sexta-feira, 13 de maio de 2016

27. Kharma.

Conhece a sensação de sempre voltar ao mesmo lugar? Por mais que se esforce, por mais que pense, articule, sempre volta para a mesma merda de lugar, passando pelas mesmas merdas, toda a vez, cometendo os mesmos erros, toda a vez, sofrendo das mesmas dores... Não.

Eu não aceito essa repetição.

Flávia fica me olhando entre um telefonema e outro, e Armando... Ahh... Armando passou suas últimas horas polindo pistolas, revólveres. Fico imaginando se ele não tem algumas armas maiores guardadas, algo que possa fazer nossa aventura ficar mais parecida com uma missão de GTA. E por que ele tem que polir tanto essas armas? Quer assustar nossos inimigos com o brilho do cano de um revólver calibre 38?

- Caio. - olhei para Flávia, acordando de meu transe. - Você acha que está suficientemente bem?
- Depende o que você considera suficiente... - sério que ela já quer que eu faça coisas? Ela me envenenou...
- Consegue dirigir um pouco, ao menos? Sem dormir ao volante...
- Eu não vou dirigir este carro de merda. - e não haverá como me convencer.
- O quê? - ela ficou brava. - Sério que me disse isso? - furiosa.
- Sabe que eu não dirijo essas coisas novas. - tudo bem, confesso que sou teimoso.
- Caio... - ela respirou muito fundo. - Olha pra mim, me diga que é brincadeira. - lutadores não se encaram assim. - Me diga que você não fará eu perder minha paciência. - não sei como ela conseguiu controlar o tom de voz dela. Da última vez que brigamos ela havia gritado tanto que meus vizinhos chamaram a polícia. Embora isso tenha sido há 3 anos.
- Flávia. Pois bem. Preste atenção, pois só direi mais uma vez... - ela me cortou.
- O que dizia?
- Você é maluca mesmo! Doente mental do caralho! - cortou literalmente. Ela é doente... - Você é uma filho da puta sem tamanho! Armando! Pega uma camisa de força pra essa retardada!! - ela passou a porra da faca no meu braço.
- Cala a boca. - disse Armando. - Você parece uma criança. Nada me lembra o cara que estourou os miolos daquele velho...

Me recordo bem... O velho dos olhos faltando. Que bela merda... Queria que meu primeiro assassinato fosse olhando nos olhos da vítima, mas que olhos?

E eu rodopiei antes de atingir o chão.

- Levante-se. - como pode ela ter coragem de me mandar levantar após ter me cortado com uma faca e depois ter me golpeado desprevenido?
- Flávia, sério, se for pra me matar, avise. - eu nem sei se falo sério oi não. Está tudo uma loucura tão grande...
- Levante-se! - Armando ficou impaciente... Trouxa.
- Vocês dois... Vocês realmente estão querendo me ajudar?
- Se eu quisesse te matar já o teria feito. - Armando, curto e grosso.
- Você sim, mas é dela que tenho medo. - olhei para Flávia e ela pareceu ficar com os olhos transbordando.
- Medo? De mim? - caralho, essa carinha dela está mexendo comigo, lá no fundo.
- Flávia... - droga... como concertar isso? - Você me envenenou...
- E destruí seu coração, te deixei desamparado, você se tornou um assassino pago e agora seu ex patrão quer sua cabeça. - ela está se segurando para não chorar.
- E eu nem sei o porquê dele querer minha cabeça. Pouco ela vale.
- Errado. - Armando me deu calafrios agora. - Sua cabeça é tão valiosa que você não entenderia.
- O quê? - muitos plot twist para minha cabeça de ouro.
- Você não foi escolhido a toa, Caio. Amadeu sabia seu verdadeiro nome, sabia de seu trabalho, sabia da garota com quem estava saindo... - ela hesitou.
- O que... - hesitei.
- Amadeu te segue de perto há 5 anos. - a voz dela nunca me arrepiou tanto.
- Flávia...
- Escuta. - ela ficou muito séria - Precisamos sair daqui.
- Foda-se! - inflexível.
- Segure sua língua, rapaz. - Armando acha que me intimida?
- Segure você. - olhei para ele. Eu tenho muitas vidas ainda, babaca. - Quem apareceu cheio de sangue na minha casa foi você. Quem me ameaçou quando comecei a trabalhar para Amadeu foi você. ENTÃO CALA A PORRA DESSA TUA MALDITA BOCA ANTES QUE EU ARRANQUE TODOS OS DENTES DELA!
- Caio! - ela pousou suas mãos sobre meu ombro.
- E VOCÊ! - sintam a fúria - Você...
- Caio... - ela não aguentou segurar o choro por mais tempo.
- Você chora... - inflexível. - Chora como se fosse inocente... 5 anos? 5 anos trabalhando para Amadeu... - e... - VOCÊ SIMPLESMENTE COMEÇOU A ME NAMORAR POUCO DEPOIS DE COMEÇAR A TRABALHAR COM AQUELE CARA? - exaltei-me, e... - Eu deveria te matar agora...
- Caio... - ela tentou encontrar palavras boas. - Eu juro que te amei de verdade...
- Amou? - cortei sua fala. - Você deve mesmo ter amado... Ganhando para pagar de namoradinha do carinha que edita os comerciais... - como eu queria explodir, literalmente, agora. - Ele te pagava bem? Ele te comia bem?
- Caio, cala a boca... - agora ela está ficando furiosa. - Não esqueça que sua vida está em nossas mãos.
- Eu posso me cuidar sozinho. - inflexível.
- Pode? - Armando. Ele ama me desafiar.
- Posso.
- E por que é o único sem armas na mão? - filha de uma puta.

