veio a cabeça.
- Paulo?
- Isso mesmo. Paulo. – demonstrei mais certeza dessa vez.
- Não confia em ninguém, não é mesmo? Deve ter sido traído de forma colossal. – quem usa o termo colossal?
- Não confio nem em mim mesmo, Alan. As pessoas não são dignas de minha confiança. Se fossem eu nem sequer estaria aqui.

Ele me analisava de cima a baixo, parecia me estudar, buscava um ponto fraco meu talvez.

- É muito inteligente Paulo. Conte-me mais sobre o porquê de não confiar nas pessoas. Ou melhor! Conte-me o porquê não confia em você mesmo. – ele queria me surpreender.
- Porque eu confiaria em alguém que eu mal conheço, sendo que não conheço bem nem a mim mesmo? – responda essa, velho.
- Deveria confiar no que diz Paulo. Você é muito inteligente.

Bebo meu conhaque num único gole. Ele me estressou com essa psicologia barata. Eu saio de casa a fim de pensar menos, relaxar, mas encontro um velho, gordo, sem perspectiva nenhuma em sua vida e ainda por cima começa a indagar sobre quem devo confiar? Ele deve estar louco.

- Não tem nada a dizer?
- Não. Até porque não confio em você.
- E se eu lhe desse um motivo para confiar? – sua proposta parecia tentadora.
- E por que confiaria?
- Porque sua curiosidade cresceu junto do dilatar de suas pupilas. – agora ele virou poeta.
- E o que precisaremos fazer para que eu ganhe sua confiança?
- Você terá que confiar em mim, primeiramente. Caso contrário não terei como mostrar-lhe o maravilhoso mundo que conheço. – ele está me persuadindo.
- Confesso que estou curioso. E você já deve ter notado que sou daqueles que “paga para ver”. Esperto você Alan. Sabe jogar com a curiosidade das pessoas.
- É apenas parte do meu show.

Terminei minha cerveja e saímos do bar naquele mesmo instante. Ventava muito do lado de fora, era complicado respirar, meus olhos estavam lacrimejando.

- Ficaremos aqui fora, expostos a esse vento maldito Alan?
- Não, filho. Vamos ganhar uma carona.

De repente aparece uma minivan preta em nossa frente, a porta lateral abre e Alan entra. Eu entro logo atrás, um pouco receoso, mas sem hesitar.

A minivan começa a andar e eu já não sei mais onde vou parar.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

5. Transição.


A vontade de pegar meu telefone e ligar imediatamente para Ana, desde o momento que acordei, é imensa. Acordei às sete e dezesseis da manhã neste sábado, algo que só ocorre quando tenho que ir trabalhar. Completamente inquieto, acho que não me sinto ansioso desse jeito já faz um bom tempo. Embora minha vontade fosse ligar imediatamente, resolvi esperar até o meio dia, para que não acabe ligando num horário muito inconveniente.

Não tiro meus olhos do maldito relógio que fica tiquetaqueando em minha parede. Ele parece me encarar de uma maneira estranha, sarcástica, fazendo o tempo passar da forma mais lenta possível apenas para aumentar minha ansiedade e me levar à loucura.

Começo alguns afazeres domésticos para que o tempo passe sem que eu perceba. Lavo a louça, coloco a roupa em minha máquina de lavar, passo pano pelo chão para dar um ar mais arejado a minha casa.

Olho novamente para o relógio.

Mordo uma maçã, ligo a televisão, começo a pensar porque eu havia de estar ansioso. Eu poderia dormir até as onze da manhã, sem problema algum para, só então, pensar em ligar para ela.

Entre um passatempo e outro olho para o relógio novamente, a tão esperada hora se aproxima. Pego meu smartphone e começo a discar o número. Aperto o botão para realizar a chamada pouco antes do ponteiro dos minutos chegar ao número doze.

Chama pela primeira vez.

Chama pela segunda vez.

- Alô?
- Ana? – pergunto já sorrindo.
- Seria um rapaz misterioso do outro lado da linha? – o tom de voz dela demonstra sua confiança.
- Se este rapaz misterioso disse que te ligaria para combinarem de sair e beber algo durante a noite, sim, sou eu. – disse com o tom de voz convencido que venho utilizando desde a primeira palavra que disse a ela.
- Nossa! Já sedutor a essa hora do dia? – disse ela em tom de gozação.
- Eu faço o que posso para conquistar uma bela garota como você, Ana.
- Mas nem sabe se meu nome é Ana.
- Pelo menos eu tenho um nome para te chamar.
- E se eu inventasse um para você?
- Tudo bem. Invente.
- Então, o que acha de Lucas? – ela faz uma pausa – Não! Melhor Ricardo! – ela ri muito.
- Não acho que algum desses nomes combine muito comigo.
- Não vai dizer seu nome de verdade, não é?
- E porque diria? Não acha divertido esse joguinho? – a ironia tomou conta de mim.
- Na verdade acho! Vou te chamar por um nome diferente a cada dia que nos encontrarmos. Toda vez que me ligar eu o chamarei por um nome e, esse nome, será utilizado por toda a noite. Depois escreverei um diário onde o título de cada encontro nosso será o nome que escolhi para o dia. Gostou? – disse ela com uma doçura incrível. Criamos nosso próprio joguinho. Sinto-me espantado com a naturalidade que fluem as coisas entre nós.
- Combinado, Ana! – meu tom de voz dessa vez foi amigável – e qual será o nome de hoje?

