segunda-feira, 11 de novembro de 2013

8. Anexação.

Durante 75% de minha triste e deprimida vida, eu detestei coisas fúteis como vestir-me bem para agradar alguém que se julga importante. No exato momento, vejo que os 25% restantes soam-me como Murphy esfregando sua teoria em minha cara e dizendo "eu estava certo", por mais que isso não tenha realmente nada a ver com a Lei de Murphy.

Pego meu melhor terno em meu guarda roupas, apenas por precaução, quero parecer confiável, como se precisasse provar algo a alguém.

Chamo um taxi pelo telefone, não quero chegar lá como um mendigo, como algo para me recuperar da noite anterior, escovo meus dentes, vou até a frente de minha casa e espero. Durante o caminho até a casa do vereador, imagino dezenas de possíveis discursos para apresentar-me a ele, de forma que soasse natural, de forma que soasse como se não houvéssemos nos conhecido na noite anterior.

Ainda não entendi o porquê de Alan ter me dito isso. Por que eu não poderia citar a noite anterior? Será que o excelentíssimo vereador Amadeu não faz negócios com quem aparece em suas festas?

Foda-se.

Não preciso de discurso algum.

Chego no portão do condomínio de Amadeu, toco o interfone.

-Boa tarde, com quem eu falo? - atendeu o porteiro.
-Olá! Meu nome é Paulo. Eu gostaria de encontrar-me com o vereador Amadeu. - fico uma graça com o vocabulário sutilmente formal.
-Um minuto por favor.

Esse é aquele momento em que o porteiro liga para o morador solicitado e averígua a situação, para saber se pode dar passagem ou não para o "estranho". Acredito que todas as pessoas "importantes" utilizem esse tipo de serviço.

-Senhor, que assunto você gostaria de tratar com o senhor vereador?
-Diga-o que é sobre um cargo de confiança. - mantive uma postura que demonstrasse confiança. Eu sou um pouco ator quando necessário.

Momentos de silêncio. Espera. Já falei como sou impaciente?

-Senhor Paulo, o vereador o espera em sua residência. - abriu o portão e deixou-me entrar.

Caminho pelo chão de ladrilho até a a casa do vereador, que com toda a certeza foi comprada com dinheiro público e também proveniente do crime organizado. é assim que penso.

Ele me esperava na porta frontal da casa, como um nobre anfitrião.

-Boa tarde vereador! Como vai? - meu sorriso é conquistador.
-Boa tarde senhor...
-Paulo!
-Paulo! Isso mesmo! Por favor, entre! - ele não lembra de mim. Estranho.

Entro em sua casa, não há o mínimo vestígio de uma grandiosa festa que ocorrera na noite anterior, mas são exatamente os mesmos móveis, nos mesmo lugares, como se nada nunca mudasse.

-Então senhor Paulo, veio me procurar pelo interesse em um cargo de confiança? - indagou ele.
-Exatamente. - minha postura era quase intimidadora - Senhor Amadeu, soube que precisa de alguém de extrema confiança para ajudá-lo em certos negócios dos quais vem tratando, e eu garanto ao senhor que sou a pessoa certa para isso. - eu sou Deus.
-Isso me soou um tanto prepotente, garoto, mas continue. - odeio que me chamem de garoto.

Dei um leve sorriso irônico.

-Vereador, olhe bem no fundo dos meus olhos e tente descobrir algo sobre mim. Tente descobrir minha idade, minha formação, meu emprego, minha renda, ou qualquer outra coisa de minha vida.
-Isso é impossível, meu caro.
-Exatamente. Eu não demonstro absolutamente nada ao mundo exterior, isso porque eu desconfio de minha própria sombra. Eu torno a anexação de todas as informações de minha vida uma simples e abstrata ideia, que apenas eu tenho acesso. - meu sorriso sínico, tom de voz firme e olhar forte o impressionaram severamente.
-Paulo, confesso-lhe que nunca me impressionaram de tal modo com palavras que não envolvessem números! Estou quase convencido de que você é o homem que preciso para o serviço. Você sabe do que se trata? - mesmo impressionado ele demonstra que não é tolo a ponto de se iludir facilmente.
-Senhor Amadeu, eu sei exatamente o que o senhor quer, e também sei o que posso fazer. Toda a influência para que essa cidade funcione vem de suas mãos, mas você tem muitas coisas para tratar em tão pouco tempo, por isso precisa de alguém de confiança para assessorá-lo, e por isso estou aqui. - nunca conseguiria ensaiar algo tão magnífico.
-Mais uma vez me surpreendeu. - ele baixou a guarda.
-Vereador Amadeu, não tome nenhuma decisão por enquanto. Aconselho que pense muito bem antes de me contratar. Amanhã virei aqui novamente para conversarmos, e então acertaremos o que será feito em diante. - construindo laços mais profundos.
-Eu aprecio generosamente sua postura senhor Paulo! Esperarei ansiosamente pela sua visita! - ele não consegue esconder o ânimo. Verme.
-Até mais vereador, passar bem.

Eu dei as costas com o sentimento de missão cumprida. Agora só me resta seguir em frente nessa tão psicótica empreita que me espera. Assim acredito.

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