quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

29. Ana.

Nem sei por onde começar. O vento frio da manhã cinzenta mais bonita do ano. Não fizera sentido quando apreciei-a, nem quando estive no mesmo lugar após o horário de sol à pino. E nem teria porque fazer sentido. Mas as consequências podem ser controladas, e eu aprendi esta parte, acredito... E se... não. Nunca. A hesitação não. É sim ou não. Ana ou vingança. Eu nem sei qual vingança. Mas eu a pinto dia após dia, com o sangue que escorre do buraco de bala até o entardecer sereno alaranjado, já me incitando aquele primitivo prazer. Vingança combinaria tão bem com Ana que eu me perderia nas denominações. Eu não diria detalhes, mal os sentia e mal saberia descrevê-los, mas eram parte daquilo que chamaria de essencial. A vingança era tão essencial quanto Ana, mas sem resolver o que havia entre nós, vingança havia de esperar.

Nunca senti o tempo tão lento, como se eu pudesse descrever cada fragmento, de tão chato e tenso que aquilo se tornara, esta espera maldita, dia após dia, no anseio de encontrá-la, talvez até beijá-la. Mas também sinto um desanseio: se ela me rejeitar. Qual o controle da situação nesta situação? Eu nem controlo meus dedos nos gatilhos, quem diria minhas palavras, agora, que nada mais importa de verdade, que o amanhã é sorte, que eu estar aqui é sorte. O pior é que eu nem sei exatamente a origem do ódio, da vontade de vingança, mas sei que concluirei tudo isso. A não ser que morra antes, mas não sinto sadismo suficiente nessas palavras, ainda.

A cada um passo, outro um seguia, uma a uma, seguindo um ritmo, e finalmente cheguei naquele bar. Só faltou atirarem na minha cabeça bem nesse momento; mas nem foi isso. Quem me dera tamanha sorte eu tivesse. Roía unhas entre uma dose e outra, e a golada seca do conhaque me amortecera a face. Me sentia até mais rebuscado, superior aos meros mortais fáceis de mortalizar a me rodearem. O poder me subiu a cabeça, mas ainda tremia de medo, precisava estar mais anestesiado. Precisava anestesiar meu ego! E assim eu tomei o rumo do banheiro, sentaria e faria o trabalho para confeccionar uma belíssima cigarrilha rastafari de maconha verdadeira. Minha melhor chance.

Ouvia o show começando, me senti um pouco mal por perder o início. Eu sempre gostei de como Ana e sua banda começavam seus shows, com um toque de suspense e uma energia destruidora, infiltrando cada membrana de suas mais remotas células com sua vibração extraordinária. Fiquei feliz de conseguir realizar o ato rapidamente, dando uma descarga para finalizar o teatro, jamais esperaria encontrar tamanha ironia ao sair daquele sanitário. E pior, jamais esperaria que tamanha ironia me lembrasse de tamanha ironia ainda mais escabrosa. Você não tem noção de como minhas cognições funcionam... Ou talvez tenha. Se tiver, procure ajuda. Ok, continuando. Quem eu avistei é um pobre sujeito que foi meu estagiário numa empresa de televisão; editávamos comerciais e reportagens do jornal local, eu o abandonei porque estava triste, e hoje estou aqui, e ele está parado me olhando neste momento sem dizer um "ah" e eu estou tentando voltar a raciocinar de modo que possibilite falar, mas ironicamente me lembrei de onde conhecera a casa de Amadeu. É muita informação...

- Victor? - não sei se perguntei ou se afirmei. - Quanto tempo, eu diria...
- Caio? - ele reagiu semelhante.
- Você parece bem bêbado... - E eu achava que a minha situação ia mal.
- A multidão me deixou um pouco sem ar, na verdade.
- Vamos lá fora. Tenho a salvação. – Esse baseado ficou muito bonito.
- Não sei, Caio. Eu bebi um bom tanto... - Desculpinhas...
- Você precisa respirar. Fuma se quiser. Vamos lá, comigo. Faz tempo que não te vejo e preciso de alguém por perto. – Olhei o mais fundo que pude naqueles olhos insones. – Por favor.
- Só não posso perder todo o show.
- Eu também não. - inflexível.

O fogo é tão lindo ao acender minhas ideias. Victor sempre foi quieto. Sempre foi minha missão romper o silêncio entre nós. Ou seria romper a paz?

- Você acredita no amor? – Eu acredito.
- Acho que sim.
- Então não acredita. Caso contrário saberia. – Esse céu estrelado...
- Não acho que as coisas são assim. Pode haver um meio termo. Até mais de um. É questão de opinião. – Nada mal.
- Talvez tenha razão. Você vai? – Passo o baseado.
- Por que precisa de alguém por perto? – Boa pergunta.
- Minha alma está doente. Minha vida se tornou um caos. Eu a tornei assim. - As estrelas me fazem lembrar de Flávia.
- Mas está tão bem vestido. Achei que havia obtido sucesso ao deixar a emissora. – Quem me dera...
- Tenho dinheiro. Poder. Muito poder, Victor. Se seu sonho é ter poder eu até posso te ajudar. Mas para conseguir certas coisas eu sacrifiquei o que realmente importava. Para saciar um desejo terrível dentro de mim eu comecei a fazer coisas terríveis; coisas que me afastaram daquilo que realmente me satisfazia. Uma grande ilusão... – Uma grande confusão.
- Sofre de amor? – Ele consegue perguntar algo melhor que isso.
- Sofro por não saber amar.
- Você pode aprender. - Piegas.
- Não. Victor, eu estou num caminho sem volta. Só preciso dizer um último adeus, porque depois disso eu irei sumir, e só serei encontrado se eu quiser que me encontrem. – Ual! Adoro quando soo dramático.
- Precisa de ajuda para conseguir dizer esse adeus? – Ele não está me ajudando...
- Esteja por perto. – É o que temos para o momento.

A música me dopou, como num frenesi.

- Caio, vamos mais perto do palco... – Caralho, só entendi metade da frase por causa do som alto. Eu estou realmente muito louco.
                - Vá na frente. - Tomara que ele consiga me guiar.
                - Não vai se perder de mim?
                - Só se eu quiser.
              
Quando meu olhar teve o privilégio de contemplá-la, uma errônea modulação incomodou meus sentidos, mais do que a expressão que sucedera-a, mais que a reação da plateia, que nada entendia sobre o que ali acontecia, mas sentia, quase que igualmente, por ao menos um segundo, o caos que me consome neste pedaço de instante.

