terça-feira, 19 de março de 2013

3. Atenção, por favor.

Deitado em minha cama, abro os olhos de repente, arregalo-os tanto que sinto que quase saltaram para fora de minha cabeça. Hoje é um novo dia ou apenas mais um dia? Minha pergunta cliché de todos os dias.

Cliché, mas eu nunca fui capaz de respondê-la, por mais simples que pareça.

Abro a cortina de meu quarto, é um dia maravilhoso, me sinto bem disposto, diferente do dia anterior, onde tive que sair no meio da noite para acalmar meus pensamentos. Espero que a beleza desse céu azul maravilhoso se reflita em meu humor e assim eu possa ter um verdadeiro "bom dia", assim como as pessoas que me veem me desejam com um sorriso dissimulado.

Até as pessoas mais sinceras mentem ao dizer bom dia.

Pego algumas bolachas, como uma por uma, meu desjejum, ainda são 7 e meia da manhã, hoje não irei trabalhar, estou de férias. Acho que esse já é um motivo para ter um bom dia.

O dia está tão lindo lá fora e eu insisto em sentar a frente de meu computador, checar minhas redes sociais e e-mails, ler algumas notícias de coisas que ocorreram ao redor do mundo que não vão alterar em nada o meu dia. É uma completa perda de tempo que eu insisto em manter dentro de minha rotina.

Pense nas várias coisas que poderíamos fazer com o tempo que gastamos na frente desta máquina maldita, que mesmo sendo um ótimo instrumento de comunicação, nos torna viciados em algo que nem nos dá tanto prazer assim. Eu me sinto um lixo pensando assim. Eu sei o que é certo, mas pareço gostar de errar por prazer. Um pseudo masoquismo do ego, ferindo meu orgulho e meu intelecto.

O que me consola é que já estamos na sexta-feira. Hoje é o dia em que eu e Dave saímos pra algum barzinho, tomar umas cervejas e relaxar, tirar o estres de nossas costas e, quem sabe, conseguir alguma garota para finalizar a noite.

Olho para o relógio de meia em meia hora, estou inquieto, esperando que o tempo passe rápido para que eu possa sair a noite e tentar me divertir.

Começo a arrumar minha casa, preciso me ocupar, assistir televisão ou ficar no computador não seria uma alternativa muito boa, eu ficaria entediado e isso desanimaria minha noite, então, arrumo minha casa para passar o tempo e, por consequência, já elimino a necessidade de tê-lo de arrumar um outro dia.

Enquanto mudo certas coisas de lugar, limpo móveis, limpo o chão, recolho roupas sujas pela casa e almofadas caídas no chão, tudo isso com uma expressão em minha cara que demonstra todo meu mau humor, uma antipatia ligada a minha atenção. Quanto mais eu presto atenção em algo, mais propenso sou a odiá-lo.

Eu amo odiar, sou uma máquina de odiar, mas quero encontrar alguém que destrua essas objeções e me ensine a amar.

Um pequeno momento de raiva ao varrer a casa, tão normal quanto o assovio de uma chaleira com água fervendo.

Me sinto um adolescente revoltado pensando assim. Reclamando da vida que escolhi levar, pelo simples prazer de reclamar.

Terminei de limpar minha casa, parece até mais confortável assim. Deve ser mesmo. Tudo em ordem, bem diferente do pesadelo que antes parecia. Eu deveria fazer isso mais vezes e também deveria me julgar menos ocupado, dar valor as tarefas que visam meu conforto. Deveria.

Vou tomar um banho, daqui a pouco já será a hora de ir encontrar Dave e beber algumas garrafas.

Banho, o lugar onde tudo se pode, onde ninguém verá o que está fazendo, a não ser que esteja em um banheiro coletivo como o de um clube de futebol ou uma prisão. Eu particularmente uso a hora do banho para pensar sobre o que fiz no meu dia, sobre o que eu espero do próximo dia. É um dos poucos momentos em que eu penso em algo sem reclamar do mesmo. Um momento de libertação, como se a água morna e a espuma lavassem minha alma e tudo o que há de ruim em mim fosse pelo ralo. Só uma ideia.

Meu mundinho egoísta recheado de ideias.

Escuto o som da buzina de um carro, olho pela janela e vejo um sedam preto, abaixa o vidro da frente, é Dave.

- Hey Dave! Não esperava que passasse aqui, ainda mais com um belo carro como esse. - digo demonstrando estar impressionado.
- Ah, hoje é dia de comemoração meu amigo! Não sou mais um desses reles empregados, agora sou gerente! - fala animado, mas com um certo tom arrogante, provando para si mesmo que nasceu para vencer.
- Nossa, isso é incrível! Mas e esse carro, é seu?
- Não, não. É da empresa. Fica a minha disposição. Toda a manutenção paga pela empresa! Pneus, gasolina, reparos mecânicos e elétricos. - ele realmente se tornou superior de acordo com seu conceito.
- Isso é ótimo! Então vamos comemorar!

Pego minha carteira e meu smartphone, entro no belíssimo sedam preto e seguimos a procurar um belo lugar para dar início a essa noite de comemoração.