Combinamos de ir até um barzinho no centro da cidade, onde pessoas bebem chopp em torres enquanto escutam algum cantor local de MPB. Um ambiente bem agradável, ótimo para um encontro de sábado à noite. Marcamos de nos encontrar no próprio bar. Eu deveria chegar mais cedo, sentar-me, beber alguma coisa enquanto a esperava. Ela apareceria algum tempo depois, deslumbrante, e seguiria até o balcão. A partir daí eu teria que ir até ela e, por mais estranho que isso pareça, flertar com ela.

Claro que esse plano deu totalmente errado.

Eu tomei um banho morno, escolhi uma boa roupa, peguei meu celular, calcei meus sapatos, as chaves de casa, tranquei as portas e fui caminhando em direção ao bar.

Acho que não me esqueci de nada.

Meu carro está no conserto, é um velho modelo sedam  azul, muito espaçoso. Não é um carro caro e novo como o que Dave está usando, porém é um belo carro com traços marcantes de sua época.

A caminhada de minha casa até o bar onde encontrarei Ana é de mais ou menos quarenta minutos. Eu andava haviam uns quinze minutos quando me dei conta de que algo ficou para trás. Tentei me lembrar se havia fechado todas as janelas, se algo ficará esquecido para o lado de fora, mas tudo estava em ordem até onde conseguia me lembrar. Não cometi o erro de esquecer o piloto do fogão aberto.

Coloco as mãos nos bolsos de minha calça, de um tiro meu smartphone e de outro as chaves de minha casa e, por um instante, minha mente sofre uma epifania, fazendo-me lembrar o que havia esquecido.

Minha carteira com todo meu dinheiro e documentos ficou em cima da mesa, na sala de estar de minha casa.

Meia volta, começo a caminhar em passos longos. Chego a minha casa, destranco o cadeado do portão com pressa. Eu deveria estar chegando ao bar.

Recomeço minha caminhada, estressado, não esperava que algo assim fosse acontecer, não hoje, o dia em que iria encontrar-me com uma garota maravilhosa, além disso, a primeira que fico interessado depois de muito tempo.

Chego ao bar, olho para o balcão e lá está ela, com uma taça de Martíni em sua mão esquerda e um cigarro em sua outra mão. Ando em direção a ela e, mais ou menos quando estava no meio do caminho, um cara qualquer que estava no bar se aproxima para falar com ela, ela olha para ele e sorri, não viu que eu estava chegando, continua a conversar com aquele estranho, eu mantenho a velocidade do passo, tento me manter calmo, esqueço de tudo, aproximo-me deles.

- Obrigado por entreter minha namorada enquanto ela me esperava! Tem algo que posso fazer para te recompensar? – disse-lhe olhando bem no fundo dos olhos, com uma confiança eminente em minha voz.
- É... Não! Desculpe-me qualquer coisa! Até mais! – disse o rapaz, assustado, enquanto voltava para sua mesa com alguns amigos.

Virei-me para a direção de Ana, ela tinha um olhar que demonstrava certo espanto, com toda certeza não esperava que algo do gênero fosse acontecer, até que a surpreendi com um beijo, sem palavras, sem rodeios. Meus lábios apenas tocaram os dela de forma quase que espontânea. Aqueles lábios carnudos de sua linda boca eram macios, com uma textura única, arrancando-me um suspiro quase que sem querer, enquanto sua língua encontrava a minha por um pequeno momento de estase.

- Me desculpe a demora, Ana. Eu acabei tendo um prob... – ela me interrompeu com um beijo.
- Não importa. John. Vou considerar seu flerte como um pedido de desculpas! – disse num tom de voz doce, como se nada mais importasse.
- Tudo bem. – disse sorrindo – Onde nos sentaremos?

Escolhemos um lugar para sentarmos, trocávamos sorrisos, pedimos uma torre de chopp mesmo sem saber se aguentaríamos bebe-la em dois, mas isso não importava muito, o momento por si só já estava valendo, e muito, a pena.

