Dentre todas as opções, ela me escolheu. Ou eu escolhi ela? Foi destino? Aconteceu por acaso? Aconteceu porque eu tomei uma atitude? Essa última me convence mais. Mas a seleção natural parece autêntica nesse caso, também.
Vejo o corpo nu de Ana, deitada em minha cama, com algumas partes cobertas pelo lençol azul marinho, contrastando com o branco pálido da cor de sua pele. Apenas essa visão já me leva ao êxtase.
Eu estou completamente envolvido nesse romance sinistro, em que não sei quase nada sobre ela, e ela não sabe o que sabe de mim. Muito mistério, muita pretensão. Só sabemos que nos damos bem na cama.
A televisão ligada apenas para ter algum barulho no ambiente, e eu me pego distraído, sentado no sofá da sala, imóvel, até ser surpreendido pelas mãos de Ana pousando em meus ombros. Não vi ela acordando.
- Bom dia. - disse à ela, sorrindo.
- Bom dia, senhor! - ela respondeu, animada.
- Parece que alguém dormiu bem.
- E parece que não fui só eu! - como ela está cativante.
- Fico assim quando estou feliz! - meu sorriso torto entregava meus sentimentos.
- Bobo!
Ela ficou deitada no sofá, com a cabeça em meu colo, e eu apenas a observava repousar, deslizando as pontas dos meus dedos por seus cabelos, sentindo o cheiro dela inflando minhas narinas... Estou perdido.
- Você é o cara mais estranho que eu já conheci. - disse ela, com voz de sono.
- Eu tenho um jeito estranho de fazer as coisas. - calmo.
- É verdade, Nemo Nobody! - disse rindo.
- Acontece... - calmo.
- Parece que isso não te afetou... - inquisitiva.
- Eu disse que tinha um jeito estranho de fazer as coisas. - esboçando um sorriso. Calmo.
- E toda essa estranhesa, essa carga de mistério que o abriga, rapaz sem nome, como é viver isso?
- Estranho! - rindo. Calmo.
- Eu quero mais... Diga mais... - ela me olhou como uma predadora sedenta.
- Às vezes eu não sei quem sou. Eu digo que sou alguém, mas vivo outra vida, paralela, que eu nem sei se é real. Eu não sou um só, ou apenas vivo por dois. Ou por mais, quem sabe. Eu sei como lidar com qualquer problema recorrente à mim, nesse momento, mas isso não me torna um conhecedor do meu íntimo, é apenas uma habilidade desenvolvida. Talvez eu viva tentando me descobrir, Talvez eu nunca descubra quem eu sou. - inquieto.
Ela me observou por um tempo, voltou a deitar sua cabeça em meu colo, segurou minha mão com firmeza e a puxou para junto de seu rosto.
- O que estamos vivendo? - perguntou ela.
- Talvez apenas a realidade. Mas eu nem sei oque é real, ou normal.
- Mas acha alguma coisa?
- Sobre o que?
- Ser normal...
- Acho que ser normal é respeitar o espaço do outro. Não me embaso em leis para viver. Eu apenas navego pelo mar do mundo, cruzando caminhos, saindo do normal e concluindo o natural. Mas quem sou eu? - respondi.
- Você está sendo normal ou natural, agora?
- Real.