As luzes da cidade me hipnotizam junto do ronco silencioso, quase imperceptível, do motor do sedan preto. O banco confortável parece ter sido desenhado para mim, estou me tornando parte do carro enquanto viajo em pensamentos sobre o que ocorreu na noite anterior. Preciso prestar mais atenção no que aocntece a minha volta. Me sinto negligente.

- Está apaixonado?
- O que? - respondi assustado, sem saber do que Dave estava falando.
- Eu perguntei se você está apaixonado! - disse rindo - Você ficou olhando quieto pela janela por uns cinco minutos, quase imóvel! Deve estar apaixonado! - continuou rindo.
- Não. Não estou. - respondi com um tom de voz levemente humorado seguido de um pequeno riso.
- Então o que é?
- Como assim, o que é?
- Se não está apaixonado, em quem ou em o que está pensando?
- Na verdade nem eu mesmo sei. Talvez eu não pense em nada. Deve ser só uma dessas distrações que tenho às vezes.
- Distrações? Tem se envolvido com prostitutas é? - Dave franziu o cenho.
- Não! Está louco Dave? Acho que eu jamais seria capaz de pagar por sexo! Soa absurdo para mim! - demonstrei certo espanto.
- Vizinha?
- Não!
- Empregada?
- Não!
- Prima?
- Dave! Pode parar com isso? Não tem mulher envolvida na minha vida! Você sabe que eu tenho levado uma vida solitária. Eu tenho me contentado com meus momentos de paz enquanto escrevo ou tento tocar algum acorde no meu violão. Desde que a Flávia me deixou tem sido assim e eu não quero mudar. - disse eu com um tom de voz que o fez entender que aquela conversa me irritou.
- Tudo bem, cara. Mas eu já te disse que você precisa encontrar alguém ou, pelo menos, pegar algumas garotas por ai para não ficar preso ao passado. Pense nisso, ok?
- Vou pensar, Dave. Vou pensar.

Um minuto de silêncio, o carro em movimento, Dave liga o rádio que começa a tocar seu CD do Three Days Grace. Aquelas músicas que eu tanto adoro, mas por algum motivo não escuto faz muito tempo. Acho que uns 6 meses. É claro, 6 meses! Exatamente o tempo que faz que Flávia me deixou. As letras dessas músicas me fazem lembrar dos momentos incríveis com ela.

Passado.

- Chegamos!
- Que lugar é esse?
- Um bordel!
- Está brincando comigo, Dave?
- Estou! - começa a rir exageradamente - É apenas um restaurante! Relaxe! Eu não aprontaria isso com você. - disse de um modo que me passou confiança, afinal, eu confio no meu melhor amigo.

O restaurante tinha um estilo interessante, algumas luzes de neon azul espalhadas pelos beirais, garçonetes belíssimas a nos atender, vestindo apenas uma mini saia e um top que valorizava seus seios fartos. Eu já estava começando a desconfiar que aquele lugar não era um restaurante e sim um bordel mesmo, a não ser pelo fato de não ter mulher no cardápio.

- Tem certeza que aqui é um restaurante? - levantei minha dúvida novamente.
- Absoluta. É um restaurante conceitual. Não sei qual o conceito, mas eu gostei.
- Você não vale nada mesmo, Dave!

Entre um copo de chopp e outro, várias risadas e, principalmente, a descontração que eu precisava, meu corpo e minha mente se tornaram mais leves. Talvez fosse o álcool em meu organismo.

Comecei a olhar para o balcão, uma garota de cabelos longos e negros, grandes olhos castanhos, um cigarro aceso na mão direita e uma taça em sua outra mão. Vestia um vestido preto com um certo brilho hipnotizador, contrastando com sua pele branca. Sensual a cada gesto. Desde as tragadas em seu cigarro de filtro vermelho até os menores lances com seu cabelo que mais parecia ter sido preparado para um comercial de algum produto cosmético capilar.

Estou extasiado!

Eu não parei de olhar para ela. Ela sequer deu algum sinal de que olharia para o meu lado. Com certeza é muito para mim.

Estou chegando às nuvens e estou a ponto de flu...

- Acorda, cara! - gritou Dave, fazendo um zumbido ecoar em minha mente, como se o restaurante inteiro tivesse olhado para mim - Atenção! Por favor! Em que diabos de lugar você estava com sua mente doentia, meu amigo?
- Eu só me distraí... Me distraí olhando uma garota.
- Uma garota? - perguntou esboçando um sorriso - Cara, isso é ótimo! - Já não era mais um esboço, já era um sorriso - Quem é a musa inspiradora de seus pensamentos?
- Aquela... - ela sumiu do balcão - Ela estava bem ali, sentada de frente para o balcão, Dave. Vestido preto... Esquece, ela deve ter ido embora.
- Hey, relaxe cara. Podemos voltar aqui mais vezes, quem sabe não a vê novamente e, sem hesitar, vai e fala com sua musa misteriosa?
- É uma ótima ideia. Mas agora vamos embora, tenho muitas coisas para fazer pela manhã, Dave.
- Lavar a louça, é?
- Sim. - disse com um tom um pouco sarcástico.
- Ok. Vamos.

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