domingo, 21 de fevereiro de 2016

26. Rejeitado nos portões do Hades.

O negrume azulado cintilava como uma sombra viva. A luz escorria por canaletas e vales. A escuridão iluminava e a luz escurecia, ou pelo menos o efeito que isso pode representar. Seria ótimo caso eu não soubesse que estou longe de casa. Que lugar é esse? É realidade ou sonho? Eu me sinto tão confuso que eu não sei mais o que é lembrança e o que pode ser sonho... Mas eu sei quem pode ter feito isso comigo, eu só preciso voltar a mim, entender que lugar é esse, ou abrir os olhos.

- Aaaahh... - um grito surdo.
- Acordou! - está tudo embaçado, mas essa voz... - Ele acordou!
- O que... Aconteceu... - nem soou como pergunta.
- Você desmaiou num bar enquanto comprava cigarros. - posso ver agora, é Dave.
- Ahh... Sim. - eu não consigo falar direito.
- Disseram que foi algum veneno. Qual a última coisa que bebeu?
- Chá... Quanto tempo? Dormi quanto tempo, Dave? - meus olhos estavm bem abertoos e Dave pareceu se assustar om minha expressão.
- Três dias... Uma garota veio te visitar ontem. Eu não acredito que está com ela novamente... E aquela supergata do bar? - você fica tão superficial de repente, Dave.
- Longa história... Preciso de água...

Dave falou por um tempo. Não acredito que sou envenenado e ainda recebo lição de moral. Mas Flávia veio me visitar, ela que me serviu chá. Será alguma vingança dela contra mim, ou será que Armando me envenenou? Pode ter sido tanta coisa... Amadeu, Armando, Ana, Flávia, Allan...

Se me envenenaram, então porque estou vivo ainda?

- Batracotoxina. É extraída de algumas espécies de sapos. Não sei exatamente que variedade é, mas posso assegurar que só queriam te derrubar, ou alguma tentativa frustrada de ficar alucinado. - esse doutor está insinuando que eu tentei ficar chapado de toxina de sapo?
- Eu não sou um noiado de sapo... - eu não quero continuar falando, me sinto cansado, mesmo depois de dormir por três dias.
- Como quiser. Ficará mais uns dias em observação, por sorte o veneno não era letal. Se reagir bem posso te dar alta amanhã no final da tarde, mas só se os sintomas passarem.

Eu precisava sair daqui hoje, mas é impossível nesta situação que me encontro.

- Eu vou pra casa, dormir, preciso descansar e trabalhar amanhã. Você me liga se precisar? - Dave nunca me abandonou... Me sinto mal por enganá-lo tanto, por esconder tantas coisas.
- Eu fico bem, Dave. - Ou pelo menos espero ficar.

Eu tenho muitas dúvidas agora, mas uma coisa eu tenho certeza, se uma mulher vier me visitar ela não será Ana. Ana nem sabe quem eu sou. Mas ao mesmo tempo ela sabe, talvez até da melhor forma, e outra vez ela não sabe de nada. Uma vida tripla. Três dias apagado. Três histórias. Pena não faltar apenas três horas para minha alta. Ficar preso num hospital após ser envenenado não é bom. Nem  sensação de ter sobrevivido é boa com tantas dores no corpo. Parece uma ressaca infinita que secou cada pedaço de seu corpo e te deixou mais seco do que um corpo morto sob o sol, te fazendo descobrir como é estar morto, como você se sentiria ao sentir seu corpo morrendo, deixando de existir. A diferença é que eu na verdade vou melhorando conforme passam as horas e minhas funções fisiológicas vão voltando ao normal devido as demasiadas doses de soro. Minha sentença é viver, e eu devo aproveitar isso da melhor forma possível.

Como esperado, olho para a porta e vejo ela, sempre arrumada de uma forma que aparente ter muito poder, a egocêntrica e famigerada Flávia.

- Que bom que está acordado. Talvez precise se movimentar um pouco. - Ela não tirou seus olhos dos meus, falou séria, sem pausas.
- Não sei se consigo fazer acrobacias agora...
- Cale a boca. Não enho tempo para esse seu humorzinho sarcástico. - Ela começou a fazer minha mala. - Você só precisa andar. - Ela olhou para mim e um pouco de seu desespero transpareceu.
- Você ficou louca? - Eu não consigo acreditar nela. Mesmo quando eu a amava loucamente eu sabia que era louca.
- Caio! - E me deu um tapa na cara. - Ou vem comigo ou juro que alguém vai vir aqui e te matar. Ouviu bem? - ela tirou os eletrodos de meu peito e a agulha de soro de meu braço e eu não soube como reagir. - Amadeu. - Ela disse no pé do meu ouvido. Ela nunca me fez arrepiar tanto.

