sexta-feira, 19 de abril de 2013

5. Transição.


A vontade de pegar meu telefone e ligar imediatamente para Ana, desde o momento que acordei, é imensa. Acordei às sete e dezesseis da manhã neste sábado, algo que só ocorre quando tenho que ir trabalhar. Completamente inquieto, acho que não me sinto ansioso desse jeito já faz um bom tempo. Embora minha vontade fosse ligar imediatamente, resolvi esperar até o meio dia, para que não acabe ligando num horário muito inconveniente.

Não tiro meus olhos do maldito relógio que fica tiquetaqueando em minha parede. Ele parece me encarar de uma maneira estranha, sarcástica, fazendo o tempo passar da forma mais lenta possível apenas para aumentar minha ansiedade e me levar à loucura.

Começo alguns afazeres domésticos para que o tempo passe sem que eu perceba. Lavo a louça, coloco a roupa em minha máquina de lavar, passo pano pelo chão para dar um ar mais arejado a minha casa.

Olho novamente para o relógio.

Mordo uma maçã, ligo a televisão, começo a pensar porque eu havia de estar ansioso. Eu poderia dormir até as onze da manhã, sem problema algum para, só então, pensar em ligar para ela.

Entre um passatempo e outro olho para o relógio novamente, a tão esperada hora se aproxima. Pego meu smartphone e começo a discar o número. Aperto o botão para realizar a chamada pouco antes do ponteiro dos minutos chegar ao número doze.

Chama pela primeira vez.

Chama pela segunda vez.

- Alô?
- Ana? – pergunto já sorrindo.
- Seria um rapaz misterioso do outro lado da linha? – o tom de voz dela demonstra sua confiança.
- Se este rapaz misterioso disse que te ligaria para combinarem de sair e beber algo durante a noite, sim, sou eu. – disse com o tom de voz convencido que venho utilizando desde a primeira palavra que disse a ela.
- Nossa! Já sedutor a essa hora do dia? – disse ela em tom de gozação.
- Eu faço o que posso para conquistar uma bela garota como você, Ana.
- Mas nem sabe se meu nome é Ana.
- Pelo menos eu tenho um nome para te chamar.
- E se eu inventasse um para você?
- Tudo bem. Invente.
- Então, o que acha de Lucas? – ela faz uma pausa – Não! Melhor Ricardo! – ela ri muito.
- Não acho que algum desses nomes combine muito comigo.
- Não vai dizer seu nome de verdade, não é?
- E porque diria? Não acha divertido esse joguinho? – a ironia tomou conta de mim.
- Na verdade acho! Vou te chamar por um nome diferente a cada dia que nos encontrarmos. Toda vez que me ligar eu o chamarei por um nome e, esse nome, será utilizado por toda a noite. Depois escreverei um diário onde o título de cada encontro nosso será o nome que escolhi para o dia. Gostou? – disse ela com uma doçura incrível. Criamos nosso próprio joguinho. Sinto-me espantado com a naturalidade que fluem as coisas entre nós.
- Combinado, Ana! – meu tom de voz dessa vez foi amigável – e qual será o nome de hoje?

Combinamos de ir até um barzinho no centro da cidade, onde pessoas bebem chopp em torres enquanto escutam algum cantor local de MPB. Um ambiente bem agradável, ótimo para um encontro de sábado à noite. Marcamos de nos encontrar no próprio bar. Eu deveria chegar mais cedo, sentar-me, beber alguma coisa enquanto a esperava. Ela apareceria algum tempo depois, deslumbrante, e seguiria até o balcão. A partir daí eu teria que ir até ela e, por mais estranho que isso pareça, flertar com ela.

Claro que esse plano deu totalmente errado.

Eu tomei um banho morno, escolhi uma boa roupa, peguei meu celular, calcei meus sapatos, as chaves de casa, tranquei as portas e fui caminhando em direção ao bar.

Acho que não me esqueci de nada.

Meu carro está no conserto, é um velho modelo sedam  azul, muito espaçoso. Não é um carro caro e novo como o que Dave está usando, porém é um belo carro com traços marcantes de sua época.

