quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

30.

Quando eu trabalhava naquela emissora de Televisão, com Victor, editava tudo o que passaria na programação. Editava comerciais, reportagens, editava até o programa culinário. Algumas vezes atuava em campo, dirigindo as equipes de filmagem. As vésperas de uma eleição Amadeu concedeu uma entrevista; 7 mandatos, nunca perdera, o eterno vereador, sábio demais para se lançar para prefeito. Demorei para lembrar. Estive lá muito antes e não percebi.

Existe algo muito errado comigo.

- Busca as mesmas respostas? - A rouquidão da voz dele me fazia arrepiar, cortando o silêncio como uma navalha cortando carne fresca...
- Tenho novas perguntas. - Inflexível. Sem porquê, mas inflexível.
- Olhem só... Percebemos uma evolução. - Ele me olha estranho e eu acelero. Um segundo. - Calma, filho. Somos jovens ainda. - Eu posso até ser, mas você...
- Alan. Eu gostaria de saber o porquê ainda não te matei - Olho após terminar de dizer e vejo ele se ouriçar.
- Oras... Sou alguém que pode te ajudar a saber o que precisa fazer para resolver esta situação... - Hesitante.
- E que situação é essa afinal de contas? - Preciso tomar cuidado para não me exaltar. Preciso manter o controle e descobrirei o que preciso.
- Filho... - Interrompo-o bruscamente.
- Não sou seu filho. - Seco como uma lixa.
- Na verdade... - Hesitou.
- Qual verdade? A sua? - Calma. Calma. Calma. - Que verdade?
- Pare de me interromper. - Alan, inflexível?
- ... - Diga algo logo velho maldito...
- Caio. Eu sei seu nome, não precisa disfarçar sua cara de espanto. Você deveria imaginar que eu soubesse seu nome. - Calma. Calma. - Foi bom pois tirou a atenção de Amadeu sobre você. Ele teria o matado antes caso soubesse quem você é. - Pausa dramática. - Filho, Amadeu te quer morto e me quer morto. Você consegue imaginar o porquê?
- Você está brincando comigo, não é? - Calma. - Eu era apenas um editor... O que fiz para ele? - O que há de errado comigo?
- Me fale sobre sua família. Se lembra dela? - Aonde isso para?
- Minha mãe nos abandonou quando eu era criança. Não sei nada dela. Meu irmão me criou. Ele foi assassinado enquanto trabalhava. Pobre coitado. - Olhar no fundo dos seus olhos poderia deixar isso mais excitante, mas estou dirigindo... - Meu pai morreu. Não sei como. Nunca o vi muito. Você sabe algo sobre isso? Ao me chamar de filho... - Interrompeu-me, seco como uma lixa.
- Não é uma gíria. Não é força do hábito... E eu sou o culpado por você estar correndo perigo.
- Então você é o miserável que eu sempre quis conhecer para arrancar os olhos da face? - Estou odioso, eu sei.
- Se eu fosse mais próximo você nem teria esta chance agora. - Inflexível.
- Se isso é verdade, me dê detalhes. - Eu preciso saber o máximo possível.
- Eu trabalhei para Amadeu muito antes de você nascer. Ele nem era político, nem pensava nisso; só era um dono de terras, poderoso, mobilizando coisas ilegais pela cidade sorrateiramente. Eu o ajudava a esconder os rastros das operações... - Ele olha para baixo. - Você causou um grande tumulto enquanto trabalhou para ele, filho...
- O quê? - Por que diabos ele mudou de assuntou agora?
- Você espalhou sangue sem se importar. - O silêncio relativo reinava enquanto Alan abria a janela do carro, pegava um cigarro e o acendia. - Eu não tinha esse luxo. A primeira vez que puxei o gatilho foi no meio do mato, incendiei o corpo até sobrarem apenas cinzas. Agora você... Você atirou naquele velho cego sem dó pelo que ouvi dizer.
- Aquele velho era irritante demais. - Minha primeira vítima. Nunca achei que mataria gente, e acabei fazendo isso por Amadeu. Que droga de vida consegui.
- Era mesmo. Conheci-o quando ainda tinha olhos e ele conseguia ser duas vezes mais irritante. - Traga lentamente aquele cigarro. - Mas essa não é a parte que interessa nessa história, são apenas detalhezinhos rodeios... Por que você foi trabalhar com Amadeu?
- Você me sugeriu isso.
- Não. Filho, u te encontrei uma vez naquele bar e quando o encontrei novamente você já estava a serviço de Amadeu. Por quê? - Sério, eu não estou entendendo mais nada.
- Não é possível... Você me levou lá... Porque nega isso? - Estou demonstrando um pouco de desespero. Ele vai achar que sou louco, totalmente.
- Você deve ter sonhado isso.
- Não é possível. - Inflexível. - Eu não sonho.
- Enfim... Não fui com você até a casa de Amadeu. Eu seria morto caso o fizesse. Corro riscos andando por esta cidade maldita. Mas veja bem, meu filho está nessa cidade, envolvido com o homem que me quer morto... E agora ele também o quer morto. - Um minuto de silêncio.
- Mas não nos terá. - Estaciono no acostamento. Olho nos fundos dos olhos de Alan. - Eu vou confiar em você. Se é meu pai e não viveu perto de mim por causa de Amadeu, então vou confiar em você, porque quero aquele canalha morto. Não faço questão de esconder o corpo. Quero que o achem, e caso necessário inicio uma guerra.
- Guerras custam caro, filho...
- Não me importo. Aliás, só estou nisso porque não me importo. - Inflexível.
- Entendo.
- Acredita que o motivo para ele me matar é apenas porque sou seu filho?
- Esse é o motivo principal, mas essa história já está maior do que podemos saber no momento, filho. - Nem me irrito mais quando ele me chama de filho. O amor paternal faz milagres, não é?
- Então descobriremos.
- Para onde está me levando, afinal.
- Para nosso esconderijo.
- Nosso? Tem mais alguém lá?
- Armando e Flávia.
- Isso realmente será uma guerra... - A expressão dele me deixou curioso.
- Por que diz isso?
- Armando Carpinelli é filho do antigo braço direito de Amadeu. Armando herdou o cargo. A morte de seu pai ainda é um mistério. Creio que ele desconfie de Amadeu, por isso está aliado a você.

Fiquei quieto. Alan respeitou o silêncio e a estrada continuou aflita e sinuosa. Todos a minha volta parecem envolvidos nisso. Até Flávia era parte disso. Algumas horas eu nem sei no que pensar.

Eu só consigo pensar em Ana.

Eu só consigo pensar que a melhor coisa que fiz foi me afastar dela. Protegê-la.

- Filho. - Era de se esperar que ele não fosse preservar o silêncio para sempre. - Por mais estranha que seja a situação atual eu fico feliz de estar ao seu lado.

Por mais estranha que seja a situação atual eu me sinto feliz por ter aliados que odeiem Amadeu tanto quanto eu.