domingo, 28 de abril de 2013

6.


Algumas vezes me imagino como um velho, cego, com alguns livros em braile para serem devorados com o propósito de tornar-me menos solitário. Um fim trágico, concordo, porém até o consideraria como alternativa após uma breve reflexão sobre o dia-a-dia atual de nossa sociedade.

Não são todas as pirâmides que conseguem se manterem firmes sobre a areia fina.

Não sei se o que mais me assusta no mundo é a diversidade ou a hipocrisia. Ou será uma resultada da outra? Fica até complicado entender.

Aquele velho ritual de um dia tedioso ocorreu. Acordar, buscar algo pra fazer, tornar-me paranóico, enlouquecer, tomar uma dose de conhaque buscando distração, banho, refeição, televisão.

Eu poderia ligar para a Ana, mas prefiro fazer-me de difícil, esperar até um outro dia para desvendar um pouco mais dessa garota misteriosa, me divertir e diverti-la.

O tédio é apenas uma condição que nós mesmos impomos para tornar nossos dias algo medíocre.

Bom, chega desse domingo filosófico. Não sou um pensador moderno obsessivo, mas sim apenas mais uma pessoa com problemas no dia-a-dia.

Meu conhaque acabou.

Meu velho casaco jeans ainda serve para aquecer meu corpo em certas caminhadas noturnas, principalmente as que acabam me levando para algum bar estranho. Bar estranho, não. Eu conheço esse lugar. Olho para o balcão e deparo-me com a mesma velha de outra noite, ela novamente me olha de cima a baixo, aqueles olhos esbugalhados me assustam um pouco.

- O que vai querer rapaz?
- Uma dose de conhaque e uma cerveja, por favor. – quem fala “por favor” em um bar desses?

Começo a olhar ao meu redor, procurando por algo, mas não sei exatamente o que.

A mulher coloca um copo com conhaque no balcão e ao lado minha cerveja. Nem me preocupo se a cerveja está realmente gelada, faz tanto frio lá fora que eu a beberia quente e agradeceria.

Dou o primeiro gole no conhaque e olho para o lado, vejo um sujeito se aproximando, parece estar vindo em minha direção. Quem é ele?

- Você por aqui de novo, meu rapaz. – indagou ele.
- Como você pode ver! – disse eu com certa ironia na voz.
- Parece mais animado do que da última vez. – essa voz rouca é familiar. Sim! É o velho com quem conversei neste mesmo bar outra vez.
- Acho que estou conseguindo ajeitar certas coisas em minha vida.
- Isso é muito bom meu jovem. A vida passa muito rápido. Num dia eu era um garotão, cercado de mulheres, então no outro estava aqui, nesse bar, bebendo um conhaque junto de uma cerveja. – ele pareceu ironizar o que eu bebia.
- Triste fim, senhor.
- Não me chame de senhor! – disse assustado – Sou um jovem ainda! É nisso que acredito meu rapaz!
- Me desculpe, não quis ser rude com o senh... – um segundo de silêncio – Me desculpe novamente. – estou mendigando perdão de um desconhecido? - Qual o seu nome?
- Alan.
- Parece conhecer bem a vida Alan.
- Tento.
- Parece até ter criado certa antipatia por conta disso. – eu fui um tanto quanto desafiador nesse momento.
- Não tanto quanto você, meu jovem. – ele olhou para cima como se armasse um plano diabólico – Qual é mesmo seu nome? – seus olhos volveram-se em minha direção com um ar totalmente questionador.
- Paulo. – disse o primeiro nome que me veio a cabeça.
- Paulo?
- Isso mesmo. Paulo. – demonstrei mais certeza dessa vez.
- Não confia em ninguém, não é mesmo? Deve ter sido traído de forma colossal. – quem usa o termo colossal?
- Não confio nem em mim mesmo, Alan. As pessoas não são dignas de minha confiança. Se fossem eu nem sequer estaria aqui.

Ele me analisava de cima a baixo, parecia me estudar, buscava um ponto fraco meu talvez.

