Nunca senti o tempo tão lento, como se eu pudesse descrever cada fragmento, de tão chato e tenso que aquilo se tornara, esta espera maldita, dia após dia, no anseio de encontrá-la, talvez até beijá-la. Mas também sinto um desanseio: se ela me rejeitar. Qual o controle da situação nesta situação? Eu nem controlo meus dedos nos gatilhos, quem diria minhas palavras, agora, que nada mais importa de verdade, que o amanhã é sorte, que eu estar aqui é sorte. O pior é que eu nem sei exatamente a origem do ódio, da vontade de vingança, mas sei que concluirei tudo isso. A não ser que morra antes, mas não sinto sadismo suficiente nessas palavras, ainda.
A cada um passo, outro um seguia, uma a uma, seguindo um ritmo, e finalmente cheguei naquele bar. Só faltou atirarem na minha cabeça bem nesse momento; mas nem foi isso. Quem me dera tamanha sorte eu tivesse. Roía unhas entre uma dose e outra, e a golada seca do conhaque me amortecera a face. Me sentia até mais rebuscado, superior aos meros mortais fáceis de mortalizar a me rodearem. O poder me subiu a cabeça, mas ainda tremia de medo, precisava estar mais anestesiado. Precisava anestesiar meu ego! E assim eu tomei o rumo do banheiro, sentaria e faria o trabalho para confeccionar uma belíssima cigarrilha rastafari de maconha verdadeira. Minha melhor chance.
Ouvia o show começando, me senti um pouco mal por perder o início. Eu sempre gostei de como Ana e sua banda começavam seus shows, com um toque de suspense e uma energia destruidora, infiltrando cada membrana de suas mais remotas células com sua vibração extraordinária. Fiquei feliz de conseguir realizar o ato rapidamente, dando uma descarga para finalizar o teatro, jamais esperaria encontrar tamanha ironia ao sair daquele sanitário. E pior, jamais esperaria que tamanha ironia me lembrasse de tamanha ironia ainda mais escabrosa. Você não tem noção de como minhas cognições funcionam... Ou talvez tenha. Se tiver, procure ajuda. Ok, continuando. Quem eu avistei é um pobre sujeito que foi meu estagiário numa empresa de televisão; editávamos comerciais e reportagens do jornal local, eu o abandonei porque estava triste, e hoje estou aqui, e ele está parado me olhando neste momento sem dizer um "ah" e eu estou tentando voltar a raciocinar de modo que possibilite falar, mas ironicamente me lembrei de onde conhecera a casa de Amadeu. É muita informação...
- Victor? - não sei se perguntei ou se afirmei. - Quanto tempo, eu diria...
- Você parece bem bêbado... - E eu achava que a minha situação ia mal.
- A multidão me deixou um pouco sem ar, na verdade.
- Vamos lá fora. Tenho a
salvação. – Esse baseado ficou muito bonito.
-
Não sei, Caio. Eu bebi um bom tanto... - Desculpinhas...
-
Você precisa respirar. Fuma se quiser. Vamos lá, comigo. Faz tempo que não te
vejo e preciso de alguém por perto. – Olhei o mais fundo que pude naqueles olhos insones. – Por favor.
- Só não posso perder todo o show.
-
Eu também não. - inflexível.
O fogo é tão lindo ao acender minhas ideias. Victor sempre foi quieto. Sempre foi minha missão romper o silêncio entre nós. Ou seria romper a paz?
-
Você acredita no amor? – Eu acredito.
-
Acho que sim.
-
Então não acredita. Caso contrário saberia. – Esse céu estrelado...
-
Não acho que as coisas são assim. Pode haver um meio termo. Até mais de um. É
questão de opinião. – Nada mal.
-
Talvez tenha razão. Você vai? – Passo o baseado.
-
Por que precisa de alguém por perto? – Boa pergunta.
-
Minha alma está doente. Minha vida se tornou um caos. Eu a tornei assim. - As estrelas me fazem lembrar de Flávia.
-
Mas está tão bem vestido. Achei que havia obtido sucesso ao deixar a emissora.
– Quem me dera...
- Tenho dinheiro. Poder. Muito poder, Victor. Se seu sonho é ter poder eu até
posso te ajudar. Mas para conseguir certas coisas eu sacrifiquei o que
realmente importava. Para saciar um desejo terrível dentro de mim eu comecei a
fazer coisas terríveis; coisas que me afastaram daquilo que realmente me
satisfazia. Uma grande ilusão... – Uma grande confusão.
-
Sofre de amor? – Ele consegue perguntar algo melhor que isso.
-
Sofro por não saber amar.
-
Você pode aprender. - Piegas.
-
Não. Victor, eu estou num caminho sem volta. Só preciso dizer um último adeus,
porque depois disso eu irei sumir, e só serei encontrado se eu quiser que me
encontrem. – Ual! Adoro quando soo dramático.
-
Precisa de ajuda para conseguir dizer esse adeus? – Ele não está me ajudando...
- Esteja por perto. – É o que temos para o momento.
A música me dopou, como num frenesi.
- Caio, vamos mais perto do palco... – Caralho, só entendi metade da frase por causa do som alto. Eu estou realmente muito louco.
-
Vá na frente. - Tomara que ele consiga me guiar.
-
Não vai se perder de mim?
-
Só se eu quiser.