                - É a mesma sensação de quando vi isso pela primeira vez. – Toda vez é a primeira vez, pois nunca é igual.
                - Você a conhece? – Eu que deveria fazer essa pergunta.
                - Não sei se o suficiente, mas não sei se terei a oportunidade de conhecer mais...
              

Ela ficava incomodada com meu olhar, mas não só ela. Acho que entendi o porquê Victor queria tanto vir logo ver o show. Não se trata apenas de música. Se trata de poesia. Se trata de Ana. Não há porque se tratar de mim.

A música para. As luzes se apagam. Eu ansiosamente aguardei para viver uma repetição do extase que está por vir.

- Victor, - Eu precisava dizer algo. – Essa é a melhor parte do show. - Não era bem isso, mas vai servir para a minha mise en scene.

Disparada fora a vibração. A inércia quebrada descarregava os mais diversos hormônios ao mesmo tempo, desafiando a capacidade de entendimento enquanto revelava-se a intensidade daquela circunstância. Não haveria como descrever de forma protocolar. Não conseguiria distinguir aquilo do prazer que sinto ao disparar contra alguém que me enfureceu. O estrondoso barulho do disparo, a pólvora que incinera, o acorde que soa. As duas faces de uma mesma moeda para se comprar o prazer.

 Poucos shows terminam de forma tão magnífica. Victor parece sentir o mesmo que eu.

- Vamos para o camarim, Victor. – Não sei bem como, mas farei agora o que me propus.

Eu não sei se estou chapado ou apenas estonteado por tudo o que representa esse momento, mas sinto que não há como me parar. Não agora.

- Ana! – Abra, por favor. – Tem um tempo para um velho amigo? - Tento me manter calmo, mas estou exaltado.
- Pare de gritar! Eu não tenho que te dar atenção...
- Eu só quero dizer tchau. Ana, eu vou embora. Não quero te trazer problemas. Só quero dizer tchau... – Eu estava restes a começar a chorar, se não fosse Victor se aproximar...
- Ana. Abra. Fale com ele.

O silêncio reinou por uma fração de tempo incontável.

- O que quer, estranho? – Inflexível.
- Apenas dizer adeus. Não tenho mais nada para te dizer. – 1, 2, 3, 4; 4, 3, 2... Isso realmente ajuda contra ansiedade?
- Por quê? Vai se casar? Cometer suicídio? Ou veio apenas testar meus sentimentos, idiota? – Nossa. Ela realmente me odeia. Ou me ama. Essas coisas se confundem.
- Caio. – Meu último trunfo. – Meu nome é Caio. – Vou cuidar muito mais dela estando longe, meu caminho é sem volta. Estou condenado a cuidar dela de longe. Amá-la de longe. Victor será muito melhor para ela. – Guarde este cartão. Cuide dela. Se algum dia precisar, me ligue. Se passar este número para alguém eu mesmo te mato. – Entreguei o cartão para ele, olhando no fundo de seus olhos. É bom esse desgraçado não cagar em tudo.

 - Tudo bem. – Assim espero. Ele está tremendo.

Ana ficou assustada e soltou um grito mudo de espanto. Victor tremia mais ainda. Só então me lembrei que tinha uma pistola na minha cintura.

É foda querer se despedir quando se está sendo caçado por mafiosos.

- Ana. Eu te amei, mas não te mereço. – Disfarçadamente...
- Caio, não faça nenhuma...
- Victor. – ...escondo a arma. – Eu não te daria meu contato caso fosse me suicidar. – Na verdade nem sei se era sobre suicídio que ele estava se referindo. – Ana. Adeus. Cuide dela, Victor.

Eu dei as costas, caminhei lentamente enquanto eles podiam me ver, tentei parecer inabalável, inatingível; sólido. Apenas até que eles não pudessem mais me ver. Agora só me interessa ir pra bem longe dessa cidade. Certeza que dessa vez Armando vai me desse a borracha até eu me comportar direito. Ele e Flávia provavelmente jamais entenderão, mas eu acredito estar recebendo respostas, embora muita coisa esteja fazendo pouco sentido.

E por falar em sentido, ao seguir sentido ao meu carro avisto alguém que tirou boa parte do sentido de tudo em minha vida. Seria uma alucinação? Seja lá qual for a resposta, na situação que me encontro não estou em posição de negar uma discussão sobre o assunto.

- Parece agitado, filho. - Eu já disse que odeio quando ele me chama de filho?
- Entra no carro, velhote. - Vai ser uma longa viagem. - Temos muito o que conversar.

Alan entrou no carro.

- Vamos embora daqui, Paulo. - Ele mantinha os olhos fixo para a frente.

O barulho do motor inundava nossos ouvidos ao esperar ansiosamente pela quebra do silêncio verbal.

terça-feira, 17 de maio de 2016

28.

Espero que Armando e Flávia me perdoem pelo que estou fazendo, mas garanto que dentro de minha confusa cabeça isto faz tanto sentido quanto continuar fugindo com eles, com a simples diferença de ser o que eu quero fazer. Eu nunca pensei que aqueles comprimidos que roubei no hospital pudessem ser tao úteis. Desculpe não contar isso antes, mas eu não queria parecer um drogado. Agora eu sou definitivamente um criminoso que está sendo procurado por outros criminosos, então tanto faz. Meu senso de julgamento e moral mudou muito. Estou pensando ainda se tomo uma pílula dessas ou não. Flávia e Armando estão derrubados, e só coloquei duas em cada caneca de café. Esse foi o café reverso, que o invés de despertar, desmaia. Será que se eu tomar um comprimido eu desmaio? Melhor arriscar quando eu estiver em algum lugar seguro, se isso existir...

Por mais arriscado e idiota que isso pareça, irei para minha casa, pegarei meu carro e roupas limpas. Preciso encontrar Ana. Mas tenho medo de envolvê-la nisso. Preciso descobrir o que significa tudo isso que está acontecendo, afinal, Armando apareceu em minha casa todo ensanguentado e agora eu que estou sendo procurado? Tomara que exista sentido nisso tudo, ou que pelo menos, caso não haja, eu possa escapar dessa loucura. Ou será que começarei uma loucura maior para escapar disso? Não me surpreenderia.