No final das contas, para alguém em minha atual situação, dirigir esse carro moderninho nem é tão ruim. Embora eu esteja contrariado, tenha sido ameaçado após bancar o fodão e ter me fudido gloriosamente, só não entendo ainda o porquê.

- Flávia? - meu tom de voz é de remorso. Que merda.
- Fala. - seca.
- É tarde para desculpas...
- Fala. - sequíssima.
- Por quê? - me diz.
- O quê? - ahhh não. Me deem uma arma. Por favor.
- Por que Amadeu te queria junto de mim?
- Ele nunca disse. Só recebi ordens. - inexpressiva.
- Só ordens? - minha curiosidade me fode, mas me satisfaz.
- Sim.
- Até para me deixar?
- Caio. - ela olhou para mim e eu quase perdi totalmente a atenção da estrada. - Essa foi a questão. Eu te amei, Amadeu descobriu, tive que deixar a missão.
- Missão... - quase não me escutei.

A estrada não tinha fim, ou pelo menos assim que me sinto, interminável. Eu fico a cada segundo mais confuso... Se Amadeu estava me observando a tanto tempo, então Allan deve ser outro contratado dele.

- Tenho um nome. Allan. O que sabem?
- Não sei de ninguém. - Armando não para de polir a arma.
- Allan? Quem é? - Flávia não pareceu saber mais do que Armando.
- Um velho idiota que me procurou... Ele que me levou a casa de Amadeu, disse para eu ir encontrá-lo no dia seguinte e convencê-lo a me contratar.
- Como assim? - ela ficou realmente espantada, embora isso nem me espante mais.
- Foi isso. Ele me levou numa festa num dia, noutro eu fui até lá sozinho, como Allan havia me instruído, sem dizer nada sobre o que me levou ali, apenas dizendo que era o homem certo pro negócio. - minha calma me assusta.
- Impossível. - Armando ficou branco como uma folha de papel nova. - Me lembro do dia que foi a casa de Amadeu. Não houve festa no dia anterior.
- Talvez eu tenha dormido mais de um dia, então...
- Não. Impossível. - ele ficou irritado. - Amadeu nunca deu festas em sua casa.
- Mas... - droga. - Mas como assim? - inquieto.
- Amadeu é muito reservado.

Eu me lembro bem da festa, da van que me levou até lá, dos caras cheirando cocaína durante todo o caminho... Eu podia ter bebido, mas umas doses de conhaque não causam alucinações dessa magnitude.

- Caio... - essa voz ao fundo.- Caio... - eu não sei no que pensar mais... - Caio!... - ela está gritando comigo? - CAIO!
- O que? - uma dica: nunca tire os olhos da estrada.

Alguns dizem que coisas nunca podem piorar. Nunca acredite nisso.

