Estou tremendo, num beco escuro, no meio da noite, sem saber se alguém poderá encontrar meu corpo podre amanhã.
A arma apontada para o topo de minha cabeça soa ameaçadora, mas quem diria, isso me parece excitante por algum momento insano que rodeia meus pensamentos.
Eu quero explodir tudo. Quero acabar com toda esta existência medíocre que chamamos de vida humana.
Mas vamos recapitular como cheguei nesse ponto lastimável de um dia de trabalho, que deveria ser comum.
Acordo as 7 da manhã, algo pouco usual, já que estou de férias de meu emprego principal. Concluo meus afazeres rotineiros pós despertar, encaro-me diante do espelho como se quisesse destruir minha face, para ver se dava jeito em minha feiura sem tamanho. a noite anterior foi um pouco estressante.
Café da manhã, almoço, café da tarde. Minha vida parece uma merda.
6 e 45 da tarde, começando a escurecer, tenho um compromisso; um trabalho.
Dirijo até o local que me foi indicado, é um beco, praticamente fora da cidade, atrás de um posto de gasolina onde vários caminhões ficam estacionados durante a noite. O posto está aberto ainda, mas atrás dele é quase impossível perceber toda a movimentação que ali ocorre. Espero por alguns minutos, impaciente, até que surge um homem. O homem tem um sorriso sínico, que até combina com parte do meu sarcasmo. Parecemos 2 ladrões de banco mega profissionais. Quem dera.
-Meu nome é Eddie. Na verdade talvez esse nem seja meu nome, mas é assim que vai me chamar.
-Então me chame de Paulo. É assim que gosto que me chamem. - respondi a altura.
-Então, Paulo, tenho um pequeno serviço para você. A partir de agora, quero que lembre-se bem disso, você só pegará serviços comigo, neste mesmo lugar. Eu sempre o avisarei com antecedência por uma mensagem de texto neste aparelho de celular.
Ele joga um celular para mim. Até parece aqueles filmes de gangsters do Martin Scorsese.
-Entendeu?
-Perfeitamente. - somos inexpressivos.
Ele me entrega um envelope amarelo e eu vou abrindo-o como que por impulso.
-Não olhe agora. - diz ele me interrompendo. - Eu não posso saber o conteúdo desse envelope, para nossa própria segurança. Lembre-se disso também.
-Entendo.
Ele deixa o lugar, com esse ar de mistério que parece impregnar por todo aquele vasto ambiente.
Eu fico impressionado com o andar das coisas, observo cuidadosamente o envelope, coloco uma das mãos em seu interior e retiro uma folha de papel em que está escrito:
VOLTE A ESSE MESMO LUGAR À MEIA NOITE.
Fico sem entender, mas deve ser tudo parte desse plano maluco. Entro em meu carro e vou até um bar no centro da cidade. Vou tomar uma cerveja e comer um salgado frito em óleo cancerígeno e, finalmente, esperar até o horário indicado.
O horário finalmente chega. Eu estava morrendo de tédio. O beco ainda está vazio, até porque o posto já está fechado. De repente o homem que viera durante a tarde aparece novamente, dessa vez com uma caixa em suas mãos, seu sorriso sínico tornou-se um rosto sem expressão alguma, com algumas rugas que provavelmente indicam que ele já calou algumas pessoas.
-Tem coragem. - diz ele.
-Coragem? - eu realmente fiquei confuso e não consegui disfarçar isso.
-Veio a este beco, no meio do nada, sem nenhum conhecido por perto. Há apenas caminhoneiros a mais ou menos 200 metros daqui, que estão mais preocupados em violar aquelas menores de idade que se prostituem, o que quer dizer que você pode morrer sozinho.
Ele abre a caixa e saca uma arma. Um revólver de cor chumbo, numeração raspada, provavelmente calibre .38. Nem sei como pude ver tantos detalhes, o movimento que ele fez foi muito rápido.
Acho que foi aqui que comecei.
Eu respiro fundo, estou imóvel, não sei se sinto medo ou prazer. é algo realmente novo em minha vida, e eu já não suportava mais aquela minha vidinha tediosa.
-É o jeito mais engraçado de encarar a morte que eu já vi.
-Eu nem sei se você quer me matar.
-Tenho uma arma apontada para sua testa, carregada, e devo avisar que já matei algumas pessoas. - isso não soou como uma novidade.
Eu não sei direito de que lugar eu reuni esta coragem, ou deveria dizer prepotência, mas eu segurei o cano da arma com minha mão esquerda e olhei bem nos olhos daquele carrasco maldito.
-Se quiser atirar, atire agora, mas tenho certeza que você não tem motivos para isso. - eu sou um pedaço de mármore falante.
-Você é esperto.
Ele guarda a arma na caixa, entrega a caixa a mim.
-Você vai precisar. Nem sempre seu ego poderá lhe salvar. Até mais.
Ele foi embora, me deixando uma arma e muitas dúvidas.
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