Dei a volta no quarteirão duas vezes antes de estacionar, pois não quero ser surpreendido por um assassino contratado por Amadeu. Minha casa parece estar como deixei. Daqui a pouco o sol vai raiar, então preciso ser objetivo, pegar o que preciso e me esconder. Para minha grandiosa sorte as roupas que Flávia me deu eram as mesmas que eu vestia quando apaguei, então minha chave está dentro do bolso. Dou uma volta no tambor da fechadura.

- Ora... ora... - essa voz. Um arrepio me percorreu com tanta força que agora já nem sei se irei morrer ao me virar. - Olhe para mim. Não tenha medo. - tudo bem.
- Allan. - inflexível.
- Como estão as coisas, rapaz? - esse sorrisinho dele... juro que o matarei apenas por causa desse sorrisinho.
- Maravilhosas! Até acredito que possa me dar alguma resposta em relação a Amadeu. - ele não veio me matar. O assassino aqui sou eu.
- Respostas?
- Sim.
- Mas quais as perguntas? - gozador.
- Por que Amadeu me quer morto? - inflexível.
- Jura que não sabe?
- Se eu soubesse não perguntaria.
- Deve ser porque vai te descartar...
- Se fosse isso eu estaria morto. - uma leve irritação em minha voz.
- Faz sentido. - velho desgraçado.
- Armando e Flávia disseram que ele me investiga faz tempo. - inflexível.
- Confia neles.
- Mais do que em você, no presente momento.
- Não foi uma pergunta, rapaz. - inflexíveis.
- Assim como não respondi, apenas expliquei bem para que não se perca em sua mente de velho.
- E se exaltou. - zombando.
- Me exaltei? - ninguém mandou me zoar. Saco a arma e aponto entre os olhos desse velho filho da puta. - Jura que me exaltei? - psicopata. Não a definição melhor para mim agora.
- Isso mesmo. - ele nem parece se incomodar com uma arma. Abaixo ela e guardo.
- Você me colocou nisso. Amadeu mandou você falar comigo? - estou irritado, de verdade.
- Não tem coragem de me matar?
- Não tenho motivo para te matar antes de me dizer algumas coisas.
- Matar tem sido uma ótima solução para você, não é? - desgraçado.
- Na verdade, sim. - inflexível, novamente.
- Eu nem tenho contato com Amadeu. - ele acendeu um cigarro e eu fiquei perplexo com a resposta.
- Como não tem contato? E a festa que me levou na casa dele? E o plano que disse que eu teria que colaborar com você?
- Você vai precisar de muito mais do que perguntas como essas para entender o que está acontecendo, filho. - eu odeio quando ele me chama assim.
- Então descobrirei sem você.
- Mas te darei uma pista. - ele sabe despertar minha curiosidade...
- Pista?
- Armando Carpinelli. É o nome completo de Armando. Ele é filho de Leonidas Carpinelli, o maior concorrente de Amadeu em nossa região. Armando foi infiltrado pelo próprio pai para acabar com Amadeu. - plot twist mental.
- Armando? Mas como Amadeu não percebeu antes? Como não sabia que ele era um Carpinelli? - perplexo.
- Armando viveu muito tempo fora. Ele voltou, ninguém o conhecia. Foi fácil usar um sobrenome falso.
- E o que aconteceu? Por que apareceu banhado de sangue em minha casa?
- Ele foi descoberto.
- Armando é muito competente. - estou defendendo Armando. Nm acredito em tudo o que estou ouvindo... Que loucura.
- Sim, mas ele falhou em uma missão.
- Com Amadeu? Amadeu descobriu quem ele realmente é? - eu preciso de todas as respostas, Allan.
- Ele falhou em te matar. - eu vou desmaiar, eu acho.
- Amadeu ordenou isso? - me responda logo, antes que eu perca minha consciência.
- Sim. E quando Armando estava vindo para executar essa ordem, junto de outro capanga de Amadeu, resolveu acabar com toda a encenação, matou o capanga e veio aqui para te encontrar.
- Mas por que Amadeu quer me matar?
- Não sei ainda. Mas quando eu tiver essa resposta, não se preocupe, te encontrarei e te direi. - ele começou a andar para ir embora.
- Allan! Espere. Como sabe de tudo isso... Sobre Armando? - nunca fiquei tão confuso.
- Tenho meus meios. Logo descobrirá.

Ele foi embora, e nemm apressei em pegar o que precisava. Roupas, dinheiro, armas, documentos falsos, tudo pronto para quando eu for, mas preciso de um momento; fiquei muito desapontado com as frutas podres pois eu realmente queria comer uma delas.

Armando foi descoberto por minha causa, então eu devo valer alguma coisa. Droga... Passei tanto tempo vivendo a vida dos outros que mal me lembro quem sou.

Abandonei o carro na rua atrás da minha, e espero que todo aquele sangue seco no estofamento deixe esta cidade policiada ao limite.

Boa hora para aquele comprimidinho.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

27. Kharma.

Conhece a sensação de sempre voltar ao mesmo lugar? Por mais que se esforce, por mais que pense, articule, sempre volta para a mesma merda de lugar, passando pelas mesmas merdas, toda a vez, cometendo os mesmos erros, toda a vez, sofrendo das mesmas dores... Não.

Eu não aceito essa repetição.

Flávia fica me olhando entre um telefonema e outro, e Armando... Ahh... Armando passou suas últimas horas polindo pistolas, revólveres. Fico imaginando se ele não tem algumas armas maiores guardadas, algo que possa fazer nossa aventura ficar mais parecida com uma missão de GTA. E por que ele tem que polir tanto essas armas? Quer assustar nossos inimigos com o brilho do cano de um revólver calibre 38?

- Caio. - olhei para Flávia, acordando de meu transe. - Você acha que está suficientemente bem?
- Depende o que você considera suficiente... - sério que ela já quer que eu faça coisas? Ela me envenenou...
- Consegue dirigir um pouco, ao menos? Sem dormir ao volante...
- Eu não vou dirigir este carro de merda. - e não haverá como me convencer.
- O quê? - ela ficou brava. - Sério que me disse isso? - furiosa.
- Sabe que eu não dirijo essas coisas novas. - tudo bem, confesso que sou teimoso.
- Caio... - ela respirou muito fundo. - Olha pra mim, me diga que é brincadeira. - lutadores não se encaram assim. - Me diga que você não fará eu perder minha paciência. - não sei como ela conseguiu controlar o tom de voz dela. Da última vez que brigamos ela havia gritado tanto que meus vizinhos chamaram a polícia. Embora isso tenha sido há 3 anos.
- Flávia. Pois bem. Preste atenção, pois só direi mais uma vez... - ela me cortou.
- O que dizia?
- Você é maluca mesmo! Doente mental do caralho! - cortou literalmente. Ela é doente... - Você é uma filho da puta sem tamanho! Armando! Pega uma camisa de força pra essa retardada!! - ela passou a porra da faca no meu braço.
- Cala a boca. - disse Armando. - Você parece uma criança. Nada me lembra o cara que estourou os miolos daquele velho...

