Eu não posso mais nem morrer em paz. Armando está ao meu lado direito, e do meu lado esquerdo está um outro capanga que eu nunca tinha visto anteriormente. estamos indo resolver algo que foi descrito como sujo, um mal necessário. Tudo nesse trabalho parece ser como isso. Há seis meses eu fui convencido a entrar nessa vida, e a partir disto eu nem sei mais quantas pessoas matei. A primeira vítima a gente nunca esquece - o batismo de fogo -, mas depois disso tudo vai se tornando natural; basta puxar o gatilho e tudo está resolvido. Algumas vezes uma equipe de limpeza chega ao local quando estamos saindo, mas na maioria das vezes esperamos que encontrem os corpos, passamos uma mensagem com isso. Hoje foi assim.
Os dias estão mais longos e as noites mais curtas, e o grande problema é que Ana percebe que tenho me irritado mais facilmente. Só de pensar nisso eu fico irritado. Eu acho, constantemente, que vou explodir. Eu vou àquele maldito bar periodicamente procurando por Alan, mas aquele velho, gordo e nojento nunca está lá. eu quase não saio mais com o Dave, e ele deve estar culpando Ana por isso. Eu acho que costumo sumir quando me envolvo romanticamente. Mas desta vez não é isso.
Hoje estou com um pressentimento; acho que encontrarei Alan. Eu vou ao bar, pedir uma dose de conhaque, uma cerveja qualquer, e beber, despretensiosamente. Depois que beber voltarei embora. Esse é o plano.
Esse bar sujo, fedido, com cerveja quente e gente feia. Até hoje não entendo o porquê de ter vindo aqui no meio da noite.
Eu gostaria de evitar aquela noite.
A dose durou um gole, a cerveja um pouco mais, mas isso pouco importa. Nada importa, realmente, quando se está desesperado.
O caminho de volta é tedioso, minha cabeça está um turbilhão, eu deveria beber mais um conhaque, mas prefiro voltar para casa e dormir.
Eu larguei meu antigo emprego por causa dessa maldita escolha. Eu nem lembro mais o que eun fazia antes.
Eu nem lembo o que eu era antes.
A única coisa boa que vem me acontecendo é ter Ana por perto. Ela passa bastante tempo junto de mim, e eu gosto muito de estar com ela. O único problema é quando ela pergunta o que eu faço pra viver e eu me esquivo, mantendo segredo sobre minha vida profissional, meu nome, de onde vim, pra onde vou. Nossa relação consiste apenas em curtir o momento, e eu não sei o quanto isso pode ser bom ou ruim.
Se antes o tédio me consumia, agora o que me consome é a falta dele, da ociosidade.
-Paulo...
Eu gelei por um segundo. Eu reconheço essa voz. Eu estava de frente para o portão da minha casa, procurando as chaves em meus bolsos. Eu quase hesitei ao me virar, mas eu preciso de respostas.
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