Não achei que seria tão difícil caminhar, mas por sorte não é um roteiro de filme de ação, eu não precisei fugir de ninguém dentro do hospital. E agradeço Flávia por ter pego um carro com ar condicionado; nunca foi tão bom usar uma roupa de internação.

- Quem m envenenou?
- Eu. Foi necessário. - Como assim sua maluca?
- O quê? Necessário? - Quero matá-la, mas também não quero.
- A verdade é que Amadeu pediu para que eu o matasse. Eu usei um veneno para te fazer passar mal e ir para um hospital. Só assim para eu conseguir fugir com você.
- Flávia, você não podia só ter me falado e a gente fugia, antes de tentar me matar? - Eu estou suando frio. Ela pode me matar agora. Meus pensamentos ficam tão confusos em momentos de tensão...
- Não. Eles estavam me esperando quando fui a sua casa. Tudo lá é monitorado. Vimos Armando saindo de lá... É complicado Caio. Por que entrou nessa vida? - Senti o desespero na voz oscilante dela. - Você não faz ideia...
- Cale a boca, Flávia. Eu precisei entrar nessa. Você me deixou e eu perdi o rumo, então isso surgiu para mim, um tempo depois, como um mar de possibilidades, uma forma de eu me sentir vivo...
- Você está escutando o que diz? - ela me interrompeu gritando. - Matar gente te faz sentir mais vivo? Então você é um sádico do caralho?
- Não. Eu sou um assassino.
- É bosta! - Gritando. - Você era apenas um cara legal, com fases de autoconfiança elevada, mas sempre bom coração, ajudando pessoas, e agora me diz que matar por interesse é o que te deixa vivo? - Ela parou o carro no acostamento, levou a mão ao rosto e começou a chorar.
- Está certa. Mas e você? O que faz envolvida nisso tudo? Amadeu te ameaçou para me envenenar? - Eu me sinto estranhamente calmo agora.
- Ele não me ameaçou. Ele me contratou. - Deixei de estar calmo instantaneamente.
- Contratou? - Como reagir ao descobrir que sua ex com quem vem tendo um caso de putaria exacerbada foi contratada para te matar?
- Eu trabalho para Amadeu há 5 anos. - Eu vou desmaiar. - Eu te deixei por causa disso. - Eu preciso me manter atento, mas acho que vou desmaiar...
- Flávia... - Minha voz está mole.
- Caio, eles não sabem seu verdadeiro nome, mas isso não vai te proteger.
- Como entrou nisso? - A curiosidade matou o...
- Não tenho tempo pra te contar isso... Temos que resolver coisas mais importantes. - Vadia.
- Como me matar e me jogar num rio?
- Como te manter a salvo. E a mim. Entende isso?
- Entendo que você pode estar apenas me usando.
- É bom que desconfie de mim. É bom que desconfie de todos. - Ela voltou a dirigir.
- E Armando? Está morto?
- Não. Eles não podem o matar assim. Ele é muito mais importante do que Amadeu. Essa aventura não tem fim, Caio. - Não penso em nada a não ser que me ferrei.
- Isso está mais para bom ou para ruim?
- Calma. Tenha calma.

Flávia deixou a rodovia e entrou num acesso a um pequeno sítio. Um grande celeiro vermelho estava com as portas abertas, esperando por nós, aparentemente.

- Bem vindo, drogado. - Armando.
- Eu tenho um nome. Na verdade vários, mas nenhum deles é drogado. - Olhei no fundo de seus olhos, querendo intimidá-lo. Eu não tenho nada a perder.
- Caio, Armando. Sem tempo para isso. - Flávia parece a mais centrada aqui.
- Caio? O que houve com o Paulo?
- Foi envenenado.
- Quantas vidas te restam.
- Mais do que para eles, posso garantir. Se estamos atrás de vingança, então eu quero sentir o gosto do sangue. - Olhei no fundo dos olhos dele novamente. - Quantas vidas te restam, Armando?
- Não preciso estar vivo quando tenho um plano. A vingança apenas virá.

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