A caminhada de minha casa até o bar onde encontrarei Ana é de mais ou menos quarenta minutos. Eu andava haviam uns quinze minutos quando me dei conta de que algo ficou para trás. Tentei me lembrar se havia fechado todas as janelas, se algo ficará esquecido para o lado de fora, mas tudo estava em ordem até onde conseguia me lembrar. Não cometi o erro de esquecer o piloto do fogão aberto.

Coloco as mãos nos bolsos de minha calça, de um tiro meu smartphone e de outro as chaves de minha casa e, por um instante, minha mente sofre uma epifania, fazendo-me lembrar o que havia esquecido.

Minha carteira com todo meu dinheiro e documentos ficou em cima da mesa, na sala de estar de minha casa.

Meia volta, começo a caminhar em passos longos. Chego a minha casa, destranco o cadeado do portão com pressa. Eu deveria estar chegando ao bar.

Recomeço minha caminhada, estressado, não esperava que algo assim fosse acontecer, não hoje, o dia em que iria encontrar-me com uma garota maravilhosa, além disso, a primeira que fico interessado depois de muito tempo.

Chego ao bar, olho para o balcão e lá está ela, com uma taça de Martíni em sua mão esquerda e um cigarro em sua outra mão. Ando em direção a ela e, mais ou menos quando estava no meio do caminho, um cara qualquer que estava no bar se aproxima para falar com ela, ela olha para ele e sorri, não viu que eu estava chegando, continua a conversar com aquele estranho, eu mantenho a velocidade do passo, tento me manter calmo, esqueço de tudo, aproximo-me deles.

- Obrigado por entreter minha namorada enquanto ela me esperava! Tem algo que posso fazer para te recompensar? – disse-lhe olhando bem no fundo dos olhos, com uma confiança eminente em minha voz.
- É... Não! Desculpe-me qualquer coisa! Até mais! – disse o rapaz, assustado, enquanto voltava para sua mesa com alguns amigos.

Virei-me para a direção de Ana, ela tinha um olhar que demonstrava certo espanto, com toda certeza não esperava que algo do gênero fosse acontecer, até que a surpreendi com um beijo, sem palavras, sem rodeios. Meus lábios apenas tocaram os dela de forma quase que espontânea. Aqueles lábios carnudos de sua linda boca eram macios, com uma textura única, arrancando-me um suspiro quase que sem querer, enquanto sua língua encontrava a minha por um pequeno momento de estase.

- Me desculpe a demora, Ana. Eu acabei tendo um prob... – ela me interrompeu com um beijo.
- Não importa. John. Vou considerar seu flerte como um pedido de desculpas! – disse num tom de voz doce, como se nada mais importasse.
- Tudo bem. – disse sorrindo – Onde nos sentaremos?

Escolhemos um lugar para sentarmos, trocávamos sorrisos, pedimos uma torre de chopp mesmo sem saber se aguentaríamos bebe-la em dois, mas isso não importava muito, o momento por si só já estava valendo, e muito, a pena.

- E então senhor John. Posso saber agora qual o motivo do seu atraso? – disse com a voz provocante.
- Achei que já havia me perdoado, senhorita Ana. – respondi com um leve sarcasmo carregado de humor.
- É apenas curiosidade. Coisa de mulher. – disse disfarçando.
- Meu carro está internado em uma oficina, até deve estar pronto, mas ainda não fui até lá para descobrir e, por conta disso, precisei vir andando até aqui.
- Isso não parece motivo para atraso. – questionou.
- É, na verdade me atrasei porque quando estava na metade do caminho descobri que havia esquecido minha carteira em casa.
- John! Isso é demais! Você já pensou na história que tem para contar para seus netos? – ela ria sem parar.
- Se eu contar ninguém acredita! – num tom bem humorado.
- Pois bem. – disse após respirar fundo tentando parar de rir – Pelo menos seu atraso foi algo positivo de certa forma. – eu segurava suas mãos sobre a mesa do barzinho, olhava bem no fundo de seus olhos, cada um de nós com um sorriso bobo na cara. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo.
- É, até porque eu nem sabia como flertar com você pela segunda vez!
- Mas acertou em cheio.

Nossos rostos aproximaram-se e mais uma vez, nessa noite, nos beijamos.

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