Ana está deitada em minha cama, dormindo como uma deusa. Eu estou sentado, são 5 e meia da manhã, e hoje eu não sei se terei coragem para fazer o café da manhã.
Agora fico imaginando, o que será que ela faz da vida? Ela tem uma banda, é claro, mas a banda é recente, não deve gerar renda. Ainda. Ela trabalha? Os pais dela são ricos e ela faz o que quer da vida? Herdou muitas casas e vive dos aluguéis? Não faço ideia.
Mais da metade dos meus dias são pensamentos introspectivos e questionamentos. Eu queria uma vida mais leve, mas minha cabeça não deixa.
Pego um cigarro no maço de Ana, vou até a sala, acendo-o. Não me lembro qual foi a última vez que fumei, mas este cigarro está deliciosamente saboroso.
A televisão numa segunda pela manhã só tem tragédias. Acidente na rodovia: família que voltava da praia bate frontalmente com caminhão. Todos morrem. Capotamento perto de trevo causa congestionamento e carro em alta velocidade entra embaixo de caminhão que estava parado. Todos morrem. Família é atacada por pai alcoolizado após comemoração de casamento da filha. Pelo menos um suicídio na lista. Mas antes ele matou a família. Todos morrem.
A morte está tão presente quanto a vida.
-Assistindo ao noticiário a esta hora? - não vi Ana acordando.
-Apenas acordei mais cedo do que esperava! - sorri para ela. Ela me faz sorrir.
-Haja coragem... - que cara fofa de cansaço.
-Um pouco. Na verdade eu estava tomando coragem para fazer o café, então nada melhor que um desafio antes de outro. - que humor babaca.
-Como você é lindo! Mas não precisa fazer café. Eu preciso ir agora. - perguntas rondam minha mente.
-Quer que eu te leve?
-Eu chamei um táxi. Você não descobrirá aonde eu moro! - ela riu. - Não hoje!
-Eu aceito isso! - maldita!
Eu fiquei sozinho, novamente. Ficar sozinho não me incomoda, a não ser quando fico muito ocioso, porque ociosidade resulta em ansiedade, e ansiedade resulta em tédio extremo. Nessas horas eu só consigo escutar uma música e cantar junto. Assim eu relaxo. Assim eu volto ao meu normal.
Escuto alguém buzinar. Segundas e sextas livres? Agora faz sentido. Era o moto-boy, novo envelope, novas ordens. Acho que hoje não ficarei entediado, mas talvez ansioso. Eu já disse o quanto odeio esse emprego? Se eu pudesse voltar no tempo e não ter saído naquela noite e ido aquele maldito bar. O tempo não para.
PEGUE SUA ARMA E SUA CORAGEM, POIS HOJE AS CRIANÇAS IRÃO CHORAR.
Uma bela frase para animar meu trabalho.
ENCONTRE ARMANDO NO ENDEREÇO ABAIXO. DECORE O ENDEREÇO E QUEIME ESTA MENSAGEM.
Só falta isso virar rotina.
Dirijo-me ao local na hora marcada e tento imaginar o que significa "hoje é o dia em que as crianças irão chorar". Tomara que eu não tenha que matar nenhuma criança.
-Paulo, boa tarde! - Armando, seu viado.
-Boa tarde. - seco.
-Trouxe sua arma?
-Sim.
-Que bom. Pode precisar dela hoje. É muito bom fazer o primeiro trabalho sob tensão. Ajuda o raciocínio.
-Assim espero. Quero testar minha capacidade de pensar mesmo.
-Estou gostando deste teu espírito de hoje! É inspirador, Paulo. - ele sorri tanto que eu vou sacar essa arma e atirar na boca dele.
Começamos a caminhar em direção a uma casa de tamanho médio, que aparentemente não pertence a ninguém importante. Aparentemente. Armando carrega uma maleta preta, e eu nem me atrevo a perguntar o que há nela. tocamos a campainha e uma senhora de mais ou menos 65 anos nos recebe.
-Bom dia! Eu gostaria de conversar com o senhor Santana. Ele se encontra? - quanta simpatia, Armando.
-Está sim. qual o seu nome, por favor?
-Armando. Eu avisei-lhe que viria.
-Me desculpe a indelicadeza! Amarildo havia me dito mesmo que viria! Entrem, ele está no escritório, no fim do corredor. - impressionante o modo com que ela mudou de expressão.
Caminhamos lentamente seguindo a senhora até o escritório do senhor Santana. A porta estava aberta e ele estava sentado atrás de uma escrivaninha de mogno, usando óculos escuros e pedindo para que nos sentássemos. Achei estranho ele ter uma máquina de escrever em seu escritório ao invés de um computador. Deve se dar mal com tecnologia.
-Armando, eu receio. - a voz era rouca, como se tivesse câncer de garganta.
-Sim, e este é meu amigo Paulo.
-E o que trás os senhores a casa de um velho homem? - a expressão dele pouco mudava. Devia ser efeito causado pelos óculos.
-Senhor Santana, eu venho lhe trazer uma proposta.
-Proposta? Que tipo de proposta?
-Em relação à sua casa de apoio. Tenho uma proposta para comprá-la. Acredito que ela precisa de uma melhor administração.
-Está me insultando, rapaz? Eu construí essa casa de apoio para crianças carentes com muito suor, e eu só deixarei de administrá-la quando estiver morto!
-Se assim deseja.
Armando colocou a maleta em cima da mesa, abriu-a e dentro tinha uma pistola e um supressor.
-Eu tenho esta pistola e um documento de venda nesta maleta, e cabe apenas ao senhor me dizer qual prefere. - ele colocava o supressor no cano da pistola, vagarosamente.