Me recordo bem... O velho dos olhos faltando. Que bela merda... Queria que meu primeiro assassinato fosse olhando nos olhos da vítima, mas que olhos?

E eu rodopiei antes de atingir o chão.

- Levante-se. - como pode ela ter coragem de me mandar levantar após ter me cortado com uma faca e depois ter me golpeado desprevenido?
- Flávia, sério, se for pra me matar, avise. - eu nem sei se falo sério oi não. Está tudo uma loucura tão grande...
- Levante-se! - Armando ficou impaciente... Trouxa.
- Vocês dois... Vocês realmente estão querendo me ajudar?
- Se eu quisesse te matar já o teria feito. - Armando, curto e grosso.
- Você sim, mas é dela que tenho medo. - olhei para Flávia e ela pareceu ficar com os olhos transbordando.
- Medo? De mim? - caralho, essa carinha dela está mexendo comigo, lá no fundo.
- Flávia... - droga... como concertar isso? - Você me envenenou...
- E destruí seu coração, te deixei desamparado, você se tornou um assassino pago e agora seu ex patrão quer sua cabeça. - ela está se segurando para não chorar.
- E eu nem sei o porquê dele querer minha cabeça. Pouco ela vale.
- Errado. - Armando me deu calafrios agora. - Sua cabeça é tão valiosa que você não entenderia.
- O quê? - muitos plot twist para minha cabeça de ouro.
- Você não foi escolhido a toa, Caio. Amadeu sabia seu verdadeiro nome, sabia de seu trabalho, sabia da garota com quem estava saindo... - ela hesitou.
- O que... - hesitei.
- Amadeu te segue de perto há 5 anos. - a voz dela nunca me arrepiou tanto.
- Flávia...
- Escuta. - ela ficou muito séria - Precisamos sair daqui.
- Foda-se! - inflexível.
- Segure sua língua, rapaz. - Armando acha que me intimida?
- Segure você. - olhei para ele. Eu tenho muitas vidas ainda, babaca. - Quem apareceu cheio de sangue na minha casa foi você. Quem me ameaçou quando comecei a trabalhar para Amadeu foi você. ENTÃO CALA A PORRA DESSA TUA MALDITA BOCA ANTES QUE EU ARRANQUE TODOS OS DENTES DELA!
- Caio! - ela pousou suas mãos sobre meu ombro.
- E VOCÊ! - sintam a fúria - Você...
- Caio... - ela não aguentou segurar o choro por mais tempo.
- Você chora... - inflexível. - Chora como se fosse inocente... 5 anos? 5 anos trabalhando para Amadeu... - e... - VOCÊ SIMPLESMENTE COMEÇOU A ME NAMORAR POUCO DEPOIS DE COMEÇAR A TRABALHAR COM AQUELE CARA? - exaltei-me, e... - Eu deveria te matar agora...
- Caio... - ela tentou encontrar palavras boas. - Eu juro que te amei de verdade...
- Amou? - cortei sua fala. - Você deve mesmo ter amado... Ganhando para pagar de namoradinha do carinha que edita os comerciais... - como eu queria explodir, literalmente, agora. - Ele te pagava bem? Ele te comia bem?
- Caio, cala a boca... - agora ela está ficando furiosa. - Não esqueça que sua vida está em nossas mãos.
- Eu posso me cuidar sozinho. - inflexível.
- Pode? - Armando. Ele ama me desafiar.
- Posso.
- E por que é o único sem armas na mão? - filha de uma puta.

No final das contas, para alguém em minha atual situação, dirigir esse carro moderninho nem é tão ruim. Embora eu esteja contrariado, tenha sido ameaçado após bancar o fodão e ter me fudido gloriosamente, só não entendo ainda o porquê.

- Flávia? - meu tom de voz é de remorso. Que merda.
- Fala. - seca.
- É tarde para desculpas...
- Fala. - sequíssima.
- Por quê? - me diz.
- O quê? - ahhh não. Me deem uma arma. Por favor.
- Por que Amadeu te queria junto de mim?
- Ele nunca disse. Só recebi ordens. - inexpressiva.
- Só ordens? - minha curiosidade me fode, mas me satisfaz.
- Sim.
- Até para me deixar?
- Caio. - ela olhou para mim e eu quase perdi totalmente a atenção da estrada. - Essa foi a questão. Eu te amei, Amadeu descobriu, tive que deixar a missão.
- Missão... - quase não me escutei.

A estrada não tinha fim, ou pelo menos assim que me sinto, interminável. Eu fico a cada segundo mais confuso... Se Amadeu estava me observando a tanto tempo, então Allan deve ser outro contratado dele.

- Tenho um nome. Allan. O que sabem?
- Não sei de ninguém. - Armando não para de polir a arma.
- Allan? Quem é? - Flávia não pareceu saber mais do que Armando.
- Um velho idiota que me procurou... Ele que me levou a casa de Amadeu, disse para eu ir encontrá-lo no dia seguinte e convencê-lo a me contratar.
- Como assim? - ela ficou realmente espantada, embora isso nem me espante mais.
- Foi isso. Ele me levou numa festa num dia, noutro eu fui até lá sozinho, como Allan havia me instruído, sem dizer nada sobre o que me levou ali, apenas dizendo que era o homem certo pro negócio. - minha calma me assusta.
- Impossível. - Armando ficou branco como uma folha de papel nova. - Me lembro do dia que foi a casa de Amadeu. Não houve festa no dia anterior.
- Talvez eu tenha dormido mais de um dia, então...
- Não. Impossível. - ele ficou irritado. - Amadeu nunca deu festas em sua casa.
- Mas... - droga. - Mas como assim? - inquieto.
- Amadeu é muito reservado.

Eu me lembro bem da festa, da van que me levou até lá, dos caras cheirando cocaína durante todo o caminho... Eu podia ter bebido, mas umas doses de conhaque não causam alucinações dessa magnitude.

- Caio... - essa voz ao fundo.- Caio... - eu não sei no que pensar mais... - Caio!... - ela está gritando comigo? - CAIO!
- O que? - uma dica: nunca tire os olhos da estrada.

