quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

25. Não Há Nada Que Não Possa Piorar.

Como se já não houvesse problemas suficientes. Traição significa apenas ma coisa: teremos que matar Amadeu.

- Três homens. Um carro me seguia. Fui para uma estrada de terra, saí do carro, o motorista desceu e foi me dizer algo enquanto tentava sacar uma arma, presa em sua cintura na parte das costas, e sem exitar fui atirando, segurei o corpo dele e usei de escudo, saquei sua arma e matei os outros dois. Por isso tanto sangue. Eu conhecia os três, capangas de Amadeu. Só não sei o porquê ele me quer morto. - Nessas horas é fácil saber se alguém fala sério ou não. Ou não, talvez seja tão difícil saber que facilmente nos confundimos.
- Perguntaremos antes de matá-lo. - Eu sempre quis dizer isso.
- Eu o mato. Você me ajuda, Paulo. - Ele tirou um celular do bolso e me entregou. Um modelo que tem rádio, para chamadas diretas. - Meu contato está salvo, eu entrarei em contato com você. Se algo acontecer, me avise. Eu tenho um plano para arquitetar. Consiga armas, Paulo.

Se antes minha vida era tediosa, agora é um filme de máfia, cheio de ação e conspirações. Eu só quero saber de uma coisa: quando o plano estive pronto, ele vai funcionar?

Um gole, um trago, alguns devaneios durante a madrugada, tentando pensar em soluções possíveis para meus problemas. Tantos... eu não deveria acumular tanta coisa, pois eu sempre sei que não consigo lidar, eu sou psicologicamente incapaz de aguentar certas situações. Droga. Esse celular não é o que Armando me deu. Esse número não é dele.

Ana.

- Oi. - Estou suando frio.
- Bruno, tudo bem? - Ela parece carente.
- Um pouco insone... Alguns problemas, mas estou bem. E você, Ana, como está? - Eu tento parecer natural, mas eu quero sair com ela, transar com ela, ser feliz com ela.
- Eu senti sua falta... - Agora eu estou entrando num estado eufórico de pânico. - A gente pode se encontrar? - Pressão caindo...

- Bruno? Hey. Cara sem nome. Me encontra, me conta seu nome.
- Encontro. Qual lugar? - Não sei agir de outra foma a não ser sendo direto.
- Naquele bar, Sexta. - Ótimo.
- Mesmo horário?
- Mesmo.

Não sei se comemoro ou se dou um tiro em minha cabeça. Tenho que despistar a Flávia, mas isso pode ser um tanto perigoso. Mas o que é perigo para um homem que pode se considerar morto. Pelo menos me querem morto, ou vão me querer, em breve. Eu deveria aproveitar meus últimos dias de vida em que não preciso me preocupar com um gangster querendo atirar em minha cabeça, ou será que alguém já virá me matar. Talvez eu seja descartável. Talvez eu não seja insubstituível.

Celular, novamente.

- Oi. - Se eu contar vocês não acreditam. Que dia.
- Estou na frente do seu portão. Abre. - Em que lugar deixei a maldita arma? Eu quero me matar, será mais fácil assim.

Flávia estava parada no portão de casa, com uma bolsa de couro amarelado, um shorts jeans e um top alaranjado, e garanto que ela não queria só conversar.

