quinta-feira, 14 de agosto de 2014

13. Semana Do Saco Cheio, Parte 1.

E hoje eu preciso me encontrar com o vereador Carlos Antônio Amadeu. Maldito Amadeu.

Nossa conversa ontem foi rápida, e hoje eu preciso realmente provar à ele que estou pronto para desempenhar este serviço. Ele mal pode esperar; demonstrarei a fúria de meu olhar e a confiança na firmeza de meu tom de voz.

Se eu não passar confiança, quem poderá fazê-lo?

Meu carro ainda não voltou da oficina, eu estou ficando puto com isso. Eu não queria pegar esse maldito taxi novamente, mas estou sem opções.

O porteiro me reconheceu de imediato, interfonou e falou todo aquele clichê.

Caminhei calmamente pelo chão de ladrilhos uniformes, postura ereta, cabeça sutilmente erguida, passos firmes. Tudo começou pela minha expressão corporal. Eu entrei tanto nesse personagem chamado Paulo que até o modo de acender um cigarro é particular, imponente. Imaginem toda essa virilidade no sexo.

Minha mente está vazia. Toco a campainha.

-Paulo! é um prazer vê-lo novamente! - ele sorri de uma forma que me irrita. Essas rugas em seu rosto parecem formar uma máscara de canalha.
-Bom dia senhor Amadeu! Eu avisei que viria e espero que tenha pensado no que conversamos. - cínico. Cínico. Cínico.
-Eu aguardei ansioso pela sua vinda. Pensei muito sobre o assunto. Entre, por favor!

Me sentei numa poltrona e retirei os óculos escuros que encobriam meu olhar. Olhe nos meus olhos.

-Quais são suas perguntas, senhor amadeu?
-Não me chame de senhor! Pode me chamar de Carlos, torna nosso trabalho mais casual, Paulo. - Sua ironia ecoou por toda a sala, mas eu mantive minha postura.
-Quais suas perguntas, Carlos. - ironia se responde com sarcasmo. Cinismo se responde com ironia.
-Primeiramente, eu fiquei muito interessado em você. seu perfil é o que preciso para ajudar-me na gerência de certos trabalhos. eu já tenho algumas pessoas trabalhando para mim, e em breve você irá conhecê-las, mas me diga, como ficou sabendo desse serviço? - ele está me desafiando?
-Carlos, eu não responderei essa pergunta. Mas fico feliz que ficou interessado.
-Por que não responderá, filho? - se eu odeio que me chamem de garoto, imagine de filho.
-Porque... - inclino-me levemente para frente e o olho no fundo dos olhos. - ...eu não confio no senhor.
-Magnífico! - quem responde assim? - Você está a me surpreender cada vez mais, Paulo!
-É um dom.
-Estou gostando de seus dons. Eles me interessam. Acho que você já notou que sou uma pessoa bem interessada. - se ele fizer outro trocadilho besta eu o mato, mas por hora, vou sorrir.
-Gosta tanto que precisa de pessoas aptas para gerenciá-los.
-Exato. Eu tenho os melhores homens para cuidar disso, então a minha segunda pergunta é, você se considera o homem certo para essas atividades ou apenas está querendo me provar algo?
-Eu já provei o que tinha de provar. - inflexível.
-Eu gosto do seu jeito, garoto. - maldito. Maldito. Maldito.
-Então estamos no caminho certo. - nunca precisei me segurar tanto.
-Estamos. - ele se levanta e pega o celular. - Armando, estacione o carro na porta de minha casa, preciso que leve um novo funcionário até sua casa. Obrigado. - ele larga o celular e me olha de forma estranha. - Paulo, meu motorista, Armando, irá te levar até sua casa e lhe passará algumas instruções sobre o novo serviço. Espero que vocês se deem bem. Armando é um homem duro, assim como você.
-Eu agradeço sua paciência, Carlos. - sorrio cinicamente mais uma vez.
-Até mais, Paulo. Espero que nos vejamos em breve!

Saio pela porta e um luxuoso sedan preto me aguarda. Armando, o motorista, segura a porta do passageiro aberta.

-Entre, senhor. - sujeito estranho e submisso.

Entro no carro e coloco o cinto de segurança. Só confio quando eu estou dirigindo. É um vício.

-Aonde o senhor mora? - sabia que ele ia perguntar.

Ele começa a dirigir. Entre nós, apenas o leve ruído do motor.

-Você está preparado para este serviço? - ele quebrou o silêncio.
-Eu nasci pronto. - frases feitas às vezes são legais.
-Tem uma arma?
-Não. Nunca precisei.
-Deveria arranjar uma. Pode precisar.
-Animador.
-Vou te mostrar uma coisa, senhor Paulo.

Armando mudou o caminho que fazia e me levou para uma fábrica que ficava na parte industrial da cidade. O local era muito barulhento, muitas pessoas indo de um lado para o outro. eu não consegui entender o porquê de estarmos ali num primeiro momento.

-Vê essas pessoas trabalhando?
-Não sou cego.
-E nem mudo, pelo que percebi. - ele já deve estar me odiando. Ótimo. - Essas pessoas estão trabalhando para alguém, e o que mantém elas empregadas é o respeito que têm por este alguém.
-Qual o ponto que quer chegar, senho Armando?
-O ponto... - ele se vira para mim com um olhar ameaçador. - ...senhor Paulo, é que você deve ser leal ao seu empregador, pois este serviço depende basicamente disso. Você já mentiu seu nome, então qual será a próxima mentira? Não vá me dizer que já foi militar e sabe usar uma M4. Eu não confio em você, mas curiosamente nosso patrão sim. Meu serviço é desconfiar de você, saber se está fazendo as coisas da forma que devem ser feitas. Se você contar detalhes de seus serviços para quem seja, amanhã... - ele apontou para alguns homens que carregavam caixotes com restos de carne. - ...você estará dentro de um desses caixotes e suas gorduras irão virar sabão.

Agora me dei conta que esse lugar é um abatedouro. Frigorífico Fortaleza, um empreendimento do vereador Amadeu.

-Senhor Armando, eu não sei o porquê de você querer me dizer tudo isso, mas acredito que você irá parar antes de mim naqueles caixotes caso continue a me ameaçar, entendeu bem? - meu olhar de Clint Eastwood é infalível.
-Eu não contaria tanto com isso, senhor Paulo. - ou quase infalível. - Entre no carro, te levarei embora.

O resto do caminho foi um completo silêncio.

Enfim em casa. Eu mal comecei essa merda e já estou completamente estressado. Não sei porque fui me infiltrar nesse mundo maldito. não ganharei nada com isso.

O telefone toca, eu estou uma pilha de nervos agora que desci do palco imaginário em que atuo como um cara durão. Meu carro está pronto, pelo menos não dependerei mais dos serviços de Armando.

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