- E então senhor John. Posso saber agora qual o motivo do seu atraso? – disse com a voz provocante.
- Achei que já havia me perdoado, senhorita Ana. – respondi com um leve sarcasmo carregado de humor.
- É apenas curiosidade. Coisa de mulher. – disse disfarçando.
- Meu carro está internado em uma oficina, até deve estar pronto, mas ainda não fui até lá para descobrir e, por conta disso, precisei vir andando até aqui.
- Isso não parece motivo para atraso. – questionou.
- É, na verdade me atrasei porque quando estava na metade do caminho descobri que havia esquecido minha carteira em casa.
- John! Isso é demais! Você já pensou na história que tem para contar para seus netos? – ela ria sem parar.
- Se eu contar ninguém acredita! – num tom bem humorado.
- Pois bem. – disse após respirar fundo tentando parar de rir – Pelo menos seu atraso foi algo positivo de certa forma. – eu segurava suas mãos sobre a mesa do barzinho, olhava bem no fundo de seus olhos, cada um de nós com um sorriso bobo na cara. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo.
- É, até porque eu nem sabia como flertar com você pela segunda vez!
- Mas acertou em cheio.

Nossos rostos aproximaram-se e mais uma vez, nessa noite, nos beijamos.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

4. Paranoia.


O relógio tiquetaqueando dentro de minha cabeça, me levando a loucura. Vejo a traição em forma de amizade estampada na parede de meu quarto, posso vê-la pela janela. Tic, tac, tic, tac... Arranho meu rosto, me desespero e um grito sem som é a única maneira que consigo me expressar.

Foi apenas um pesadelo?

Foi.

Deixarei para lá, não gosto de levar meus sonhos e pesadelos muito a sério, isso só atrapalha o modo com que vejo a realidade. Mas sempre acabo me preocupando demais, numa constante busca por um problema que de fato nem existe. Esses sonhos me tornam um pouco paranoico.

Um pouco?

É novamente sexta-feira. Será que verei novamente a garota do vestido preto naquele estranho restaurante? Pensei algumas vezes nela durante a semana. Obsessão? Não, apenas desejo. Senti-me realmente atraído pela misteriosa garota.

Acho que vejo nessa garota uma chance de recomeçar, de esquecer Flávia. Esquecer não, superar. Pois isso tem sido muito complicado. Tantos planos, tantas ambições, tanto afeto. Tudo pelo ralo, como a espuma do banho que estou tomando para “lavar” minha alma.

Sempre penso muito durante o banho.

Minha casa tornou-se grande sem ela. Minha solidão tornou-se grande sem ela. Minha vontade de prosseguir tornou-se pequena.

Maldita garota. Levou tudo o que eu tinha dentro de mim e, mesmo assim, não parei de pensar nela durante um único dia, mas só de imaginar uma chance de superar, mesmo que só um pouco toda essa fase depressiva em minha vida, eu me alegro, começo a sentir disposição para fazer certas atividades que antes estava negligenciando. Sem ela eu me tornei um monstro procrastinador.

Procrastinar.

Tudo isso precisa mudar. Não posso ficar preso dentro desse círculo vicioso infinito, preciso me libertar, encontrar a tão desejada saída.

Ouço a buzina do sedam preto de Dave, já estou pronto para mais uma noite.

- Hey, Dave. Tudo bem?
- Estou ótimo cara! E você? Parece estar melhor depois da última sexta. Isso é ótimo! Fico feliz em ver meu melhor amigo se recuperando! – Dave tinha estampado em seu rosto um sorriso que ia de uma orelha à outra. Realmente estava feliz por mim e isso me contagiou, me deu o ânimo que faltava para que aquela noite não fosse apenas mais uma.
- Então, o que está esperando? Vamos logo para o restaurante Dave! – eu fiquei animado.

No caminho para o restaurante eu me esqueci dos pesadelos que me atormentaram durante a semana, me esqueci da falta que Flávia estava me fazendo. Me libertei, mesmo que por alguns instantes apenas, pude sorrir e me sentir mais leve.

Enfim chegamos, naquele mesmo restaurante “conceitual”. Dave não consegue esconder o quanto gostou desse lugar.

Eu não entendo como chama esse lugar de restaurante, porque apesar de ter um cardápio com diversos pratos culinários de dar água na boca, as pessoas vêm aqui para beberem e se divertirem, comem algumas porções, dão risadas, vão embora. Melhor esquecer isso.  Vou beber e me divertir.

- Já encontrou sua musa? – pergunta Dave.
- Ainda não. Mas espero vê-la aqui esta noite. Quem sabe eu consiga pelo menos o telefone dela. – respondi de forma alegre e descontraída.
- Isso é ótimo, cara!
- Eu estar disposto a falar com ela? – perguntei com um pequeno ar de dúvida.
- Não! Eu te fiz uma pergunta e você não respondeu “hã”! Estou impressionado! Você finalmente está voltando a ser aquele cara que conheci a muito tempo atrás, disposto a tudo! – disse com um super sorriso na cara. Esse sorriso já estava se tornando parte fundamental de Dave.
- Eu não respondo sempre com “hã”...
- Responde sim! Estava sempre distraído, as pessoas estavam se afastando cada vez mais de você. Só restou-lhe a mim. – disse se gabando um pouco.

