segunda-feira, 8 de abril de 2013

4. Paranoia.


O relógio tiquetaqueando dentro de minha cabeça, me levando a loucura. Vejo a traição em forma de amizade estampada na parede de meu quarto, posso vê-la pela janela. Tic, tac, tic, tac... Arranho meu rosto, me desespero e um grito sem som é a única maneira que consigo me expressar.

Foi apenas um pesadelo?

Foi.

Deixarei para lá, não gosto de levar meus sonhos e pesadelos muito a sério, isso só atrapalha o modo com que vejo a realidade. Mas sempre acabo me preocupando demais, numa constante busca por um problema que de fato nem existe. Esses sonhos me tornam um pouco paranoico.

Um pouco?

É novamente sexta-feira. Será que verei novamente a garota do vestido preto naquele estranho restaurante? Pensei algumas vezes nela durante a semana. Obsessão? Não, apenas desejo. Senti-me realmente atraído pela misteriosa garota.

Acho que vejo nessa garota uma chance de recomeçar, de esquecer Flávia. Esquecer não, superar. Pois isso tem sido muito complicado. Tantos planos, tantas ambições, tanto afeto. Tudo pelo ralo, como a espuma do banho que estou tomando para “lavar” minha alma.

Sempre penso muito durante o banho.

Minha casa tornou-se grande sem ela. Minha solidão tornou-se grande sem ela. Minha vontade de prosseguir tornou-se pequena.

Maldita garota. Levou tudo o que eu tinha dentro de mim e, mesmo assim, não parei de pensar nela durante um único dia, mas só de imaginar uma chance de superar, mesmo que só um pouco toda essa fase depressiva em minha vida, eu me alegro, começo a sentir disposição para fazer certas atividades que antes estava negligenciando. Sem ela eu me tornei um monstro procrastinador.

Procrastinar.

Tudo isso precisa mudar. Não posso ficar preso dentro desse círculo vicioso infinito, preciso me libertar, encontrar a tão desejada saída.

Ouço a buzina do sedam preto de Dave, já estou pronto para mais uma noite.

- Hey, Dave. Tudo bem?
- Estou ótimo cara! E você? Parece estar melhor depois da última sexta. Isso é ótimo! Fico feliz em ver meu melhor amigo se recuperando! – Dave tinha estampado em seu rosto um sorriso que ia de uma orelha à outra. Realmente estava feliz por mim e isso me contagiou, me deu o ânimo que faltava para que aquela noite não fosse apenas mais uma.
- Então, o que está esperando? Vamos logo para o restaurante Dave! – eu fiquei animado.

No caminho para o restaurante eu me esqueci dos pesadelos que me atormentaram durante a semana, me esqueci da falta que Flávia estava me fazendo. Me libertei, mesmo que por alguns instantes apenas, pude sorrir e me sentir mais leve.

Enfim chegamos, naquele mesmo restaurante “conceitual”. Dave não consegue esconder o quanto gostou desse lugar.

Eu não entendo como chama esse lugar de restaurante, porque apesar de ter um cardápio com diversos pratos culinários de dar água na boca, as pessoas vêm aqui para beberem e se divertirem, comem algumas porções, dão risadas, vão embora. Melhor esquecer isso.  Vou beber e me divertir.

- Já encontrou sua musa? – pergunta Dave.
- Ainda não. Mas espero vê-la aqui esta noite. Quem sabe eu consiga pelo menos o telefone dela. – respondi de forma alegre e descontraída.
- Isso é ótimo, cara!
- Eu estar disposto a falar com ela? – perguntei com um pequeno ar de dúvida.
- Não! Eu te fiz uma pergunta e você não respondeu “hã”! Estou impressionado! Você finalmente está voltando a ser aquele cara que conheci a muito tempo atrás, disposto a tudo! – disse com um super sorriso na cara. Esse sorriso já estava se tornando parte fundamental de Dave.
- Eu não respondo sempre com “hã”...
- Responde sim! Estava sempre distraído, as pessoas estavam se afastando cada vez mais de você. Só restou-lhe a mim. – disse se gabando um pouco.

As palavras de Dave me colocaram em uma reflexão profunda sobre meus últimos meses. Percebi que não afetei apenas a mim mesmo quando me isolei, mas também afetei meus amigos. As pequenas discussões com Carol e Andressa quando queriam me ajudar e eu não aceitei. A briga que aconteceu com Jonatan quando eu descobri que ele havia se encontrado com Flávia e que depois acabei descobrindo que ele estava tentando convence-la a conversar comigo, pois o fim do relacionamento estava me matando. Desprezei meus amigos quando eles tentaram me ajudar. Agora só me restou Dave.

Tomara que eu consiga arrumar algumas coisas em minha vida.

- Dave, você ainda tem contato com Carol, Andressa, Jonatan?
- Às vezes encontro com eles. Estão bem.
- Algum deles perguntou de mim? – tentei buscar esperanças.
- Não. Acho que eles deixaram no passado àquilo que um dia os fez mal. – disse Dave, com o olhar baixo.
- Acho que entendo o lado deles. Eu fui um estúpido, não é mesmo?
- Todo mundo comete erros, alguns mais graves, outros que são fáceis de perdoar. Você não pode ficar se culpando, cara. Se estiver arrependido de alguma coisa que fez ou deixou de fazer, faça algo para mudar tudo isso. – Dave soou um pouco filosófico nesse instante.
- Você está certo! Não vai adiantar ficar a me lamentar. Obrigado, Dave, Por tudo.