Alguns dizem que coisas nunca podem piorar. Nunca acredite nisso.

- Consegue arrumar? - Flávia acredita no potencial de Armando, mesmo ele sendo bom apenas em manipular armas.
- Não. - eu sabia. Fiz um ótimo trabalho. - Do que está rindo? - que olhar de fúria... - Se prestasse atenção na estrada não estaríamos aqui, agora, no meio do nada e com uma roda torta. - que merda, eles amam me dar uma lição de moral.
- Se ninguém ficasse me vigiando por todo esse tempo talvez eu levasse uma vida tranquila e não precisasse estar fugindo, agora.
- Fala como se a cupa fosse nossa... - ela ficou aborrecida.
- E não é?
- Você é um inútil... - Armando me ama, só pode. - Eu mesmo irei enfiar uma bala na cara de Amadeu por ter feito eu conhecê-lo.
- Então por que me ajuda?
- Porque você e essa garota são as duas únicas pessoas, fora a minha família, que podem me ajudar.
- Eu nem sabia que alguém como você tinha família. - eu pediria desculpas pelo deboche, mas...
- Tenho. - segurou-me pela gola. - E se depender dela você é um homem morto.
- Estou perplexo. - deboche. Preciso controlar minha língua. Mas ele me soltou.
- Entenda, tudo mudou, Caio. - sério que ela me disse isso?
- Sério, Flávia? - exaltado. - Eu sinceramente achei que estava tudo normal até agora... - sarcástico. - Claro... Claro. Vocês estão me salvando. Agora eu sou o protegido de dois gangsters que escolheram me salvar e arriscar suas vidas.
- Você não entende...
- Entendo sim, Flávia. Vamos ter que matar todo mundo, sem ressentimentos.
- Não é bem assim, Caio. - Armando, outra vez. - Isso não se compara com nada do que fez até agora.
- Mas eles me querem, e eu vou descobrir o porquê disso. - obstinado.
- Vamos. Mas antes temos que resolver o problema do carro.

Droga, quase me esqueci. Deve ser o veneno de sapo me deixando chapado.

Eu atropelei um esquilo. Sim, que coisa horrível. Se fosse um carro de verdade, antigo, uma merda de um esquilo não teria fudido essa roda... Agora o que fazer pra esse carro voltar a andar?

- Armando! - chamei-o.
- Diga.
- Me dê uma arma.
- O quê?
- Me dê. Logo.
- Vai atirar na roda pra ela voltar ao lugar?
- Claro que não! Você é idiota? - eu não deveria chamar um homem armado de idiota.
- Você é o idiota aqui.
- Me dê uma arma! Tenho mais chances se puder matar alguém! Estamos no meio de uma estrada e tem gente querendo nos matar! - espero que meu tom de voz não tenha o ofendido, caso contrário eu posso morrer agora.
- Uma gracinha e eu te espanco. - ele pareceu falar sério.
- Para que faria gracinhas?
- Parece de seu feitio.
- Mas não é. - ele me mataria se pudesse ler minha mente, Por sorte não pode.

A estrada permaneceu deserta por quase duas horas, o que não era tão ruim quando eu pensava que o primeiro carro que aparecesse poderia ter vindo me matar. Mas eu só preciso de um carro.

E eis que surge, longe, vagaroso, um velho carro, tão lento quanto deveria ser, e tão magnífico quanto eu poderia sonhar. Demorava para se aproximar, e eu ficava ansioso a cada quilômetro mais perto que o velho carro ficava.

- Será que ele pode nos ajudar? - Flávia é tão inocente.
- Não custa tentar. - Armando começou a fazer sinal para que o carro parasse.

Um velho volks, clássico demais para ser chamado de velho, velho demais para ser chamado de antigo. Já vi destes em melhores condições. Armando trocou algumas palavras com o motorista, mas eu não sei se isso rendeu algo, realmente. Eu quero mais que se foda. Hora do show.

- Armando. - ele olhou para mim. - Saia da minha frente. - acho que minha arma apontada para ele o assustou.

Conforme Armando se afastava eu direcionava o cano da pistola para a cara do motorista. Ele era um pouco velho, nada muito mais do que 60 anos. Eu não devo matá-lo.

- Desça do carro, velho. Facilite as coisas.
- Eu não descerei. Prefiro morrer com este carro do que entregá-lo a você, de mão beijada. - velho insolente.
- Vamos tentar novamente. - respirei fundo. - Desça do carro. - ele percebeu minha irritação. Flávia arregalou os olhos, mas nada disse.
- Atire, jovem. Não tenho medo.
- Vou atirar, mas quero que desça para não sujar os bancos. - foi o máximo que consegui pensar.
- Boa tentativa. - ele deu a partida, pouco se importando com a arma em minha mão.
- Ótima, na verdade.
- Como disse? - ele olhou em meus olhos.
- Ó-ti-mo. - com a última sílaba veio o estrondo.
- SEU INCONSEQUENTE!!! - Flávia gritou. - POR QUE MATOU ELE? PODIA TÊ-LO TIRADO DO CARRO A FORÇA! SOMOS 3 E ELE ERA APENAS UM! - ela gritou mais um tempo, e eu pouco me importei com tanta histeria.

O único problema é o sangue no carro, mas u pouco me importo com isso. Usei as roupas do velho para limpar os bancos e os vidros. Não me importo com o cheiro de sangue. Pelo menos agora estou dirigindo um carro de verdade.

- Vocês estão bem quietos... - casei do silêncio de suas vozes.
- Você queria que disséssemos o quê? Bom trabalho senhor Caio! Obrigado por ter matado um velho e nos ter enfiado num carro cheirando a cadáver! - Flávia é tão doce, as vezes. Armando não disse nada.
- Pare com isso, garota... É apenas cérebro. - apenas. Sim. Apenas.
- Não acredito que já te amei... - e ela deu um suspiro.
- Não acredito que aquele velho achou que eu estivesse brincando... Como não acreditar em alguém com uma arma apontada em sua cara? - minha risada os incomodava tanto que eu gargalhava o tempo todo, num prazer súbito por ver seus rostinhos tímidos em meu retrovisor.

Eles ficaram sentados no banco traseiro. Os dianteiros ficaram encharcados de sangue e miolos. O pior foi o cheiro de podre aumentando conforme aquilo se decompunha, exalando o cheiro de uma vida que se esvaiu por uma cabeça dura. Não tão dura quanto o chumbo de um projétil.