As palavras de Dave me colocaram em uma reflexão profunda sobre meus últimos meses. Percebi que não afetei apenas a mim mesmo quando me isolei, mas também afetei meus amigos. As pequenas discussões com Carol e Andressa quando queriam me ajudar e eu não aceitei. A briga que aconteceu com Jonatan quando eu descobri que ele havia se encontrado com Flávia e que depois acabei descobrindo que ele estava tentando convence-la a conversar comigo, pois o fim do relacionamento estava me matando. Desprezei meus amigos quando eles tentaram me ajudar. Agora só me restou Dave.

Tomara que eu consiga arrumar algumas coisas em minha vida.

- Dave, você ainda tem contato com Carol, Andressa, Jonatan?
- Às vezes encontro com eles. Estão bem.
- Algum deles perguntou de mim? – tentei buscar esperanças.
- Não. Acho que eles deixaram no passado àquilo que um dia os fez mal. – disse Dave, com o olhar baixo.
- Acho que entendo o lado deles. Eu fui um estúpido, não é mesmo?
- Todo mundo comete erros, alguns mais graves, outros que são fáceis de perdoar. Você não pode ficar se culpando, cara. Se estiver arrependido de alguma coisa que fez ou deixou de fazer, faça algo para mudar tudo isso. – Dave soou um pouco filosófico nesse instante.
- Você está certo! Não vai adiantar ficar a me lamentar. Obrigado, Dave, Por tudo.

Entre uma cerveja e outra eu olhava por toda a extensão do restaurante procurando pela garota, afinal, voltamos aqui por este motivo.

- Ainda não a encontrou?
- Não. Já olhei para todos os lados, diversas vezes. Nada.
- Tem certeza de que ela existe?
- Espero que sim! – respondi com um tom um tanto quanto cômico – Espero não estar atrás de um fantasma ou alucinação. Isso seria desastroso!
- Desastroso? Eu seria obrigado a te internar, cara! – disse rindo. Estávamos rindo de uma situação, algo que não acontecia há certo tempo. Seis meses. Não eram seis dias e, por sorte nossa, também não eram seis anos.

Nesse momento percebi como rir junto de algum amigo é uma das melhores sensações que podemos nos deparar em nossa vida.

Vejo-a entrando no restaurante, desta vez com um vestido vermelho, linda como da última vez, segurando elegantemente um cigarro com os dedos de sua mão direita, uma bolsa vermelha no braço esquerdo, meia calça preta e botas de couro que completam o visual poderoso e sedutor.

- O que está olhando? – Dave pergunta e olha para trás – Ela é a garota de quem falou?
- Sim, Dave. É ela! – respondi com um sorriso obcecado em meu rosto.
- Meus parabéns! Agora quero ver como vai conseguir o telefone dela. Ela parece tão...
- Especial. – disse interrompendo-o.
- Inatingível.
- Ninguém é inatingível, Dave. Ninguém.

Levantei-me, sem precisar tomar coragem para ir até ela, eu estava pronto, era aquilo que eu queria, que eu desejava. Minha única ambição naquele momento.

Eu relaxei, não fiquei tentando imaginar como seria a conversa, apenas esvaziei minha mente e me foquei nela. Meu coração estava acelerado, aquilo estava sendo emocionante para mim. A cada passo que dava, ficava mais perto de meu objetivo.

- Esse vestido fica ótimo em você. – disse ao sentar ao lado da linda moça numa cadeira a beira do balcão.
- Obrigada. Eu conheço você ou é mais alguém querendo sexo com uma linda mulher? – respondeu erguendo levemente suas sobrancelhas.
- Espero que não. Eu não me sentiria confortável ao descobrir que conhecia uma mulher tão bela como você e que não me lembrava disso e, a propósito, eu não sou tão canalha a ponto de vir falar com você apenas querendo sexo.
- Mas você quer sexo. – respondeu espontaneamente e acendeu outro cigarro.
- Eu sou homem. Faz parte da minha natureza e eu adoro essa parte. – me senti como Dave quando chegou com aquele lindo sedan preto à minha casa na sexta-feira anterior – Mas tenho certeza que você tem muito mais a me mostrar do que apenas sexo.
- Tenho sim. Quer saber qual a primeira coisa? – ela disse isso puxando minha gravata, demonstrando total intenção de me provocar.
- Qual o seu nome. – ela se surpreendeu com a forma que eu virei o jogo.
- Ana. E o seu? – ela ficou um pouco fria e eu mantive um sorriso no rosto, sem me abalar.
- Que tal descobrir?
- É um jogo de adivinhação, garanhão misterioso? – sua frieza diminui ao dizer essas palavras.
- Me passe seu telefone, posso te ligar amanhã, te convido pra sair e, quem sabe, você descubra meu nome. – me senti um jogador, vendo todo o processo de conquista como um jogo de xadrez.
- Tudo bem. – ela pegou uma caneta dentro de sua bolsa vermelha, pegou um guardanapo que estava em cima do balcão, anotou o número de seu telefone, beijou o guardanapo e entregou-o a mim – Ai está.
- E como vou saber que é realmente seu número?
- Deveria se preocupar em saber meu verdadeiro nome. – após dizer, levantou-se, começou a andar em direção a porta, olhou para trás, piscou um dos olhos e sorriu.