Entre uma cerveja e outra eu olhava por toda a extensão do restaurante procurando pela garota, afinal, voltamos aqui por este motivo.

- Ainda não a encontrou?
- Não. Já olhei para todos os lados, diversas vezes. Nada.
- Tem certeza de que ela existe?
- Espero que sim! – respondi com um tom um tanto quanto cômico – Espero não estar atrás de um fantasma ou alucinação. Isso seria desastroso!
- Desastroso? Eu seria obrigado a te internar, cara! – disse rindo. Estávamos rindo de uma situação, algo que não acontecia há certo tempo. Seis meses. Não eram seis dias e, por sorte nossa, também não eram seis anos.

Nesse momento percebi como rir junto de algum amigo é uma das melhores sensações que podemos nos deparar em nossa vida.

Vejo-a entrando no restaurante, desta vez com um vestido vermelho, linda como da última vez, segurando elegantemente um cigarro com os dedos de sua mão direita, uma bolsa vermelha no braço esquerdo, meia calça preta e botas de couro que completam o visual poderoso e sedutor.

- O que está olhando? – Dave pergunta e olha para trás – Ela é a garota de quem falou?
- Sim, Dave. É ela! – respondi com um sorriso obcecado em meu rosto.
- Meus parabéns! Agora quero ver como vai conseguir o telefone dela. Ela parece tão...
- Especial. – disse interrompendo-o.
- Inatingível.
- Ninguém é inatingível, Dave. Ninguém.

Levantei-me, sem precisar tomar coragem para ir até ela, eu estava pronto, era aquilo que eu queria, que eu desejava. Minha única ambição naquele momento.

Eu relaxei, não fiquei tentando imaginar como seria a conversa, apenas esvaziei minha mente e me foquei nela. Meu coração estava acelerado, aquilo estava sendo emocionante para mim. A cada passo que dava, ficava mais perto de meu objetivo.

- Esse vestido fica ótimo em você. – disse ao sentar ao lado da linda moça numa cadeira a beira do balcão.
- Obrigada. Eu conheço você ou é mais alguém querendo sexo com uma linda mulher? – respondeu erguendo levemente suas sobrancelhas.
- Espero que não. Eu não me sentiria confortável ao descobrir que conhecia uma mulher tão bela como você e que não me lembrava disso e, a propósito, eu não sou tão canalha a ponto de vir falar com você apenas querendo sexo.
- Mas você quer sexo. – respondeu espontaneamente e acendeu outro cigarro.
- Eu sou homem. Faz parte da minha natureza e eu adoro essa parte. – me senti como Dave quando chegou com aquele lindo sedan preto à minha casa na sexta-feira anterior – Mas tenho certeza que você tem muito mais a me mostrar do que apenas sexo.
- Tenho sim. Quer saber qual a primeira coisa? – ela disse isso puxando minha gravata, demonstrando total intenção de me provocar.
- Qual o seu nome. – ela se surpreendeu com a forma que eu virei o jogo.
- Ana. E o seu? – ela ficou um pouco fria e eu mantive um sorriso no rosto, sem me abalar.
- Que tal descobrir?
- É um jogo de adivinhação, garanhão misterioso? – sua frieza diminui ao dizer essas palavras.
- Me passe seu telefone, posso te ligar amanhã, te convido pra sair e, quem sabe, você descubra meu nome. – me senti um jogador, vendo todo o processo de conquista como um jogo de xadrez.
- Tudo bem. – ela pegou uma caneta dentro de sua bolsa vermelha, pegou um guardanapo que estava em cima do balcão, anotou o número de seu telefone, beijou o guardanapo e entregou-o a mim – Ai está.
- E como vou saber que é realmente seu número?
- Deveria se preocupar em saber meu verdadeiro nome. – após dizer, levantou-se, começou a andar em direção a porta, olhou para trás, piscou um dos olhos e sorriu.

Olhei para o guardanapo, ali estava seu telefone e a marca de seu beijo. Sem nenhum nome. Para mim seu nome é Ana, mas será seu verdadeiro nome? A única identificação, de fato, no guardanapo era a estampa de seus inconfundíveis lábios.

Voltei até a mesa onde Dave me esperava com um grande sorriso no rosto.

- Cara, sou seu fã!
- Menos Dave. Só consegui o telefone.
- O telefone da mulher mais linda do mundo! – disse exaltado.
- E a mais misteriosa também! – falei rindo.
- Vai ligar pra ela amanhã?
- Só não ligo hoje para não parecer desesperado! – começamos a rir.
- Muito bem, meu amigo! Fico feliz em te ver assim!

Bebemos mais algumas cervejas para comemorar e depois fomos embora. Felizes, como a muito tempo não ficávamos.

Um comentário:

  1. Cara você escreve muito bem e deixa o leitor com um gostinho de quero mais, ai sim cara espero ansioso o próximo capítulo.

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