O sol suicidou-se no horizonte. Flávia dormia. Armando nunca dorme. Pelo menos nunca o vi dormindo.

- Dentro de 3 quilômetros terá uma entrada a esquerda. É lá que dormiremos. - Armando disse, súbito.

Eu continuei dirigindo, quieto, e exatamente 3 quilômetros a frente vi a entrada. Uma curta estrada de terra seguia em direção a um sítio, pequeno, sem celeiro, apenas um casebre.

- É o dono deste sítio? - indaguei.
- Você se esconderia em sua casa? - filho da puta.
- Não. - resposta retórica.
- Este sítio é de Amadeu. - fiquei perplexo. Incrível esta minha capacidade de ser tão volátil.
- Então vamos matá-lo agora?
- Você é burro?
- Não tanto quanto você, Armando.

Armando já não estava suportando muito minhas piadas. Creio que eu ter matado o velho tenha mexido com seus sentimentos. Melhor parar de arriscar, embora eu tenha uma arma, agora. Estacionei junto a casa, entramos silenciosamente, ninguém por lá. Flávia foi dormir no único quarto da pequena casa. Armando ficou perto de mim, todo o tempo, na sala, me encarando, em silêncio.

- Você me acha lindo? - eu não resisto. Me desculpem se eu morrer antes da hora.
- Maravilhoso. - ele sabe ser durão.
- Lindo quanto? - até aonde isso vai?
- Tiraria uma foto para colocar em seu túmulo. - ele sabe brincar.
- Do momento atual ou depois de atirar em mim?
- Eu realmente gostaria de acreditar que você não é tão idiota assim... - não perca a fé, meu amigo.
- Ok, Armando. O negócio é o seguinte. Minha vida está um caos, eu deveria ter encontrado minha ex ontem para tentar reatar, só que minha outra ex fudeu comigo me envenenando... Tudo bem, não foi culpa dela, mas eu preciso descontrair um pouco para aguentar toda essa barra que é gostar de você. - escapou, gente. - Digo. - ele esboçou muita fúria, fiquei apavorado... - Qual o seu plano, afinal?
- Caio, me escute. Vou dizer só uma vez, e eu falo sério. Não sou de brincar, como você, então preste atenção. - ele ficou mais sério que o habitual, embora eu não saiba descrever exatamente o que seria isso.
- Estou ouvindo. Diga, Armando. - eu fiquei sério também. Acho que não sou tão idiota assim.
- Se eu te dissesse que para conseguir parar Amadeu você precisasse se tornar o maior gangster que este lugar já conheceu, o que me diria?
- Eu diria para você se preparar para a guerra, Armando.

Estranhamente voltei a pensar no olhar do velho antes que eu atirasse. Ele realmente era livre de medo, assim como o primeiro homem que matei, com a sutil diferença que o último conseguia transmitir isso com o olhar. Será que Amadeu consegue ser frio como aquele velho?

domingo, 21 de fevereiro de 2016

26. Rejeitado nos portões do Hades.

O negrume azulado cintilava como uma sombra viva. A luz escorria por canaletas e vales. A escuridão iluminava e a luz escurecia, ou pelo menos o efeito que isso pode representar. Seria ótimo caso eu não soubesse que estou longe de casa. Que lugar é esse? É realidade ou sonho? Eu me sinto tão confuso que eu não sei mais o que é lembrança e o que pode ser sonho... Mas eu sei quem pode ter feito isso comigo, eu só preciso voltar a mim, entender que lugar é esse, ou abrir os olhos.

- Aaaahh... - um grito surdo.
- Acordou! - está tudo embaçado, mas essa voz... - Ele acordou!
- O que... Aconteceu... - nem soou como pergunta.
- Você desmaiou num bar enquanto comprava cigarros. - posso ver agora, é Dave.
- Ahh... Sim. - eu não consigo falar direito.
- Disseram que foi algum veneno. Qual a última coisa que bebeu?
- Chá... Quanto tempo? Dormi quanto tempo, Dave? - meus olhos estavm bem abertoos e Dave pareceu se assustar om minha expressão.
- Três dias... Uma garota veio te visitar ontem. Eu não acredito que está com ela novamente... E aquela supergata do bar? - você fica tão superficial de repente, Dave.
- Longa história... Preciso de água...

Dave falou por um tempo. Não acredito que sou envenenado e ainda recebo lição de moral. Mas Flávia veio me visitar, ela que me serviu chá. Será alguma vingança dela contra mim, ou será que Armando me envenenou? Pode ter sido tanta coisa... Amadeu, Armando, Ana, Flávia, Allan...

Se me envenenaram, então porque estou vivo ainda?

- Batracotoxina. É extraída de algumas espécies de sapos. Não sei exatamente que variedade é, mas posso assegurar que só queriam te derrubar, ou alguma tentativa frustrada de ficar alucinado. - esse doutor está insinuando que eu tentei ficar chapado de toxina de sapo?
- Eu não sou um noiado de sapo... - eu não quero continuar falando, me sinto cansado, mesmo depois de dormir por três dias.
- Como quiser. Ficará mais uns dias em observação, por sorte o veneno não era letal. Se reagir bem posso te dar alta amanhã no final da tarde, mas só se os sintomas passarem.

Eu precisava sair daqui hoje, mas é impossível nesta situação que me encontro.

- Eu vou pra casa, dormir, preciso descansar e trabalhar amanhã. Você me liga se precisar? - Dave nunca me abandonou... Me sinto mal por enganá-lo tanto, por esconder tantas coisas.
- Eu fico bem, Dave. - Ou pelo menos espero ficar.

Eu tenho muitas dúvidas agora, mas uma coisa eu tenho certeza, se uma mulher vier me visitar ela não será Ana. Ana nem sabe quem eu sou. Mas ao mesmo tempo ela sabe, talvez até da melhor forma, e outra vez ela não sabe de nada. Uma vida tripla. Três dias apagado. Três histórias. Pena não faltar apenas três horas para minha alta. Ficar preso num hospital após ser envenenado não é bom. Nem  sensação de ter sobrevivido é boa com tantas dores no corpo. Parece uma ressaca infinita que secou cada pedaço de seu corpo e te deixou mais seco do que um corpo morto sob o sol, te fazendo descobrir como é estar morto, como você se sentiria ao sentir seu corpo morrendo, deixando de existir. A diferença é que eu na verdade vou melhorando conforme passam as horas e minhas funções fisiológicas vão voltando ao normal devido as demasiadas doses de soro. Minha sentença é viver, e eu devo aproveitar isso da melhor forma possível.