Olhei para o guardanapo, ali estava seu telefone e a marca de seu beijo. Sem nenhum nome. Para mim seu nome é Ana, mas será seu verdadeiro nome? A única identificação, de fato, no guardanapo era a estampa de seus inconfundíveis lábios.

Voltei até a mesa onde Dave me esperava com um grande sorriso no rosto.

- Cara, sou seu fã!
- Menos Dave. Só consegui o telefone.
- O telefone da mulher mais linda do mundo! – disse exaltado.
- E a mais misteriosa também! – falei rindo.
- Vai ligar pra ela amanhã?
- Só não ligo hoje para não parecer desesperado! – começamos a rir.
- Muito bem, meu amigo! Fico feliz em te ver assim!

Bebemos mais algumas cervejas para comemorar e depois fomos embora. Felizes, como a muito tempo não ficávamos.

terça-feira, 19 de março de 2013

3. Atenção, por favor.

Deitado em minha cama, abro os olhos de repente, arregalo-os tanto que sinto que quase saltaram para fora de minha cabeça. Hoje é um novo dia ou apenas mais um dia? Minha pergunta cliché de todos os dias.

Cliché, mas eu nunca fui capaz de respondê-la, por mais simples que pareça.

Abro a cortina de meu quarto, é um dia maravilhoso, me sinto bem disposto, diferente do dia anterior, onde tive que sair no meio da noite para acalmar meus pensamentos. Espero que a beleza desse céu azul maravilhoso se reflita em meu humor e assim eu possa ter um verdadeiro "bom dia", assim como as pessoas que me veem me desejam com um sorriso dissimulado.

Até as pessoas mais sinceras mentem ao dizer bom dia.

Pego algumas bolachas, como uma por uma, meu desjejum, ainda são 7 e meia da manhã, hoje não irei trabalhar, estou de férias. Acho que esse já é um motivo para ter um bom dia.

O dia está tão lindo lá fora e eu insisto em sentar a frente de meu computador, checar minhas redes sociais e e-mails, ler algumas notícias de coisas que ocorreram ao redor do mundo que não vão alterar em nada o meu dia. É uma completa perda de tempo que eu insisto em manter dentro de minha rotina.

Pense nas várias coisas que poderíamos fazer com o tempo que gastamos na frente desta máquina maldita, que mesmo sendo um ótimo instrumento de comunicação, nos torna viciados em algo que nem nos dá tanto prazer assim. Eu me sinto um lixo pensando assim. Eu sei o que é certo, mas pareço gostar de errar por prazer. Um pseudo masoquismo do ego, ferindo meu orgulho e meu intelecto.

O que me consola é que já estamos na sexta-feira. Hoje é o dia em que eu e Dave saímos pra algum barzinho, tomar umas cervejas e relaxar, tirar o estres de nossas costas e, quem sabe, conseguir alguma garota para finalizar a noite.

Olho para o relógio de meia em meia hora, estou inquieto, esperando que o tempo passe rápido para que eu possa sair a noite e tentar me divertir.

Começo a arrumar minha casa, preciso me ocupar, assistir televisão ou ficar no computador não seria uma alternativa muito boa, eu ficaria entediado e isso desanimaria minha noite, então, arrumo minha casa para passar o tempo e, por consequência, já elimino a necessidade de tê-lo de arrumar um outro dia.

Enquanto mudo certas coisas de lugar, limpo móveis, limpo o chão, recolho roupas sujas pela casa e almofadas caídas no chão, tudo isso com uma expressão em minha cara que demonstra todo meu mau humor, uma antipatia ligada a minha atenção. Quanto mais eu presto atenção em algo, mais propenso sou a odiá-lo.

Eu amo odiar, sou uma máquina de odiar, mas quero encontrar alguém que destrua essas objeções e me ensine a amar.

Um pequeno momento de raiva ao varrer a casa, tão normal quanto o assovio de uma chaleira com água fervendo.

Me sinto um adolescente revoltado pensando assim. Reclamando da vida que escolhi levar, pelo simples prazer de reclamar.

Terminei de limpar minha casa, parece até mais confortável assim. Deve ser mesmo. Tudo em ordem, bem diferente do pesadelo que antes parecia. Eu deveria fazer isso mais vezes e também deveria me julgar menos ocupado, dar valor as tarefas que visam meu conforto. Deveria.

Vou tomar um banho, daqui a pouco já será a hora de ir encontrar Dave e beber algumas garrafas.

