Algumas vezes me imagino como um velho, cego, com
alguns livros em braile para serem devorados com o propósito de tornar-me menos
solitário. Um fim trágico, concordo, porém até o consideraria como alternativa
após uma breve reflexão sobre o dia-a-dia atual de nossa sociedade.
Não são todas as pirâmides que conseguem se manterem
firmes sobre a areia fina.
Não sei se o que mais me assusta no mundo é a
diversidade ou a hipocrisia. Ou será uma resultada da outra? Fica até
complicado entender.
Aquele velho ritual de um dia tedioso ocorreu. Acordar,
buscar algo pra fazer, tornar-me paranóico, enlouquecer, tomar uma dose de
conhaque buscando distração, banho, refeição, televisão.
Eu poderia ligar para a Ana, mas prefiro fazer-me de
difícil, esperar até um outro dia para desvendar um pouco mais dessa garota
misteriosa, me divertir e diverti-la.
O tédio é apenas uma condição que nós mesmos impomos
para tornar nossos dias algo medíocre.
Bom, chega desse domingo filosófico. Não sou um
pensador moderno obsessivo, mas sim apenas mais uma pessoa com problemas no
dia-a-dia.
Meu conhaque acabou.
Meu velho casaco jeans ainda serve para aquecer meu
corpo em certas caminhadas noturnas, principalmente as que acabam me levando
para algum bar estranho. Bar estranho, não. Eu conheço esse lugar. Olho para o
balcão e deparo-me com a mesma velha de outra noite, ela novamente me olha de
cima a baixo, aqueles olhos esbugalhados me assustam um pouco.
- O que vai querer rapaz?
- Uma dose de conhaque e uma cerveja, por favor. –
quem fala “por favor” em um bar desses?
Começo a olhar ao meu redor, procurando por algo, mas
não sei exatamente o que.
A mulher coloca um copo com conhaque no balcão e ao
lado minha cerveja. Nem me preocupo se a cerveja está realmente gelada, faz
tanto frio lá fora que eu a beberia quente e agradeceria.
Dou o primeiro gole no conhaque e olho para o lado,
vejo um sujeito se aproximando, parece estar vindo em minha direção. Quem é
ele?
- Você por aqui de novo, meu rapaz. – indagou ele.
- Como você pode ver! – disse eu com certa ironia na
voz.
- Parece mais animado do que da última vez. – essa
voz rouca é familiar. Sim! É o velho com quem conversei neste mesmo bar outra
vez.
- Acho que estou conseguindo ajeitar certas coisas em
minha vida.
- Isso é muito bom meu jovem. A vida passa muito
rápido. Num dia eu era um garotão, cercado de mulheres, então no outro estava
aqui, nesse bar, bebendo um conhaque junto de uma cerveja. – ele pareceu
ironizar o que eu bebia.
- Triste fim, senhor.
- Não me chame de senhor! – disse assustado – Sou um
jovem ainda! É nisso que acredito meu rapaz!
- Me desculpe, não quis ser rude com o senh... – um
segundo de silêncio – Me desculpe novamente. – estou mendigando perdão de um
desconhecido? - Qual o seu nome?
- Alan.
- Parece conhecer bem a vida Alan.
- Tento.
- Parece até ter criado certa antipatia por conta
disso. – eu fui um tanto quanto desafiador nesse momento.
- Não tanto quanto você, meu jovem. – ele olhou para
cima como se armasse um plano diabólico – Qual é mesmo seu nome? – seus olhos
volveram-se em minha direção com um ar totalmente questionador.
- Paulo. – disse o primeiro nome que me veio a
cabeça.
- Paulo?
- Isso mesmo. Paulo. – demonstrei mais certeza dessa
vez.
- Não confia em ninguém, não é mesmo? Deve ter sido
traído de forma colossal. – quem usa o termo colossal?
- Não confio nem em mim mesmo, Alan. As pessoas não
são dignas de minha confiança. Se fossem eu nem sequer estaria aqui.
Ele me analisava de cima a baixo, parecia me estudar,
buscava um ponto fraco meu talvez.
- É muito inteligente Paulo. Conte-me mais sobre o
porquê de não confiar nas pessoas. Ou melhor! Conte-me o porquê não confia em
você mesmo. – ele queria me surpreender.
- Porque eu confiaria em alguém que eu mal conheço,
sendo que não conheço bem nem a mim mesmo? – responda essa, velho.
- Deveria confiar no que diz Paulo. Você é muito
inteligente.
Bebo meu conhaque num único gole. Ele me estressou
com essa psicologia barata. Eu saio de casa a fim de pensar menos, relaxar, mas
encontro um velho, gordo, sem perspectiva nenhuma em sua vida e ainda por cima
começa a indagar sobre quem devo confiar? Ele deve estar louco.
- Não tem nada a dizer?
- Não. Até porque não confio em você.
- E se eu lhe desse um motivo para confiar? – sua
proposta parecia tentadora.
- E por que confiaria?
- Porque sua curiosidade cresceu junto do dilatar de
suas pupilas. – agora ele virou poeta.
- E o que precisaremos fazer para que eu ganhe sua
confiança?
- Você terá que confiar em mim, primeiramente. Caso
contrário não terei como mostrar-lhe o maravilhoso mundo que conheço. – ele
está me persuadindo.
- Confesso que estou curioso. E você já deve ter
notado que sou daqueles que “paga para ver”. Esperto você Alan. Sabe jogar com
a curiosidade das pessoas.
- É apenas parte do meu show.
Terminei minha cerveja e saímos do bar naquele mesmo
instante. Ventava muito do lado de fora, era complicado respirar, meus olhos
estavam lacrimejando.
- Ficaremos aqui fora, expostos a esse vento maldito
Alan?
- Não, filho. Vamos ganhar uma carona.
De repente aparece uma minivan preta em nossa frente,
a porta lateral abre e Alan entra. Eu entro logo atrás, um pouco receoso, mas
sem hesitar.
A minivan começa a andar e eu já não sei mais onde
vou parar.
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