Como esperado, olho para a porta e vejo ela, sempre arrumada de uma forma que aparente ter muito poder, a egocêntrica e famigerada Flávia.

- Que bom que está acordado. Talvez precise se movimentar um pouco. - Ela não tirou seus olhos dos meus, falou séria, sem pausas.
- Não sei se consigo fazer acrobacias agora...
- Cale a boca. Não enho tempo para esse seu humorzinho sarcástico. - Ela começou a fazer minha mala. - Você só precisa andar. - Ela olhou para mim e um pouco de seu desespero transpareceu.
- Você ficou louca? - Eu não consigo acreditar nela. Mesmo quando eu a amava loucamente eu sabia que era louca.
- Caio! - E me deu um tapa na cara. - Ou vem comigo ou juro que alguém vai vir aqui e te matar. Ouviu bem? - ela tirou os eletrodos de meu peito e a agulha de soro de meu braço e eu não soube como reagir. - Amadeu. - Ela disse no pé do meu ouvido. Ela nunca me fez arrepiar tanto.

Não achei que seria tão difícil caminhar, mas por sorte não é um roteiro de filme de ação, eu não precisei fugir de ninguém dentro do hospital. E agradeço Flávia por ter pego um carro com ar condicionado; nunca foi tão bom usar uma roupa de internação.

- Quem m envenenou?
- Eu. Foi necessário. - Como assim sua maluca?
- O quê? Necessário? - Quero matá-la, mas também não quero.
- A verdade é que Amadeu pediu para que eu o matasse. Eu usei um veneno para te fazer passar mal e ir para um hospital. Só assim para eu conseguir fugir com você.
- Flávia, você não podia só ter me falado e a gente fugia, antes de tentar me matar? - Eu estou suando frio. Ela pode me matar agora. Meus pensamentos ficam tão confusos em momentos de tensão...
- Não. Eles estavam me esperando quando fui a sua casa. Tudo lá é monitorado. Vimos Armando saindo de lá... É complicado Caio. Por que entrou nessa vida? - Senti o desespero na voz oscilante dela. - Você não faz ideia...
- Cale a boca, Flávia. Eu precisei entrar nessa. Você me deixou e eu perdi o rumo, então isso surgiu para mim, um tempo depois, como um mar de possibilidades, uma forma de eu me sentir vivo...
- Você está escutando o que diz? - ela me interrompeu gritando. - Matar gente te faz sentir mais vivo? Então você é um sádico do caralho?
- Não. Eu sou um assassino.
- É bosta! - Gritando. - Você era apenas um cara legal, com fases de autoconfiança elevada, mas sempre bom coração, ajudando pessoas, e agora me diz que matar por interesse é o que te deixa vivo? - Ela parou o carro no acostamento, levou a mão ao rosto e começou a chorar.
- Está certa. Mas e você? O que faz envolvida nisso tudo? Amadeu te ameaçou para me envenenar? - Eu me sinto estranhamente calmo agora.
- Ele não me ameaçou. Ele me contratou. - Deixei de estar calmo instantaneamente.
- Contratou? - Como reagir ao descobrir que sua ex com quem vem tendo um caso de putaria exacerbada foi contratada para te matar?
- Eu trabalho para Amadeu há 5 anos. - Eu vou desmaiar. - Eu te deixei por causa disso. - Eu preciso me manter atento, mas acho que vou desmaiar...
- Flávia... - Minha voz está mole.
- Caio, eles não sabem seu verdadeiro nome, mas isso não vai te proteger.
- Como entrou nisso? - A curiosidade matou o...
- Não tenho tempo pra te contar isso... Temos que resolver coisas mais importantes. - Vadia.
- Como me matar e me jogar num rio?
- Como te manter a salvo. E a mim. Entende isso?
- Entendo que você pode estar apenas me usando.
- É bom que desconfie de mim. É bom que desconfie de todos. - Ela voltou a dirigir.
- E Armando? Está morto?
- Não. Eles não podem o matar assim. Ele é muito mais importante do que Amadeu. Essa aventura não tem fim, Caio. - Não penso em nada a não ser que me ferrei.
- Isso está mais para bom ou para ruim?
- Calma. Tenha calma.

Flávia deixou a rodovia e entrou num acesso a um pequeno sítio. Um grande celeiro vermelho estava com as portas abertas, esperando por nós, aparentemente.

- Bem vindo, drogado. - Armando.
- Eu tenho um nome. Na verdade vários, mas nenhum deles é drogado. - Olhei no fundo de seus olhos, querendo intimidá-lo. Eu não tenho nada a perder.
- Caio, Armando. Sem tempo para isso. - Flávia parece a mais centrada aqui.
- Caio? O que houve com o Paulo?
- Foi envenenado.
- Quantas vidas te restam.
- Mais do que para eles, posso garantir. Se estamos atrás de vingança, então eu quero sentir o gosto do sangue. - Olhei no fundo dos olhos dele novamente. - Quantas vidas te restam, Armando?
- Não preciso estar vivo quando tenho um plano. A vingança apenas virá.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

25. Não Há Nada Que Não Possa Piorar.

Como se já não houvesse problemas suficientes. Traição significa apenas ma coisa: teremos que matar Amadeu.

- Três homens. Um carro me seguia. Fui para uma estrada de terra, saí do carro, o motorista desceu e foi me dizer algo enquanto tentava sacar uma arma, presa em sua cintura na parte das costas, e sem exitar fui atirando, segurei o corpo dele e usei de escudo, saquei sua arma e matei os outros dois. Por isso tanto sangue. Eu conhecia os três, capangas de Amadeu. Só não sei o porquê ele me quer morto. - Nessas horas é fácil saber se alguém fala sério ou não. Ou não, talvez seja tão difícil saber que facilmente nos confundimos.
- Perguntaremos antes de matá-lo. - Eu sempre quis dizer isso.
- Eu o mato. Você me ajuda, Paulo. - Ele tirou um celular do bolso e me entregou. Um modelo que tem rádio, para chamadas diretas. - Meu contato está salvo, eu entrarei em contato com você. Se algo acontecer, me avise. Eu tenho um plano para arquitetar. Consiga armas, Paulo.

Se antes minha vida era tediosa, agora é um filme de máfia, cheio de ação e conspirações. Eu só quero saber de uma coisa: quando o plano estive pronto, ele vai funcionar?