Banho, o lugar onde tudo se pode, onde ninguém verá o que está fazendo, a não ser que esteja em um banheiro coletivo como o de um clube de futebol ou uma prisão. Eu particularmente uso a hora do banho para pensar sobre o que fiz no meu dia, sobre o que eu espero do próximo dia. É um dos poucos momentos em que eu penso em algo sem reclamar do mesmo. Um momento de libertação, como se a água morna e a espuma lavassem minha alma e tudo o que há de ruim em mim fosse pelo ralo. Só uma ideia.

Meu mundinho egoísta recheado de ideias.

Escuto o som da buzina de um carro, olho pela janela e vejo um sedam preto, abaixa o vidro da frente, é Dave.

- Hey Dave! Não esperava que passasse aqui, ainda mais com um belo carro como esse. - digo demonstrando estar impressionado.
- Ah, hoje é dia de comemoração meu amigo! Não sou mais um desses reles empregados, agora sou gerente! - fala animado, mas com um certo tom arrogante, provando para si mesmo que nasceu para vencer.
- Nossa, isso é incrível! Mas e esse carro, é seu?
- Não, não. É da empresa. Fica a minha disposição. Toda a manutenção paga pela empresa! Pneus, gasolina, reparos mecânicos e elétricos. - ele realmente se tornou superior de acordo com seu conceito.
- Isso é ótimo! Então vamos comemorar!

Pego minha carteira e meu smartphone, entro no belíssimo sedam preto e seguimos a procurar um belo lugar para dar início a essa noite de comemoração.

As luzes da cidade me hipnotizam junto do ronco silencioso, quase imperceptível, do motor do sedan preto. O banco confortável parece ter sido desenhado para mim, estou me tornando parte do carro enquanto viajo em pensamentos sobre o que ocorreu na noite anterior. Preciso prestar mais atenção no que aocntece a minha volta. Me sinto negligente.

- Está apaixonado?
- O que? - respondi assustado, sem saber do que Dave estava falando.
- Eu perguntei se você está apaixonado! - disse rindo - Você ficou olhando quieto pela janela por uns cinco minutos, quase imóvel! Deve estar apaixonado! - continuou rindo.
- Não. Não estou. - respondi com um tom de voz levemente humorado seguido de um pequeno riso.
- Então o que é?
- Como assim, o que é?
- Se não está apaixonado, em quem ou em o que está pensando?
- Na verdade nem eu mesmo sei. Talvez eu não pense em nada. Deve ser só uma dessas distrações que tenho às vezes.
- Distrações? Tem se envolvido com prostitutas é? - Dave franziu o cenho.
- Não! Está louco Dave? Acho que eu jamais seria capaz de pagar por sexo! Soa absurdo para mim! - demonstrei certo espanto.
- Vizinha?
- Não!
- Empregada?
- Não!
- Prima?
- Dave! Pode parar com isso? Não tem mulher envolvida na minha vida! Você sabe que eu tenho levado uma vida solitária. Eu tenho me contentado com meus momentos de paz enquanto escrevo ou tento tocar algum acorde no meu violão. Desde que a Flávia me deixou tem sido assim e eu não quero mudar. - disse eu com um tom de voz que o fez entender que aquela conversa me irritou.
- Tudo bem, cara. Mas eu já te disse que você precisa encontrar alguém ou, pelo menos, pegar algumas garotas por ai para não ficar preso ao passado. Pense nisso, ok?
- Vou pensar, Dave. Vou pensar.

Um minuto de silêncio, o carro em movimento, Dave liga o rádio que começa a tocar seu CD do Three Days Grace. Aquelas músicas que eu tanto adoro, mas por algum motivo não escuto faz muito tempo. Acho que uns 6 meses. É claro, 6 meses! Exatamente o tempo que faz que Flávia me deixou. As letras dessas músicas me fazem lembrar dos momentos incríveis com ela.

Passado.

- Chegamos!
- Que lugar é esse?
- Um bordel!
- Está brincando comigo, Dave?
- Estou! - começa a rir exageradamente - É apenas um restaurante! Relaxe! Eu não aprontaria isso com você. - disse de um modo que me passou confiança, afinal, eu confio no meu melhor amigo.

O restaurante tinha um estilo interessante, algumas luzes de neon azul espalhadas pelos beirais, garçonetes belíssimas a nos atender, vestindo apenas uma mini saia e um top que valorizava seus seios fartos. Eu já estava começando a desconfiar que aquele lugar não era um restaurante e sim um bordel mesmo, a não ser pelo fato de não ter mulher no cardápio.

- Tem certeza que aqui é um restaurante? - levantei minha dúvida novamente.
- Absoluta. É um restaurante conceitual. Não sei qual o conceito, mas eu gostei.
- Você não vale nada mesmo, Dave!

Entre um copo de chopp e outro, várias risadas e, principalmente, a descontração que eu precisava, meu corpo e minha mente se tornaram mais leves. Talvez fosse o álcool em meu organismo.