- Consegue arrumar? - Flávia acredita no potencial de Armando, mesmo ele sendo bom apenas em manipular armas.
- Não. - eu sabia. Fiz um ótimo trabalho. - Do que está rindo? - que olhar de fúria... - Se prestasse atenção na estrada não estaríamos aqui, agora, no meio do nada e com uma roda torta. - que merda, eles amam me dar uma lição de moral.
- Se ninguém ficasse me vigiando por todo esse tempo talvez eu levasse uma vida tranquila e não precisasse estar fugindo, agora.
- Fala como se a cupa fosse nossa... - ela ficou aborrecida.
- E não é?
- Você é um inútil... - Armando me ama, só pode. - Eu mesmo irei enfiar uma bala na cara de Amadeu por ter feito eu conhecê-lo.
- Então por que me ajuda?
- Porque você e essa garota são as duas únicas pessoas, fora a minha família, que podem me ajudar.
- Eu nem sabia que alguém como você tinha família. - eu pediria desculpas pelo deboche, mas...
- Tenho. - segurou-me pela gola. - E se depender dela você é um homem morto.
- Estou perplexo. - deboche. Preciso controlar minha língua. Mas ele me soltou.
- Entenda, tudo mudou, Caio. - sério que ela me disse isso?
- Sério, Flávia? - exaltado. - Eu sinceramente achei que estava tudo normal até agora... - sarcástico. - Claro... Claro. Vocês estão me salvando. Agora eu sou o protegido de dois gangsters que escolheram me salvar e arriscar suas vidas.
- Você não entende...
- Entendo sim, Flávia. Vamos ter que matar todo mundo, sem ressentimentos.
- Não é bem assim, Caio. - Armando, outra vez. - Isso não se compara com nada do que fez até agora.
- Mas eles me querem, e eu vou descobrir o porquê disso. - obstinado.
- Vamos. Mas antes temos que resolver o problema do carro.

Droga, quase me esqueci. Deve ser o veneno de sapo me deixando chapado.

Eu atropelei um esquilo. Sim, que coisa horrível. Se fosse um carro de verdade, antigo, uma merda de um esquilo não teria fudido essa roda... Agora o que fazer pra esse carro voltar a andar?

- Armando! - chamei-o.
- Diga.
- Me dê uma arma.
- O quê?
- Me dê. Logo.
- Vai atirar na roda pra ela voltar ao lugar?
- Claro que não! Você é idiota? - eu não deveria chamar um homem armado de idiota.
- Você é o idiota aqui.
- Me dê uma arma! Tenho mais chances se puder matar alguém! Estamos no meio de uma estrada e tem gente querendo nos matar! - espero que meu tom de voz não tenha o ofendido, caso contrário eu posso morrer agora.
- Uma gracinha e eu te espanco. - ele pareceu falar sério.
- Para que faria gracinhas?
- Parece de seu feitio.
- Mas não é. - ele me mataria se pudesse ler minha mente, Por sorte não pode.

A estrada permaneceu deserta por quase duas horas, o que não era tão ruim quando eu pensava que o primeiro carro que aparecesse poderia ter vindo me matar. Mas eu só preciso de um carro.

E eis que surge, longe, vagaroso, um velho carro, tão lento quanto deveria ser, e tão magnífico quanto eu poderia sonhar. Demorava para se aproximar, e eu ficava ansioso a cada quilômetro mais perto que o velho carro ficava.

- Será que ele pode nos ajudar? - Flávia é tão inocente.
- Não custa tentar. - Armando começou a fazer sinal para que o carro parasse.

Um velho volks, clássico demais para ser chamado de velho, velho demais para ser chamado de antigo. Já vi destes em melhores condições. Armando trocou algumas palavras com o motorista, mas eu não sei se isso rendeu algo, realmente. Eu quero mais que se foda. Hora do show.

- Armando. - ele olhou para mim. - Saia da minha frente. - acho que minha arma apontada para ele o assustou.

Conforme Armando se afastava eu direcionava o cano da pistola para a cara do motorista. Ele era um pouco velho, nada muito mais do que 60 anos. Eu não devo matá-lo.

- Desça do carro, velho. Facilite as coisas.
- Eu não descerei. Prefiro morrer com este carro do que entregá-lo a você, de mão beijada. - velho insolente.
- Vamos tentar novamente. - respirei fundo. - Desça do carro. - ele percebeu minha irritação. Flávia arregalou os olhos, mas nada disse.
- Atire, jovem. Não tenho medo.
- Vou atirar, mas quero que desça para não sujar os bancos. - foi o máximo que consegui pensar.
- Boa tentativa. - ele deu a partida, pouco se importando com a arma em minha mão.
- Ótima, na verdade.
- Como disse? - ele olhou em meus olhos.
- Ó-ti-mo. - com a última sílaba veio o estrondo.
- SEU INCONSEQUENTE!!! - Flávia gritou. - POR QUE MATOU ELE? PODIA TÊ-LO TIRADO DO CARRO A FORÇA! SOMOS 3 E ELE ERA APENAS UM! - ela gritou mais um tempo, e eu pouco me importei com tanta histeria.