- Você tem oferecido chá para as garotas que vem aqui?
- Às vezes café, ou suco. Sei que não gosta de café. Não tem suco. Acabou a cerveja. - Eu acho que aflição não é  palavra certa.
- Dias agitados? - Ela me olha como uma predadora, louca para abocanhar a presa, sentir o gosto do sangue e se deliciar com a carne fresca.
- Cansativos. Quase incendiei minha casa, horas atrás... - Conversar normalmente. Esqueças suas paranoias e aproveite.
- Sério? Aonde? Como? - Ela realmente demonstra se importar. Eu não tenho coragem de chutar ela assim. Eu gosto dela, de algum modo estranho, autodestrutivo, mas gosto.
- Derrubei um baseado numa almofada e ela pegou fogo. Eu estava cochilando. Um amigo estava aqui e apagou o fogo, por sorte. - Eu disse tudo isso estranhamente calmo. Como se enganasse meu cérebro.
- Amigo? Amiga?
- Amigo. De trabalho.
- Que trabalho?
- A emissora. Eu me demiti e tenho trabalhado autonomamente, mas tenho um amigo daquela época.
- Você odeia editar.
- Mas é o que sei fazer.
- Sei... - Do que ela desconfia? - E você perdeu o sono por quê? - Ela atravessou a sala até estar parada em pé, ao meu lado.
- Às vezes perco, do nada.
- Quase morreu hoje e perdeu o sono por nada? Sorte sua ter um amigo perto... Estando tão desligado você precisa de alguém por perto. Talvez esteja muito solitário. - Ela aproximou a boca do meu ouvido. - Esteja precisando de uma boa companhia. - Pequenas mordidas em minha orelha esquerda me arrepiavam. - Esteja precisando de prazer real.
- Por que faz isso? Talvez não seja certo apostar em algo que já é passado... - Estou hesitante, mas não sei se quero hesitar. Estou totalmente excitado.
- Então por que me ligou? Estava sozinho - Ela segurou minha gola e me fez olhar no fundo de seus olhos. - Pensou em mim, eu te encontrei e agora está junto de mim. Aproveite o presente, esqueça o passado. - Não tive como resistir ao beijo, ao cinto da calça caindo ao chão, o sutiã dela se abrindo libertando aqueles belos seios.

- Aproveite, antes que seja tarde. - Ela consegue me conquistar. Continuo com essa queda mortal por garotas muito atraentes e com excesso de sexappeal.

O sofá que fora palco de um pequeno incêndio agora se tornava palco de mais uma tragédia sexual em minha vida. Um sexo majestoso, com direito a todos os arrepios que eu podia querer, mas num momento totalmente errado, logo quando Ana me procurou. Tenho medo do que virá.

Eu cochilei um pouco. Acho que duas ou três horas de sono. Flávia já está acordada, fazendo um chá. Eu preferiria café, mas chá pode me ajudar a relaxar, quem sabe dormir mais.

- Que bom que já acordou, estou fazendo torradas... - Eu nem consigo prestar atenção no que ela diz. - ...Espero que goste de torradas.
- Adoro torradas, obrigado. - Eu tentei sorrir. Nós transamos, eu tenho que ser educado.

Alguns minutos silenciosos, ela ligou o rádio e colocou um de meus discos, me trouxe um chá, quente, sem açúcar. Um pouco amargo, mas bom.

- Coma umas torradas. - Tudo ficou levemente anestesiado. É como se eu estivesse chapado, mas eu apenas dormi pouco...

Aquelas torradas estavam ótimas, mas minha boca ficou seca, bebi mais daquele chá um pouco amargo. A sensação de anestesia aumentou. Deve ser sono, eu preciso dormir mais.

- Eu vou embora, meu lindo. Depois venho te ver. Vamos aproveitar mais. - Ela me mandou um beijo de longe e foi embora. Estranho não ter me beijado antes de ir, ela sempre faz isso...

Eu vou pra minha cama, mas queria um cigarro antes. Preciso comprar, mas o bar não fica longe, eu consigo buscar. Meus passos nunca foram tão pesados as nove da manhã, embora eu geralmente durma o quanto precisa para estar sempre disposto. Eu raramente tenho insônia, e nenhuma vez fiquei tão cansado quanto hoje. O sexo com Flávia foi incrível, mas não acho que justifica.

- Um maço de cigarros. Vermelho. - Faltam palavras... Parece faltar...
- Tudo bem? Quer sentar? - Eu...
- Estou... - Levemente relaxado mais do que deveria.

Não tem mais do que me lembrar. Provavelmente fui ao chão. Tudo ficou preto.

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