Comecei a olhar para o balcão, uma garota de cabelos longos e negros, grandes olhos castanhos, um cigarro aceso na mão direita e uma taça em sua outra mão. Vestia um vestido preto com um certo brilho hipnotizador, contrastando com sua pele branca. Sensual a cada gesto. Desde as tragadas em seu cigarro de filtro vermelho até os menores lances com seu cabelo que mais parecia ter sido preparado para um comercial de algum produto cosmético capilar.

Estou extasiado!

Eu não parei de olhar para ela. Ela sequer deu algum sinal de que olharia para o meu lado. Com certeza é muito para mim.

Estou chegando às nuvens e estou a ponto de flu...

- Acorda, cara! - gritou Dave, fazendo um zumbido ecoar em minha mente, como se o restaurante inteiro tivesse olhado para mim - Atenção! Por favor! Em que diabos de lugar você estava com sua mente doentia, meu amigo?
- Eu só me distraí... Me distraí olhando uma garota.
- Uma garota? - perguntou esboçando um sorriso - Cara, isso é ótimo! - Já não era mais um esboço, já era um sorriso - Quem é a musa inspiradora de seus pensamentos?
- Aquela... - ela sumiu do balcão - Ela estava bem ali, sentada de frente para o balcão, Dave. Vestido preto... Esquece, ela deve ter ido embora.
- Hey, relaxe cara. Podemos voltar aqui mais vezes, quem sabe não a vê novamente e, sem hesitar, vai e fala com sua musa misteriosa?
- É uma ótima ideia. Mas agora vamos embora, tenho muitas coisas para fazer pela manhã, Dave.
- Lavar a louça, é?
- Sim. - disse com um tom um pouco sarcástico.
- Ok. Vamos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

2.


Não importa se você mora em Nova Iorque, Los Angeles, São Paulo, Curitiba ou no inferno de cidade pequena onde eu moro, ao sair à noite a principal coisa que você tem para fazer é sentir medo. A noite cheira a perigo, e esse cheiro te torna mais inquieto ainda.

Eu quero buscar diversão ou pelo menos um passatempo para esta noite insone. Eu quero tomar uma bebida pra aquecer, pra esquecer, adormecer.

Já estou a uns três ou quatro quarteirões de casa, meu cérebro parece funcionar como o motor de um caça F-22, quebrando a velocidade do som e causando um estrondo dentro de mim, me perturbando, como se fosse me jogar ao chão e me arrastar no asfalto até que eu ficasse em carne viva, mas não, eu continuo em pé, caminhando, pálido.

Não é de hoje que eu deixei de me sentir bem, não deve ser a toa também. Já faz algum tempo que eu venho perdendo o sono, mas eu nunca havia pensado em sair e procurar algo para me distrair que não fosse fazer algo para comer e assistir televisão. Quem sabe saindo da rotina eu possa quebrar esse ciclo.

Já são quase 20 minutos caminhando, acho que estou vendo um bar. Tem muita neblina nessa cidade durante a noite, ou será que é apenas nesta noite em especial? Tanto faz, avistei um bar e irei até ele tomar uma dose de conhaque e quem sabe depois uma cerveja.

Ao entrar no bar, vejo um grande balcão, uma velha mulher atrás, dele atendendo alguns senhores que ali estão, alguns já embriagados, conversando sobre futebol e música sertaneja. Alguns tentavam falar sobre mulheres, mas duvido que algum deles consiga ter alguma relação além de suas esposas e garotas de programa. É pura autodestruição dentro de um pequeno bar.

O chão do bar era sujo, comecei a imaginar como deveria ser o banheiro, assim já decidi que apenas tomaria alguma bebida e em seguida sairia à procura de algum outro lugar para passar o tempo. Comer nesse bar, nem pensar. Só de olhar alguns senhores comendo suas coxinhas e risólis, com rostos sorridentes, como se aqueles fossem os melhores salgados que já tivessem comido, eu já me sentia assustado e meu fígado se aproximava de minha garganta.

Era um lugar horrível.

- O que vai querer senhor? - perguntou a velha do bar com uma cara de insatisfação.
- Eu quero uma dose de conhaque, por favor.

Ela me mediu com os olhos de cima em baixo, parecia que me analisava para saber o quanto eu ganhava por mês, no que eu trabalhava, se eu estudava ou algo do tipo, se tinha namorada, casa, carro. Por que as pessoas têm que nos analisar desse jeito?

Distraio-me por um instante com um sujeito brigando do lado de fora do bar com uma mulher trajando roupas vulgares, com certeza é uma prostituta, e no mínimo ele não quer pagá-la. Hoje em dia isso é cada vez mais comum. Infelizmente. Ou estou julgando demais, também?

Olho para o balcão e meu copo com conhaque está bem na minha frente. Bebo em um único gole. Minha expressão não nega que não sou acostumado a tomar algo forte, meus olhos pareceram dar um giro de 360º em seu próprio eixo. Beberei uma cerveja para relaxar.

- A senhora pode me trazer uma cerveja? - digo, chamando a velha do bar.
- De qual o senhor vai querer?
- Qualquer uma, desde que esteja bem gelada.