- É muito inteligente Paulo. Conte-me mais sobre o porquê de não confiar nas pessoas. Ou melhor! Conte-me o porquê não confia em você mesmo. – ele queria me surpreender.
- Porque eu confiaria em alguém que eu mal conheço, sendo que não conheço bem nem a mim mesmo? – responda essa, velho.
- Deveria confiar no que diz Paulo. Você é muito inteligente.

Bebo meu conhaque num único gole. Ele me estressou com essa psicologia barata. Eu saio de casa a fim de pensar menos, relaxar, mas encontro um velho, gordo, sem perspectiva nenhuma em sua vida e ainda por cima começa a indagar sobre quem devo confiar? Ele deve estar louco.

- Não tem nada a dizer?
- Não. Até porque não confio em você.
- E se eu lhe desse um motivo para confiar? – sua proposta parecia tentadora.
- E por que confiaria?
- Porque sua curiosidade cresceu junto do dilatar de suas pupilas. – agora ele virou poeta.
- E o que precisaremos fazer para que eu ganhe sua confiança?
- Você terá que confiar em mim, primeiramente. Caso contrário não terei como mostrar-lhe o maravilhoso mundo que conheço. – ele está me persuadindo.
- Confesso que estou curioso. E você já deve ter notado que sou daqueles que “paga para ver”. Esperto você Alan. Sabe jogar com a curiosidade das pessoas.
- É apenas parte do meu show.

Terminei minha cerveja e saímos do bar naquele mesmo instante. Ventava muito do lado de fora, era complicado respirar, meus olhos estavam lacrimejando.

- Ficaremos aqui fora, expostos a esse vento maldito Alan?
- Não, filho. Vamos ganhar uma carona.

De repente aparece uma minivan preta em nossa frente, a porta lateral abre e Alan entra. Eu entro logo atrás, um pouco receoso, mas sem hesitar.

A minivan começa a andar e eu já não sei mais onde vou parar.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

5. Transição.


A vontade de pegar meu telefone e ligar imediatamente para Ana, desde o momento que acordei, é imensa. Acordei às sete e dezesseis da manhã neste sábado, algo que só ocorre quando tenho que ir trabalhar. Completamente inquieto, acho que não me sinto ansioso desse jeito já faz um bom tempo. Embora minha vontade fosse ligar imediatamente, resolvi esperar até o meio dia, para que não acabe ligando num horário muito inconveniente.

Não tiro meus olhos do maldito relógio que fica tiquetaqueando em minha parede. Ele parece me encarar de uma maneira estranha, sarcástica, fazendo o tempo passar da forma mais lenta possível apenas para aumentar minha ansiedade e me levar à loucura.

Começo alguns afazeres domésticos para que o tempo passe sem que eu perceba. Lavo a louça, coloco a roupa em minha máquina de lavar, passo pano pelo chão para dar um ar mais arejado a minha casa.

Olho novamente para o relógio.

Mordo uma maçã, ligo a televisão, começo a pensar porque eu havia de estar ansioso. Eu poderia dormir até as onze da manhã, sem problema algum para, só então, pensar em ligar para ela.

Entre um passatempo e outro olho para o relógio novamente, a tão esperada hora se aproxima. Pego meu smartphone e começo a discar o número. Aperto o botão para realizar a chamada pouco antes do ponteiro dos minutos chegar ao número doze.

Chama pela primeira vez.

Chama pela segunda vez.

