Não importa se você mora em Nova Iorque , Los
Angeles, São Paulo, Curitiba ou no inferno de cidade pequena onde eu moro, ao
sair à noite a principal coisa que você tem para fazer é sentir medo. A noite
cheira a perigo, e esse cheiro te torna mais inquieto ainda.
Eu quero buscar diversão ou
pelo menos um passatempo para esta noite insone. Eu quero tomar uma bebida pra
aquecer, pra esquecer, adormecer.
Já estou a uns três ou quatro
quarteirões de casa, meu cérebro parece funcionar como o motor de um caça F-22,
quebrando a velocidade do som e causando um estrondo dentro de mim, me
perturbando, como se fosse me jogar ao chão e me arrastar no asfalto até que eu
ficasse em carne viva, mas não, eu continuo em pé, caminhando, pálido.
Não é de hoje que eu deixei
de me sentir bem, não deve ser a toa também. Já faz algum tempo que eu venho
perdendo o sono, mas eu nunca havia pensado em sair e procurar algo para me
distrair que não fosse fazer algo para comer e assistir televisão. Quem sabe
saindo da rotina eu possa quebrar esse ciclo.
Já são quase 20 minutos
caminhando, acho que estou vendo um bar. Tem muita neblina nessa cidade durante
a noite, ou será que é apenas nesta noite em especial? Tanto faz, avistei um
bar e irei até ele tomar uma dose de conhaque e quem sabe depois uma cerveja.
Ao entrar no bar, vejo um
grande balcão, uma velha mulher atrás, dele atendendo alguns senhores que ali
estão, alguns já embriagados, conversando sobre futebol e música sertaneja. Alguns
tentavam falar sobre mulheres, mas duvido que algum deles consiga ter alguma
relação além de suas esposas e garotas de programa. É pura autodestruição
dentro de um pequeno bar.
O chão do bar era sujo, comecei
a imaginar como deveria ser o banheiro, assim já decidi que apenas tomaria
alguma bebida e em seguida sairia à procura de algum outro lugar para passar o
tempo. Comer nesse bar, nem pensar. Só de olhar alguns senhores comendo suas
coxinhas e risólis, com rostos sorridentes, como se aqueles fossem os melhores
salgados que já tivessem comido, eu já me sentia assustado e meu fígado se
aproximava de minha garganta.
Era um lugar horrível.
- O que vai querer senhor? -
perguntou a velha do bar com uma cara de insatisfação.
- Eu quero uma dose de
conhaque, por favor.
Ela me mediu com os olhos de
cima em baixo, parecia que me analisava para saber o quanto eu ganhava por mês,
no que eu trabalhava, se eu estudava ou algo do tipo, se tinha namorada, casa,
carro. Por que as pessoas têm que nos analisar desse jeito?
Distraio-me por um instante
com um sujeito brigando do lado de fora do bar com uma mulher trajando roupas
vulgares, com certeza é uma prostituta, e no mínimo ele não quer pagá-la. Hoje
em dia isso é cada vez mais comum. Infelizmente. Ou estou julgando demais, também?
Olho para o balcão e meu copo
com conhaque está bem na minha frente. Bebo em um único gole. Minha expressão
não nega que não sou acostumado a tomar algo forte, meus olhos pareceram dar um
giro de 360º em seu próprio eixo. Beberei uma cerveja para relaxar.
- A senhora pode me trazer
uma cerveja? - digo, chamando a velha do bar.
- De qual o senhor vai
querer?
- Qualquer uma, desde que
esteja bem gelada.
Nesta hora, com toda a
certeza do mundo, ela pegou sua cerveja mais cara da geladeira, colocou em meu
balcão junto de um copo americano e deu as costas novamente.
O bar é horrível, mas pelo
menos a cerveja é gelada. Espero que os copos estejam realmente limpos.
- O que um garoto como você
faz num lugar desses?
- O quê? - viro para o lado
assustado procurando quem falou comigo.
Vejo um homem de mais ou
menos 50 anos, barbudo e um pouco gordo, com um sorriso estranho na cara, não
consegui identificar exatamente o que sua expressão queria dizer.
- Um rapaz jovem como você,
bem apessoado, o que faz num muquifo desses? - pergunta o velho barbudo.
- Ah, sim... - relaxo minha
expressão para demonstrar que estou à vontade com a situação - Eu perdi o sono
e resolvi sair beber alguma coisa, pra relaxar meus pensamentos. - disse-lhe,
explicando meus motivos.
- Hum, interessante.
Relaxar os pensamentos. E está funcionando?
- É, acho que sim. Estou me
sentindo menos inquieto.
- Menos inquieto? Então tem
algo que o incomoda ainda! - disse ele, terminando com uma curta risada.
- Sim, tenho pensado demais
ultimamente. Espero que bebendo essa cerveja eu consiga acalmar meu cérebro.
- Acho que você precisa por
algumas ideias para fora meu jovem. Guardá-las dentro de si só vai fazer com
que você pense cada vez mais. Daqui certo tempo não vai mais ter espaço para
guardar tudo isso em sua cabeça. - disse o velho barbudo, com uma expressão
séria, em seguida dando às costas e indo em direção a porta do bar.
- Hey, qual o seu nome? -
perguntei enquanto ele caminhava em direção a saída, mas ele saiu do bar sem me
responder.
Levantei-me e corri em
direção a porta, sai do bar e olhei para ambos os lados e não avistei o velho
barbudo. Ou ele entrou em algum carro, ou sumiu como mágica.
Voltei para dentro do bar,
bebi minha cerveja, paguei a conta e voltei para casa.
Escrever pode ser uma ótima forma de expressar sentimentos e razões. Uma introspecção é ato de reconhecimento próprio, melhora nossa postura, desturva nossa visão, nos reanima e, principalmente, nos mostra o que realmente gostaríamos de realizar em nossas vidas.
ResponderExcluirMuitos acabam descobrindo que gostam mesmo é de continuar escrevendo... Nós gostamos de ler.
Parabéns, CARA!!!