Eu poderia estar pensando em um milhão de coisas, mas minha mente está praticamente vazia.
-Paulo, você está bem? - não sabia que Armando era de se preocupar com os outros.
-Sim. - minha frieza era exatamente igual a da hora que o encontrei.
-Você já havia matado antes? Pareceu algo natural para você.
-Nunca. Eu apenas fiz o que deveria fazer.
-Fez bem. - ele dizia de maneira tranquila e continuava a dirigir.
-Já matou muita gente nesse ramo, Armando?
-Algumas.
-Quantas?
-Perdi as contas faz tempo. Mas sei que você matou duas pessoas. - ele deu um sorriso irônico.
-E eu nem sei exatamente o porquê de ter feito isso.
-Porque fez uma escolha. Escolheu estar dentro da sujeira do mundo. Agora você a defende com sua vida. - ele foi completamente sério agora.
-E se eu não estou enganado, é um caminho sem volta.
-Talvez tenha, mas depois de um tempo se torna tão comum que você não quer mais voltar.
Não querer voltar. Acho que isso vi ecoar dentro de minha cabeça até meu último segundo de vida. Eu sinto uma pequena aflição em pensar que talvez eu mate pessoas inocentes para defender um sistema podre que se esconde atrás de uma maquiagem, de pessoas engomadas, e que a população apenas acha que rouba verbas públicas para enriquecer. É bem pior. Realmente é muito pior. Eles vão até as últimas consequências para seus interesses. Se querem dinheiro, matam, estimulam o tráfico de drogas, roubam, matam novamente. Se querem publicidade apenas se arrumam e respiram fundo antes de fazer um belíssimo pronunciamento, ajudando instituições, inaugurando novos leitos em hospitais. A sujeira é tão grande que, no fim das contas, o único jeito de se manter inteiro é sendo parte dela, mas isso significa que fazemos o trabalho sujo.
-Por que está pensativo?
-Porque o que me disse fez tanto sentido quanto tudo o que eu já havia vivido.
-Fique tranquilo. Você pode chegar em sua casa, assistir televisão, comer alguma coisa, tomar um banho, dormir. Algum dia não pensará tanto no que acabou de fazer, mas sim no que está fazendo, e isso é o que te confortará. - tudo soava normal para ele.
-E eu que achei que não seria algo duradouro.
-Se te disseram isso, mentiram.
-Eu sei.
Mais um momento dentro de meus pensamentos. Preciso encontrar Alan e fazer algumas perguntas à ele, porque se eu descobrir que ele me enganou quando disse que seria passageiro, juro que o tornarei a terceira pessoa em minha lista de homicídios.
Armando me deixou em casa, mas eu não queria estar aqui. Eu quero ir pra algum lugar que me permita esquecer de tudo.
Tudo.
Eu devo ter cochilado. Dormir no sofá com uma arma na cintura não é muito recomendável, sinto uma dor incomoda em minhas costas. A televisão ligada iluminando o cômodo escuro, minha cabeça ainda um pouco estonteada, como se eu estivesse levemente entorpecido.
Jogo um pouco de água em meu rosto e começo prestar atenção no noticiário. A reportagem estava no fim, mas eu conheço aquela casa. Eu estive lá hoje. Já encontraram os corpos.