- Alô?
- Ana? – pergunto já sorrindo.
- Seria um rapaz misterioso do outro lado da linha? – o tom de voz dela demonstra sua confiança.
- Se este rapaz misterioso disse que te ligaria para combinarem de sair e beber algo durante a noite, sim, sou eu. – disse com o tom de voz convencido que venho utilizando desde a primeira palavra que disse a ela.
- Nossa! Já sedutor a essa hora do dia? – disse ela em tom de gozação.
- Eu faço o que posso para conquistar uma bela garota como você, Ana.
- Mas nem sabe se meu nome é Ana.
- Pelo menos eu tenho um nome para te chamar.
- E se eu inventasse um para você?
- Tudo bem. Invente.
- Então, o que acha de Lucas? – ela faz uma pausa – Não! Melhor Ricardo! – ela ri muito.
- Não acho que algum desses nomes combine muito comigo.
- Não vai dizer seu nome de verdade, não é?
- E porque diria? Não acha divertido esse joguinho? – a ironia tomou conta de mim.
- Na verdade acho! Vou te chamar por um nome diferente a cada dia que nos encontrarmos. Toda vez que me ligar eu o chamarei por um nome e, esse nome, será utilizado por toda a noite. Depois escreverei um diário onde o título de cada encontro nosso será o nome que escolhi para o dia. Gostou? – disse ela com uma doçura incrível. Criamos nosso próprio joguinho. Sinto-me espantado com a naturalidade que fluem as coisas entre nós.
- Combinado, Ana! – meu tom de voz dessa vez foi amigável – e qual será o nome de hoje?

Combinamos de ir até um barzinho no centro da cidade, onde pessoas bebem chopp em torres enquanto escutam algum cantor local de MPB. Um ambiente bem agradável, ótimo para um encontro de sábado à noite. Marcamos de nos encontrar no próprio bar. Eu deveria chegar mais cedo, sentar-me, beber alguma coisa enquanto a esperava. Ela apareceria algum tempo depois, deslumbrante, e seguiria até o balcão. A partir daí eu teria que ir até ela e, por mais estranho que isso pareça, flertar com ela.

Claro que esse plano deu totalmente errado.

Eu tomei um banho morno, escolhi uma boa roupa, peguei meu celular, calcei meus sapatos, as chaves de casa, tranquei as portas e fui caminhando em direção ao bar.

Acho que não me esqueci de nada.

Meu carro está no conserto, é um velho modelo sedam  azul, muito espaçoso. Não é um carro caro e novo como o que Dave está usando, porém é um belo carro com traços marcantes de sua época.

A caminhada de minha casa até o bar onde encontrarei Ana é de mais ou menos quarenta minutos. Eu andava haviam uns quinze minutos quando me dei conta de que algo ficou para trás. Tentei me lembrar se havia fechado todas as janelas, se algo ficará esquecido para o lado de fora, mas tudo estava em ordem até onde conseguia me lembrar. Não cometi o erro de esquecer o piloto do fogão aberto.

Coloco as mãos nos bolsos de minha calça, de um tiro meu smartphone e de outro as chaves de minha casa e, por um instante, minha mente sofre uma epifania, fazendo-me lembrar o que havia esquecido.

Minha carteira com todo meu dinheiro e documentos ficou em cima da mesa, na sala de estar de minha casa.

Meia volta, começo a caminhar em passos longos. Chego a minha casa, destranco o cadeado do portão com pressa. Eu deveria estar chegando ao bar.

Recomeço minha caminhada, estressado, não esperava que algo assim fosse acontecer, não hoje, o dia em que iria encontrar-me com uma garota maravilhosa, além disso, a primeira que fico interessado depois de muito tempo.

Chego ao bar, olho para o balcão e lá está ela, com uma taça de Martíni em sua mão esquerda e um cigarro em sua outra mão. Ando em direção a ela e, mais ou menos quando estava no meio do caminho, um cara qualquer que estava no bar se aproxima para falar com ela, ela olha para ele e sorri, não viu que eu estava chegando, continua a conversar com aquele estranho, eu mantenho a velocidade do passo, tento me manter calmo, esqueço de tudo, aproximo-me deles.

- Obrigado por entreter minha namorada enquanto ela me esperava! Tem algo que posso fazer para te recompensar? – disse-lhe olhando bem no fundo dos olhos, com uma confiança eminente em minha voz.
- É... Não! Desculpe-me qualquer coisa! Até mais! – disse o rapaz, assustado, enquanto voltava para sua mesa com alguns amigos.

Virei-me para a direção de Ana, ela tinha um olhar que demonstrava certo espanto, com toda certeza não esperava que algo do gênero fosse acontecer, até que a surpreendi com um beijo, sem palavras, sem rodeios. Meus lábios apenas tocaram os dela de forma quase que espontânea. Aqueles lábios carnudos de sua linda boca eram macios, com uma textura única, arrancando-me um suspiro quase que sem querer, enquanto sua língua encontrava a minha por um pequeno momento de estase.

