segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

17. Querida Ana

Dentre todas as opções, ela me escolheu. Ou eu escolhi ela? Foi destino? Aconteceu por acaso? Aconteceu porque eu tomei uma atitude? Essa última me convence mais. Mas a seleção natural parece autêntica nesse caso, também.

Vejo o corpo nu de Ana, deitada em minha cama, com algumas partes cobertas pelo lençol azul marinho, contrastando com o branco pálido da cor de sua pele. Apenas essa visão já me leva ao êxtase.

Eu estou completamente envolvido nesse romance sinistro, em que não sei quase nada sobre ela, e ela não sabe o que sabe de mim. Muito mistério, muita pretensão. Só sabemos que nos damos bem na cama.

A televisão ligada apenas para ter algum barulho no ambiente, e eu me pego distraído, sentado no sofá da sala, imóvel, até ser surpreendido pelas mãos de Ana pousando em meus ombros. Não vi ela acordando.

- Bom dia. - disse à ela, sorrindo.
- Bom dia, senhor! - ela respondeu, animada.
- Parece que alguém dormiu bem.
- E parece que não fui só eu! - como ela está cativante.
- Fico assim quando estou feliz! - meu sorriso torto entregava meus sentimentos.
- Bobo!

Ela ficou deitada no sofá, com a cabeça em meu colo, e eu apenas a observava repousar, deslizando as pontas dos meus dedos por seus cabelos, sentindo o cheiro dela inflando minhas narinas... Estou perdido.

- Você é o cara mais estranho que eu já conheci. - disse ela, com voz de sono.
- Eu tenho um jeito estranho de fazer as coisas. - calmo.
- É verdade, Nemo Nobody! - disse rindo.
- Acontece... - calmo.
- Parece que isso não te afetou... - inquisitiva.
- Eu disse que tinha um jeito estranho de fazer as coisas. - esboçando um sorriso. Calmo.
- E toda essa estranhesa, essa carga de mistério que o abriga, rapaz sem nome, como é viver isso?
- Estranho! - rindo. Calmo.
- Eu quero mais... Diga mais... - ela me olhou como uma predadora sedenta.
- Às vezes eu não sei quem sou. Eu digo que sou alguém, mas vivo outra vida, paralela, que eu nem sei se é real. Eu não sou um só, ou apenas vivo por dois. Ou por mais, quem sabe. Eu sei como lidar com qualquer problema recorrente à mim, nesse momento, mas isso não me torna um conhecedor do meu íntimo, é apenas uma habilidade desenvolvida. Talvez eu viva tentando me descobrir, Talvez eu nunca descubra quem eu sou. - inquieto.

Ela me observou por um tempo, voltou a deitar sua cabeça em meu colo, segurou minha mão com firmeza e a puxou para junto de seu rosto.

- O que estamos vivendo? - perguntou ela.
- Talvez apenas a realidade. Mas eu nem sei oque é real, ou normal.
- Mas acha alguma coisa?
- Sobre o que?
- Ser normal...
- Acho que ser normal é respeitar o espaço do outro. Não me embaso em leis para viver. Eu apenas navego pelo mar do mundo, cruzando caminhos, saindo do normal e concluindo o natural. Mas quem sou eu? - respondi.
- Você está sendo normal ou natural, agora?
- Real.