O único problema é o sangue no carro, mas u pouco me importo com isso. Usei as roupas do velho para limpar os bancos e os vidros. Não me importo com o cheiro de sangue. Pelo menos agora estou dirigindo um carro de verdade.

- Vocês estão bem quietos... - casei do silêncio de suas vozes.
- Você queria que disséssemos o quê? Bom trabalho senhor Caio! Obrigado por ter matado um velho e nos ter enfiado num carro cheirando a cadáver! - Flávia é tão doce, as vezes. Armando não disse nada.
- Pare com isso, garota... É apenas cérebro. - apenas. Sim. Apenas.
- Não acredito que já te amei... - e ela deu um suspiro.
- Não acredito que aquele velho achou que eu estivesse brincando... Como não acreditar em alguém com uma arma apontada em sua cara? - minha risada os incomodava tanto que eu gargalhava o tempo todo, num prazer súbito por ver seus rostinhos tímidos em meu retrovisor.

Eles ficaram sentados no banco traseiro. Os dianteiros ficaram encharcados de sangue e miolos. O pior foi o cheiro de podre aumentando conforme aquilo se decompunha, exalando o cheiro de uma vida que se esvaiu por uma cabeça dura. Não tão dura quanto o chumbo de um projétil.

O sol suicidou-se no horizonte. Flávia dormia. Armando nunca dorme. Pelo menos nunca o vi dormindo.

- Dentro de 3 quilômetros terá uma entrada a esquerda. É lá que dormiremos. - Armando disse, súbito.

Eu continuei dirigindo, quieto, e exatamente 3 quilômetros a frente vi a entrada. Uma curta estrada de terra seguia em direção a um sítio, pequeno, sem celeiro, apenas um casebre.

- É o dono deste sítio? - indaguei.
- Você se esconderia em sua casa? - filho da puta.
- Não. - resposta retórica.
- Este sítio é de Amadeu. - fiquei perplexo. Incrível esta minha capacidade de ser tão volátil.
- Então vamos matá-lo agora?
- Você é burro?
- Não tanto quanto você, Armando.

Armando já não estava suportando muito minhas piadas. Creio que eu ter matado o velho tenha mexido com seus sentimentos. Melhor parar de arriscar, embora eu tenha uma arma, agora. Estacionei junto a casa, entramos silenciosamente, ninguém por lá. Flávia foi dormir no único quarto da pequena casa. Armando ficou perto de mim, todo o tempo, na sala, me encarando, em silêncio.

- Você me acha lindo? - eu não resisto. Me desculpem se eu morrer antes da hora.
- Maravilhoso. - ele sabe ser durão.
- Lindo quanto? - até aonde isso vai?
- Tiraria uma foto para colocar em seu túmulo. - ele sabe brincar.
- Do momento atual ou depois de atirar em mim?
- Eu realmente gostaria de acreditar que você não é tão idiota assim... - não perca a fé, meu amigo.
- Ok, Armando. O negócio é o seguinte. Minha vida está um caos, eu deveria ter encontrado minha ex ontem para tentar reatar, só que minha outra ex fudeu comigo me envenenando... Tudo bem, não foi culpa dela, mas eu preciso descontrair um pouco para aguentar toda essa barra que é gostar de você. - escapou, gente. - Digo. - ele esboçou muita fúria, fiquei apavorado... - Qual o seu plano, afinal?
- Caio, me escute. Vou dizer só uma vez, e eu falo sério. Não sou de brincar, como você, então preste atenção. - ele ficou mais sério que o habitual, embora eu não saiba descrever exatamente o que seria isso.
- Estou ouvindo. Diga, Armando. - eu fiquei sério também. Acho que não sou tão idiota assim.
- Se eu te dissesse que para conseguir parar Amadeu você precisasse se tornar o maior gangster que este lugar já conheceu, o que me diria?
- Eu diria para você se preparar para a guerra, Armando.

Estranhamente voltei a pensar no olhar do velho antes que eu atirasse. Ele realmente era livre de medo, assim como o primeiro homem que matei, com a sutil diferença que o último conseguia transmitir isso com o olhar. Será que Amadeu consegue ser frio como aquele velho?

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