- Me desculpe a demora, Ana. Eu acabei tendo um prob... – ela me interrompeu com um beijo.
- Não importa. John. Vou considerar seu flerte como um pedido de desculpas! – disse num tom de voz doce, como se nada mais importasse.
- Tudo bem. – disse sorrindo – Onde nos sentaremos?

Escolhemos um lugar para sentarmos, trocávamos sorrisos, pedimos uma torre de chopp mesmo sem saber se aguentaríamos bebe-la em dois, mas isso não importava muito, o momento por si só já estava valendo, e muito, a pena.

- E então senhor John. Posso saber agora qual o motivo do seu atraso? – disse com a voz provocante.
- Achei que já havia me perdoado, senhorita Ana. – respondi com um leve sarcasmo carregado de humor.
- É apenas curiosidade. Coisa de mulher. – disse disfarçando.
- Meu carro está internado em uma oficina, até deve estar pronto, mas ainda não fui até lá para descobrir e, por conta disso, precisei vir andando até aqui.
- Isso não parece motivo para atraso. – questionou.
- É, na verdade me atrasei porque quando estava na metade do caminho descobri que havia esquecido minha carteira em casa.
- John! Isso é demais! Você já pensou na história que tem para contar para seus netos? – ela ria sem parar.
- Se eu contar ninguém acredita! – num tom bem humorado.
- Pois bem. – disse após respirar fundo tentando parar de rir – Pelo menos seu atraso foi algo positivo de certa forma. – eu segurava suas mãos sobre a mesa do barzinho, olhava bem no fundo de seus olhos, cada um de nós com um sorriso bobo na cara. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo.
- É, até porque eu nem sabia como flertar com você pela segunda vez!
- Mas acertou em cheio.

Nossos rostos aproximaram-se e mais uma vez, nessa noite, nos beijamos.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

4. Paranoia.


O relógio tiquetaqueando dentro de minha cabeça, me levando a loucura. Vejo a traição em forma de amizade estampada na parede de meu quarto, posso vê-la pela janela. Tic, tac, tic, tac... Arranho meu rosto, me desespero e um grito sem som é a única maneira que consigo me expressar.

Foi apenas um pesadelo?

Foi.

Deixarei para lá, não gosto de levar meus sonhos e pesadelos muito a sério, isso só atrapalha o modo com que vejo a realidade. Mas sempre acabo me preocupando demais, numa constante busca por um problema que de fato nem existe. Esses sonhos me tornam um pouco paranoico.

Um pouco?

É novamente sexta-feira. Será que verei novamente a garota do vestido preto naquele estranho restaurante? Pensei algumas vezes nela durante a semana. Obsessão? Não, apenas desejo. Senti-me realmente atraído pela misteriosa garota.

Acho que vejo nessa garota uma chance de recomeçar, de esquecer Flávia. Esquecer não, superar. Pois isso tem sido muito complicado. Tantos planos, tantas ambições, tanto afeto. Tudo pelo ralo, como a espuma do banho que estou tomando para “lavar” minha alma.

Sempre penso muito durante o banho.

Minha casa tornou-se grande sem ela. Minha solidão tornou-se grande sem ela. Minha vontade de prosseguir tornou-se pequena.

Maldita garota. Levou tudo o que eu tinha dentro de mim e, mesmo assim, não parei de pensar nela durante um único dia, mas só de imaginar uma chance de superar, mesmo que só um pouco toda essa fase depressiva em minha vida, eu me alegro, começo a sentir disposição para fazer certas atividades que antes estava negligenciando. Sem ela eu me tornei um monstro procrastinador.

Procrastinar.

Tudo isso precisa mudar. Não posso ficar preso dentro desse círculo vicioso infinito, preciso me libertar, encontrar a tão desejada saída.

Ouço a buzina do sedam preto de Dave, já estou pronto para mais uma noite.