Um gole, um trago, alguns devaneios durante a madrugada, tentando pensar em soluções possíveis para meus problemas. Tantos... eu não deveria acumular tanta coisa, pois eu sempre sei que não consigo lidar, eu sou psicologicamente incapaz de aguentar certas situações. Droga. Esse celular não é o que Armando me deu. Esse número não é dele.

Ana.

- Oi. - Estou suando frio.
- Bruno, tudo bem? - Ela parece carente.
- Um pouco insone... Alguns problemas, mas estou bem. E você, Ana, como está? - Eu tento parecer natural, mas eu quero sair com ela, transar com ela, ser feliz com ela.
- Eu senti sua falta... - Agora eu estou entrando num estado eufórico de pânico. - A gente pode se encontrar? - Pressão caindo...

- Bruno? Hey. Cara sem nome. Me encontra, me conta seu nome.
- Encontro. Qual lugar? - Não sei agir de outra foma a não ser sendo direto.
- Naquele bar, Sexta. - Ótimo.
- Mesmo horário?
- Mesmo.

Não sei se comemoro ou se dou um tiro em minha cabeça. Tenho que despistar a Flávia, mas isso pode ser um tanto perigoso. Mas o que é perigo para um homem que pode se considerar morto. Pelo menos me querem morto, ou vão me querer, em breve. Eu deveria aproveitar meus últimos dias de vida em que não preciso me preocupar com um gangster querendo atirar em minha cabeça, ou será que alguém já virá me matar. Talvez eu seja descartável. Talvez eu não seja insubstituível.

Celular, novamente.

- Oi. - Se eu contar vocês não acreditam. Que dia.
- Estou na frente do seu portão. Abre. - Em que lugar deixei a maldita arma? Eu quero me matar, será mais fácil assim.

Flávia estava parada no portão de casa, com uma bolsa de couro amarelado, um shorts jeans e um top alaranjado, e garanto que ela não queria só conversar.

- Você tem oferecido chá para as garotas que vem aqui?
- Às vezes café, ou suco. Sei que não gosta de café. Não tem suco. Acabou a cerveja. - Eu acho que aflição não é  palavra certa.
- Dias agitados? - Ela me olha como uma predadora, louca para abocanhar a presa, sentir o gosto do sangue e se deliciar com a carne fresca.
- Cansativos. Quase incendiei minha casa, horas atrás... - Conversar normalmente. Esqueças suas paranoias e aproveite.
- Sério? Aonde? Como? - Ela realmente demonstra se importar. Eu não tenho coragem de chutar ela assim. Eu gosto dela, de algum modo estranho, autodestrutivo, mas gosto.
- Derrubei um baseado numa almofada e ela pegou fogo. Eu estava cochilando. Um amigo estava aqui e apagou o fogo, por sorte. - Eu disse tudo isso estranhamente calmo. Como se enganasse meu cérebro.
- Amigo? Amiga?
- Amigo. De trabalho.
- Que trabalho?
- A emissora. Eu me demiti e tenho trabalhado autonomamente, mas tenho um amigo daquela época.
- Você odeia editar.
- Mas é o que sei fazer.
- Sei... - Do que ela desconfia? - E você perdeu o sono por quê? - Ela atravessou a sala até estar parada em pé, ao meu lado.
- Às vezes perco, do nada.
- Quase morreu hoje e perdeu o sono por nada? Sorte sua ter um amigo perto... Estando tão desligado você precisa de alguém por perto. Talvez esteja muito solitário. - Ela aproximou a boca do meu ouvido. - Esteja precisando de uma boa companhia. - Pequenas mordidas em minha orelha esquerda me arrepiavam. - Esteja precisando de prazer real.
- Por que faz isso? Talvez não seja certo apostar em algo que já é passado... - Estou hesitante, mas não sei se quero hesitar. Estou totalmente excitado.
- Então por que me ligou? Estava sozinho - Ela segurou minha gola e me fez olhar no fundo de seus olhos. - Pensou em mim, eu te encontrei e agora está junto de mim. Aproveite o presente, esqueça o passado. - Não tive como resistir ao beijo, ao cinto da calça caindo ao chão, o sutiã dela se abrindo libertando aqueles belos seios.

- Aproveite, antes que seja tarde. - Ela consegue me conquistar. Continuo com essa queda mortal por garotas muito atraentes e com excesso de sexappeal.

O sofá que fora palco de um pequeno incêndio agora se tornava palco de mais uma tragédia sexual em minha vida. Um sexo majestoso, com direito a todos os arrepios que eu podia querer, mas num momento totalmente errado, logo quando Ana me procurou. Tenho medo do que virá.

Eu cochilei um pouco. Acho que duas ou três horas de sono. Flávia já está acordada, fazendo um chá. Eu preferiria café, mas chá pode me ajudar a relaxar, quem sabe dormir mais.

- Que bom que já acordou, estou fazendo torradas... - Eu nem consigo prestar atenção no que ela diz. - ...Espero que goste de torradas.
- Adoro torradas, obrigado. - Eu tentei sorrir. Nós transamos, eu tenho que ser educado.

Alguns minutos silenciosos, ela ligou o rádio e colocou um de meus discos, me trouxe um chá, quente, sem açúcar. Um pouco amargo, mas bom.

- Coma umas torradas. - Tudo ficou levemente anestesiado. É como se eu estivesse chapado, mas eu apenas dormi pouco...

Aquelas torradas estavam ótimas, mas minha boca ficou seca, bebi mais daquele chá um pouco amargo. A sensação de anestesia aumentou. Deve ser sono, eu preciso dormir mais.

- Eu vou embora, meu lindo. Depois venho te ver. Vamos aproveitar mais. - Ela me mandou um beijo de longe e foi embora. Estranho não ter me beijado antes de ir, ela sempre faz isso...

Eu vou pra minha cama, mas queria um cigarro antes. Preciso comprar, mas o bar não fica longe, eu consigo buscar. Meus passos nunca foram tão pesados as nove da manhã, embora eu geralmente durma o quanto precisa para estar sempre disposto. Eu raramente tenho insônia, e nenhuma vez fiquei tão cansado quanto hoje. O sexo com Flávia foi incrível, mas não acho que justifica.

- Um maço de cigarros. Vermelho. - Faltam palavras... Parece faltar...
- Tudo bem? Quer sentar? - Eu...
- Estou... - Levemente relaxado mais do que deveria.

Não tem mais do que me lembrar. Provavelmente fui ao chão. Tudo ficou preto.