quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

2.


Não importa se você mora em Nova Iorque, Los Angeles, São Paulo, Curitiba ou no inferno de cidade pequena onde eu moro, ao sair à noite a principal coisa que você tem para fazer é sentir medo. A noite cheira a perigo, e esse cheiro te torna mais inquieto ainda.

Eu quero buscar diversão ou pelo menos um passatempo para esta noite insone. Eu quero tomar uma bebida pra aquecer, pra esquecer, adormecer.

Já estou a uns três ou quatro quarteirões de casa, meu cérebro parece funcionar como o motor de um caça F-22, quebrando a velocidade do som e causando um estrondo dentro de mim, me perturbando, como se fosse me jogar ao chão e me arrastar no asfalto até que eu ficasse em carne viva, mas não, eu continuo em pé, caminhando, pálido.

Não é de hoje que eu deixei de me sentir bem, não deve ser a toa também. Já faz algum tempo que eu venho perdendo o sono, mas eu nunca havia pensado em sair e procurar algo para me distrair que não fosse fazer algo para comer e assistir televisão. Quem sabe saindo da rotina eu possa quebrar esse ciclo.

Já são quase 20 minutos caminhando, acho que estou vendo um bar. Tem muita neblina nessa cidade durante a noite, ou será que é apenas nesta noite em especial? Tanto faz, avistei um bar e irei até ele tomar uma dose de conhaque e quem sabe depois uma cerveja.

Ao entrar no bar, vejo um grande balcão, uma velha mulher atrás, dele atendendo alguns senhores que ali estão, alguns já embriagados, conversando sobre futebol e música sertaneja. Alguns tentavam falar sobre mulheres, mas duvido que algum deles consiga ter alguma relação além de suas esposas e garotas de programa. É pura autodestruição dentro de um pequeno bar.

O chão do bar era sujo, comecei a imaginar como deveria ser o banheiro, assim já decidi que apenas tomaria alguma bebida e em seguida sairia à procura de algum outro lugar para passar o tempo. Comer nesse bar, nem pensar. Só de olhar alguns senhores comendo suas coxinhas e risólis, com rostos sorridentes, como se aqueles fossem os melhores salgados que já tivessem comido, eu já me sentia assustado e meu fígado se aproximava de minha garganta.

Era um lugar horrível.

- O que vai querer senhor? - perguntou a velha do bar com uma cara de insatisfação.
- Eu quero uma dose de conhaque, por favor.

Ela me mediu com os olhos de cima em baixo, parecia que me analisava para saber o quanto eu ganhava por mês, no que eu trabalhava, se eu estudava ou algo do tipo, se tinha namorada, casa, carro. Por que as pessoas têm que nos analisar desse jeito?

Distraio-me por um instante com um sujeito brigando do lado de fora do bar com uma mulher trajando roupas vulgares, com certeza é uma prostituta, e no mínimo ele não quer pagá-la. Hoje em dia isso é cada vez mais comum. Infelizmente. Ou estou julgando demais, também?

Olho para o balcão e meu copo com conhaque está bem na minha frente. Bebo em um único gole. Minha expressão não nega que não sou acostumado a tomar algo forte, meus olhos pareceram dar um giro de 360º em seu próprio eixo. Beberei uma cerveja para relaxar.

- A senhora pode me trazer uma cerveja? - digo, chamando a velha do bar.
- De qual o senhor vai querer?
- Qualquer uma, desde que esteja bem gelada.

Nesta hora, com toda a certeza do mundo, ela pegou sua cerveja mais cara da geladeira, colocou em meu balcão junto de um copo americano e deu as costas novamente.

O bar é horrível, mas pelo menos a cerveja é gelada. Espero que os copos estejam realmente limpos.

- O que um garoto como você faz num lugar desses?
- O quê? - viro para o lado assustado procurando quem falou comigo.

Vejo um homem de mais ou menos 50 anos, barbudo e um pouco gordo, com um sorriso estranho na cara, não consegui identificar exatamente o que sua expressão queria dizer.

- Um rapaz jovem como você, bem apessoado, o que faz num muquifo desses? - pergunta o velho barbudo.
- Ah, sim... - relaxo minha expressão para demonstrar que estou à vontade com a situação - Eu perdi o sono e resolvi sair beber alguma coisa, pra relaxar meus pensamentos. - disse-lhe, explicando meus motivos.
- Hum, interessante. Relaxar os pensamentos. E está funcionando?
- É, acho que sim. Estou me sentindo menos inquieto.
- Menos inquieto? Então tem algo que o incomoda ainda! - disse ele, terminando com uma curta risada.
- Sim, tenho pensado demais ultimamente. Espero que bebendo essa cerveja eu consiga acalmar meu cérebro.
- Acho que você precisa por algumas ideias para fora meu jovem. Guardá-las dentro de si só vai fazer com que você pense cada vez mais. Daqui certo tempo não vai mais ter espaço para guardar tudo isso em sua cabeça. - disse o velho barbudo, com uma expressão séria, em seguida dando às costas e indo em direção a porta do bar.
- Hey, qual o seu nome? - perguntei enquanto ele caminhava em direção a saída, mas ele saiu do bar sem me responder.

Levantei-me e corri em direção a porta, sai do bar e olhei para ambos os lados e não avistei o velho barbudo. Ou ele entrou em algum carro, ou sumiu como mágica.

Voltei para dentro do bar, bebi minha cerveja, paguei a conta e voltei para casa.

Um comentário:

  1. Escrever pode ser uma ótima forma de expressar sentimentos e razões. Uma introspecção é ato de reconhecimento próprio, melhora nossa postura, desturva nossa visão, nos reanima e, principalmente, nos mostra o que realmente gostaríamos de realizar em nossas vidas.
    Muitos acabam descobrindo que gostam mesmo é de continuar escrevendo... Nós gostamos de ler.
    Parabéns, CARA!!!

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