- Hey, Dave. Tudo bem?
- Estou ótimo cara! E você? Parece estar melhor depois da última sexta. Isso é ótimo! Fico feliz em ver meu melhor amigo se recuperando! – Dave tinha estampado em seu rosto um sorriso que ia de uma orelha à outra. Realmente estava feliz por mim e isso me contagiou, me deu o ânimo que faltava para que aquela noite não fosse apenas mais uma.
- Então, o que está esperando? Vamos logo para o restaurante Dave! – eu fiquei animado.

No caminho para o restaurante eu me esqueci dos pesadelos que me atormentaram durante a semana, me esqueci da falta que Flávia estava me fazendo. Me libertei, mesmo que por alguns instantes apenas, pude sorrir e me sentir mais leve.

Enfim chegamos, naquele mesmo restaurante “conceitual”. Dave não consegue esconder o quanto gostou desse lugar.

Eu não entendo como chama esse lugar de restaurante, porque apesar de ter um cardápio com diversos pratos culinários de dar água na boca, as pessoas vêm aqui para beberem e se divertirem, comem algumas porções, dão risadas, vão embora. Melhor esquecer isso.  Vou beber e me divertir.

- Já encontrou sua musa? – pergunta Dave.
- Ainda não. Mas espero vê-la aqui esta noite. Quem sabe eu consiga pelo menos o telefone dela. – respondi de forma alegre e descontraída.
- Isso é ótimo, cara!
- Eu estar disposto a falar com ela? – perguntei com um pequeno ar de dúvida.
- Não! Eu te fiz uma pergunta e você não respondeu “hã”! Estou impressionado! Você finalmente está voltando a ser aquele cara que conheci a muito tempo atrás, disposto a tudo! – disse com um super sorriso na cara. Esse sorriso já estava se tornando parte fundamental de Dave.
- Eu não respondo sempre com “hã”...
- Responde sim! Estava sempre distraído, as pessoas estavam se afastando cada vez mais de você. Só restou-lhe a mim. – disse se gabando um pouco.

As palavras de Dave me colocaram em uma reflexão profunda sobre meus últimos meses. Percebi que não afetei apenas a mim mesmo quando me isolei, mas também afetei meus amigos. As pequenas discussões com Carol e Andressa quando queriam me ajudar e eu não aceitei. A briga que aconteceu com Jonatan quando eu descobri que ele havia se encontrado com Flávia e que depois acabei descobrindo que ele estava tentando convence-la a conversar comigo, pois o fim do relacionamento estava me matando. Desprezei meus amigos quando eles tentaram me ajudar. Agora só me restou Dave.

Tomara que eu consiga arrumar algumas coisas em minha vida.

- Dave, você ainda tem contato com Carol, Andressa, Jonatan?
- Às vezes encontro com eles. Estão bem.
- Algum deles perguntou de mim? – tentei buscar esperanças.
- Não. Acho que eles deixaram no passado àquilo que um dia os fez mal. – disse Dave, com o olhar baixo.
- Acho que entendo o lado deles. Eu fui um estúpido, não é mesmo?
- Todo mundo comete erros, alguns mais graves, outros que são fáceis de perdoar. Você não pode ficar se culpando, cara. Se estiver arrependido de alguma coisa que fez ou deixou de fazer, faça algo para mudar tudo isso. – Dave soou um pouco filosófico nesse instante.
- Você está certo! Não vai adiantar ficar a me lamentar. Obrigado, Dave, Por tudo.

Entre uma cerveja e outra eu olhava por toda a extensão do restaurante procurando pela garota, afinal, voltamos aqui por este motivo.

- Ainda não a encontrou?
- Não. Já olhei para todos os lados, diversas vezes. Nada.
- Tem certeza de que ela existe?
- Espero que sim! – respondi com um tom um tanto quanto cômico – Espero não estar atrás de um fantasma ou alucinação. Isso seria desastroso!
- Desastroso? Eu seria obrigado a te internar, cara! – disse rindo. Estávamos rindo de uma situação, algo que não acontecia há certo tempo. Seis meses. Não eram seis dias e, por sorte nossa, também não eram seis anos.