Nesta hora, com toda a certeza do mundo, ela pegou sua cerveja mais cara da geladeira, colocou em meu balcão junto de um copo americano e deu as costas novamente.

O bar é horrível, mas pelo menos a cerveja é gelada. Espero que os copos estejam realmente limpos.

- O que um garoto como você faz num lugar desses?
- O quê? - viro para o lado assustado procurando quem falou comigo.

Vejo um homem de mais ou menos 50 anos, barbudo e um pouco gordo, com um sorriso estranho na cara, não consegui identificar exatamente o que sua expressão queria dizer.

- Um rapaz jovem como você, bem apessoado, o que faz num muquifo desses? - pergunta o velho barbudo.
- Ah, sim... - relaxo minha expressão para demonstrar que estou à vontade com a situação - Eu perdi o sono e resolvi sair beber alguma coisa, pra relaxar meus pensamentos. - disse-lhe, explicando meus motivos.
- Hum, interessante. Relaxar os pensamentos. E está funcionando?
- É, acho que sim. Estou me sentindo menos inquieto.
- Menos inquieto? Então tem algo que o incomoda ainda! - disse ele, terminando com uma curta risada.
- Sim, tenho pensado demais ultimamente. Espero que bebendo essa cerveja eu consiga acalmar meu cérebro.
- Acho que você precisa por algumas ideias para fora meu jovem. Guardá-las dentro de si só vai fazer com que você pense cada vez mais. Daqui certo tempo não vai mais ter espaço para guardar tudo isso em sua cabeça. - disse o velho barbudo, com uma expressão séria, em seguida dando às costas e indo em direção a porta do bar.
- Hey, qual o seu nome? - perguntei enquanto ele caminhava em direção a saída, mas ele saiu do bar sem me responder.

Levantei-me e corri em direção a porta, sai do bar e olhei para ambos os lados e não avistei o velho barbudo. Ou ele entrou em algum carro, ou sumiu como mágica.

Voltei para dentro do bar, bebi minha cerveja, paguei a conta e voltei para casa.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

1.


Acordo no meio da noite com o gosto salgado do meu suor escorrendo em meu rosto. O ar condicionado está ligado mas parece que o quarto está em chamas de tanto calor que sinto. Vou até o banheiro, jogo água em meu rosto afim de refrescar-me um pouco, tentar dormir novamente, mas de repente me pego inquieto dentro do meu próprio eu, como um barulho irritante tirando a concentração quando você mais precisa dela, te incomodando mais e mais, até se tornar insuportável manter o mesmo curso que se dispôs.

Procuro algo para fazer, algum jogo em meu computador, alguma coisa para cozinhar, um cigarro para tentar me acalmar, mesmo sabendo que nada disso adiantaria, eu preciso mesmo é de algo que me faça sofrer uma catarse para me livrar de tudo o que me irrita por dentro ou, para não ter que sair de minha zona de conforto, tomar algum remédio ou bebida para me ajudar a dormir.

"Numa expectativa a longo prazo, todos nós estamos morrendo", foi isso que lí em algum dos meus livros, ou será que em algum filme que assisti a algum tempo atrás? Já não sei dizer exatamente, não tenho mais certeza de nada, estou tão confuso que atividades simples estão se tornando complicadas nas últimas semanas.

Já são 2 horas da manhã, eu poderia ligar a televisão para ver se está passando algum filme ou seriado interessante e assim matar um pouco do meu tempo. Eu poderia sair caminhar sem rumo a fim de cansar meu corpo para que ao chegar em casa eu dormisse facilmente sem precisar nem de remédios ou bebidas para isso.

Eu precisava fazer alguma coisa para acalmar o meu ego, ou seja lá o que for que estava dentro de mim, me atormentando nesse dia. Precisava tomar uma atitude bem rápido para que aquela dor parasse.

Olho para o relógio e o tempo parece não passar. É como se eu quisesse contar as horas até cansar, mas jamais ficaria concentrado tempo suficiente nessa atividade.

Ligo a TV e começo a passar os canais. É incrível como tem propaganda a essa hora da noite. Pessoas sorrindo e te oferecendo coisas que você nunca vai precisar. Todos felizes vivendo o sonho americano.

Desligo a TV. Não é disso que preciso agora.

Eu preciso de liberdade.

Pego minha carteira para caso eu queira comprar algo pelo caminho, meu smartphone na esperança de receber uma ligação de alguém estranho pedindo socorro, coloco o primeiro par de tênis que encontro, me recordo que pode estar frio lá fora e que estou de bermuda. Tiro os tênis para colocar uma calça. Recoloco os tênis, coloco uma camisa qualquer e pego um moletom.

Abro a porta de casa, está um tanto frio do lado de fora. Costuma ventar durante a noite em minha cidade.

Tranco a porta e começo a caminhar sem rumo, pensando no que posso fazer durante essa noite.