Quando meu olhar teve o privilégio de contemplá-la, uma errônea modulação incomodou meus sentidos, mais do que a expressão que sucedera-a, mais que a reação da plateia, que nada entendia sobre o que ali acontecia, mas sentia, quase que igualmente, por ao menos um segundo, o caos que me consome neste pedaço de instante.
-
É a mesma sensação de quando vi isso pela primeira vez. – Toda vez é a primeira vez, pois nunca é igual.
-
Você a conhece? – Eu que deveria fazer essa pergunta.
-
Não sei se o suficiente, mas não sei se terei a oportunidade de conhecer mais...
Ela ficava incomodada com meu olhar, mas não só ela. Acho que entendi o porquê Victor queria tanto vir logo ver o show. Não se trata apenas de música. Se trata de poesia. Se trata de Ana. Não há porque se tratar de mim.
A música para. As luzes se apagam. Eu ansiosamente aguardei para viver uma repetição do extase que está por vir.
-
Victor, - Eu precisava dizer algo. – Essa é a melhor parte do show. - Não era bem isso, mas vai servir para a minha mise en scene.
Disparada fora a vibração. A inércia quebrada descarregava os mais diversos hormônios ao mesmo tempo, desafiando a capacidade de entendimento enquanto revelava-se a intensidade daquela circunstância. Não haveria como descrever de forma protocolar. Não conseguiria distinguir aquilo do prazer que sinto ao disparar contra alguém que me enfureceu. O estrondoso barulho do disparo, a pólvora que incinera, o acorde que soa. As duas faces de uma mesma moeda para se comprar o prazer.
Poucos shows terminam de forma tão magnífica. Victor parece sentir o mesmo que eu.
- Vamos para o camarim, Victor. – Não sei bem como, mas farei agora o que me propus.
Eu não sei se estou chapado ou apenas estonteado por tudo o que representa esse momento, mas sinto que não há como me parar. Não agora.
- Ana! – Abra, por favor. – Tem um tempo para um velho amigo? - Tento me manter calmo, mas estou exaltado.
-
Pare de gritar! Eu não tenho que te dar atenção...
-
Eu só quero dizer tchau. Ana, eu vou embora. Não quero te trazer problemas. Só
quero dizer tchau... – Eu estava restes a começar a chorar, se não fosse Victor se aproximar...
-
Ana. Abra. Fale com ele.
O silêncio reinou por uma fração de tempo incontável.
-
O que quer, estranho? – Inflexível.
-
Apenas dizer adeus. Não tenho mais nada para te dizer. – 1, 2, 3, 4; 4, 3, 2... Isso realmente ajuda contra ansiedade?
- Por quê? Vai se casar? Cometer suicídio? Ou veio apenas testar meus
sentimentos, idiota? – Nossa. Ela realmente me odeia. Ou me ama. Essas coisas se confundem.
-
Caio. – Meu último trunfo. – Meu nome é Caio. – Vou cuidar muito mais dela estando longe, meu caminho é sem volta. Estou condenado a cuidar dela de longe. Amá-la de longe. Victor será muito melhor para ela. – Guarde este cartão. Cuide dela. Se algum dia precisar, me
ligue. Se passar este número para alguém eu mesmo te mato. – Entreguei o cartão para ele, olhando no fundo de seus olhos. É bom esse desgraçado não cagar em tudo.
-
Tudo bem. – Assim espero. Ele está tremendo.
Ana ficou assustada e soltou um grito mudo de espanto. Victor tremia mais ainda. Só então me lembrei que tinha uma pistola na minha cintura.
É foda querer se despedir quando se está sendo caçado por mafiosos.
Ana ficou assustada e soltou um grito mudo de espanto. Victor tremia mais ainda. Só então me lembrei que tinha uma pistola na minha cintura.
É foda querer se despedir quando se está sendo caçado por mafiosos.
-
Ana. Eu te amei, mas não te mereço. – Disfarçadamente...
-
Caio, não faça nenhuma...
-
Victor. – ...escondo a arma. – Eu não te daria meu contato caso fosse me
suicidar. – Na verdade nem sei se era sobre suicídio que ele estava se referindo. – Ana. Adeus.
Cuide dela, Victor.
Eu dei as costas, caminhei lentamente enquanto eles podiam me ver, tentei parecer inabalável, inatingível; sólido. Apenas até que eles não pudessem mais me ver. Agora só me interessa ir pra bem longe dessa cidade. Certeza que dessa vez Armando vai me desse a borracha até eu me comportar direito. Ele e Flávia provavelmente jamais entenderão, mas eu acredito estar recebendo respostas, embora muita coisa esteja fazendo pouco sentido.
E por falar em sentido, ao seguir sentido ao meu carro avisto alguém que tirou boa parte do sentido de tudo em minha vida. Seria uma alucinação? Seja lá qual for a resposta, na situação que me encontro não estou em posição de negar uma discussão sobre o assunto.
- Parece agitado, filho. - Eu já disse que odeio quando ele me chama de filho?
- Entra no carro, velhote. - Vai ser uma longa viagem. - Temos muito o que conversar.
Alan entrou no carro.
- Vamos embora daqui, Paulo. - Ele mantinha os olhos fixo para a frente.
O barulho do motor inundava nossos ouvidos ao esperar ansiosamente pela quebra do silêncio verbal.