Nesse momento percebi como rir junto de algum amigo é uma das melhores sensações que podemos nos deparar em nossa vida.

Vejo-a entrando no restaurante, desta vez com um vestido vermelho, linda como da última vez, segurando elegantemente um cigarro com os dedos de sua mão direita, uma bolsa vermelha no braço esquerdo, meia calça preta e botas de couro que completam o visual poderoso e sedutor.

- O que está olhando? – Dave pergunta e olha para trás – Ela é a garota de quem falou?
- Sim, Dave. É ela! – respondi com um sorriso obcecado em meu rosto.
- Meus parabéns! Agora quero ver como vai conseguir o telefone dela. Ela parece tão...
- Especial. – disse interrompendo-o.
- Inatingível.
- Ninguém é inatingível, Dave. Ninguém.

Levantei-me, sem precisar tomar coragem para ir até ela, eu estava pronto, era aquilo que eu queria, que eu desejava. Minha única ambição naquele momento.

Eu relaxei, não fiquei tentando imaginar como seria a conversa, apenas esvaziei minha mente e me foquei nela. Meu coração estava acelerado, aquilo estava sendo emocionante para mim. A cada passo que dava, ficava mais perto de meu objetivo.

- Esse vestido fica ótimo em você. – disse ao sentar ao lado da linda moça numa cadeira a beira do balcão.
- Obrigada. Eu conheço você ou é mais alguém querendo sexo com uma linda mulher? – respondeu erguendo levemente suas sobrancelhas.
- Espero que não. Eu não me sentiria confortável ao descobrir que conhecia uma mulher tão bela como você e que não me lembrava disso e, a propósito, eu não sou tão canalha a ponto de vir falar com você apenas querendo sexo.
- Mas você quer sexo. – respondeu espontaneamente e acendeu outro cigarro.
- Eu sou homem. Faz parte da minha natureza e eu adoro essa parte. – me senti como Dave quando chegou com aquele lindo sedan preto à minha casa na sexta-feira anterior – Mas tenho certeza que você tem muito mais a me mostrar do que apenas sexo.
- Tenho sim. Quer saber qual a primeira coisa? – ela disse isso puxando minha gravata, demonstrando total intenção de me provocar.
- Qual o seu nome. – ela se surpreendeu com a forma que eu virei o jogo.
- Ana. E o seu? – ela ficou um pouco fria e eu mantive um sorriso no rosto, sem me abalar.
- Que tal descobrir?
- É um jogo de adivinhação, garanhão misterioso? – sua frieza diminui ao dizer essas palavras.
- Me passe seu telefone, posso te ligar amanhã, te convido pra sair e, quem sabe, você descubra meu nome. – me senti um jogador, vendo todo o processo de conquista como um jogo de xadrez.
- Tudo bem. – ela pegou uma caneta dentro de sua bolsa vermelha, pegou um guardanapo que estava em cima do balcão, anotou o número de seu telefone, beijou o guardanapo e entregou-o a mim – Ai está.
- E como vou saber que é realmente seu número?
- Deveria se preocupar em saber meu verdadeiro nome. – após dizer, levantou-se, começou a andar em direção a porta, olhou para trás, piscou um dos olhos e sorriu.

Olhei para o guardanapo, ali estava seu telefone e a marca de seu beijo. Sem nenhum nome. Para mim seu nome é Ana, mas será seu verdadeiro nome? A única identificação, de fato, no guardanapo era a estampa de seus inconfundíveis lábios.

Voltei até a mesa onde Dave me esperava com um grande sorriso no rosto.

- Cara, sou seu fã!
- Menos Dave. Só consegui o telefone.
- O telefone da mulher mais linda do mundo! – disse exaltado.
- E a mais misteriosa também! – falei rindo.
- Vai ligar pra ela amanhã?
- Só não ligo hoje para não parecer desesperado! – começamos a rir.
- Muito bem, meu amigo! Fico feliz em te ver assim!

Bebemos mais algumas cervejas para comemorar e depois fomos embora. Felizes, como a muito tempo não ficávamos.