-Você está louco! - gritou Santana, mas apenas demonstrando irritação em sua voz, pois sua expressão quase não mudara.
Os passos da senhora na direção da sala puderam ser escutados. Ela entrou no escritório e se deparou com Armando armado, e ele apontou a arma para a cabeça dela, como gangsters fazem.
-Não meu senhor! Tenha piedade! - ela tinha desespero estampado em sua face.
-Paulo, me passe sua arma.
Eu entreguei minha arma para ele, e logo em seguida ele entregou a pistola com o supressor para mim. Acho que entendi. Mirei a arma na direção de Santana, peguei o documento dentro da maleta, coloquei-o em cima da escrivaninha.
-Assine-o, ou eu vou assiná-lo com seus miolos. - depois que eu assisti O Poderoso Chefão eu sempre quis dizer isso.
-Não assinarei nada, senhor Paulo. É melhor que me mate agora.
-Se assim deseja. - eu me levantei e mirei entre seus olhos. - Tire esses malditos óculos, eu quero olhar nos seus olhos para te matar, desgraçado. - eu era um poço de calmaria, frio, inóspito.
-Se assim deseja. - disse ele, em tom irônico, enquanto se livrava dos óculos.
Ele tirava os óculos lentamente, e quando terminou de fazê-lo eu só pude sentir um arrepio que veio do começo de minha espinha até a última ponta de meu último fio de cabelo.
-Não vai atirar, senhor Paulo? - sarcástico.
eu fiquei sem reação por um segundo. Eu tentei olhá-lo nos olhos, mas ao invés disso eu via pálpebras costuradas. Uma visão do inferno, mas eu fiz o que pude para me manter firme.
-Diga suas últimas palavras! - eu estava animado para acabar logo com isso.
-Não faça isso senhor! - gritava a velha. Armando bateu com a coronha da minha arma em seu rosto.
-Não liguem para ela. Eu não tenho últimas palavras.
-Que assim seja.
O corpo, que antes estava levemente inclinado para trás, agora amolecera, quase instantaneamente, fazendo com que a cabeça estourada de Santana pendesse para trás e fizesse a cadeira tombar, espalhando pedaços de cérebro pelo chão do pequeno escritório. Um grito de terror vindo da garganta daquela maldita senhora ecoava por toda a sala. Eu não pensei duas vezes.
-Tinha de ser feito. - eu disse.
Armando acenou positivamente com a cabeça. Fomos embora.
-Bom dia! Eu gostaria de conversar com o senhor Santana. Ele se encontra? - quanta simpatia, Armando.
-Está sim. qual o seu nome, por favor?
-Armando. Eu avisei-lhe que viria.
-Me desculpe a indelicadeza! Amarildo havia me dito mesmo que viria! Entrem, ele está no escritório, no fim do corredor. - impressionante o modo com que ela mudou de expressão.
Caminhamos lentamente seguindo a senhora até o escritório do senhor Santana. A porta estava aberta e ele estava sentado atrás de uma escrivaninha de mogno, usando óculos escuros e pedindo para que nos sentássemos. Achei estranho ele ter uma máquina de escrever em seu escritório ao invés de um computador. Deve se dar mal com tecnologia.
-Armando, eu receio. - a voz era rouca, como se tivesse câncer de garganta.
-Sim, e este é meu amigo Paulo.
-E o que trás os senhores a casa de um velho homem? - a expressão dele pouco mudava. Devia ser efeito causado pelos óculos.
-Senhor Santana, eu venho lhe trazer uma proposta.
-Proposta? Que tipo de proposta?
-Em relação à sua casa de apoio. Tenho uma proposta para comprá-la. Acredito que ela precisa de uma melhor administração.
-Está me insultando, rapaz? Eu construí essa casa de apoio para crianças carentes com muito suor, e eu só deixarei de administrá-la quando estiver morto!
-Se assim deseja.
Armando colocou a maleta em cima da mesa, abriu-a e dentro tinha uma pistola e um supressor.
-Eu tenho esta pistola e um documento de venda nesta maleta, e cabe apenas ao senhor me dizer qual prefere. - ele colocava o supressor no cano da pistola, vagarosamente.
-Você está louco! - gritou Santana, mas apenas demonstrando irritação em sua voz, pois sua expressão quase não mudara.
Os passos da senhora na direção da sala puderam ser escutados. Ela entrou no escritório e se deparou com Armando armado, e ele apontou a arma para a cabeça dela, como gangsters fazem.
-Não meu senhor! Tenha piedade! - ela tinha desespero estampado em sua face.
-Paulo, me passe sua arma.
Eu entreguei minha arma para ele, e logo em seguida ele entregou a pistola com o supressor para mim. Acho que entendi. Mirei a arma na direção de Santana, peguei o documento dentro da maleta, coloquei-o em cima da escrivaninha.
-Assine-o, ou eu vou assiná-lo com seus miolos. - depois que eu assisti O Poderoso Chefão eu sempre quis dizer isso.
-Não assinarei nada, senhor Paulo. É melhor que me mate agora.
-Se assim deseja. - eu me levantei e mirei entre seus olhos. - Tire esses malditos óculos, eu quero olhar nos seus olhos para te matar, desgraçado. - eu era um poço de calmaria, frio, inóspito.
-Se assim deseja. - disse ele, em tom irônico, enquanto se livrava dos óculos.
Ele tirava os óculos lentamente, e quando terminou de fazê-lo eu só pude sentir um arrepio que veio do começo de minha espinha até a última ponta de meu último fio de cabelo.
-Não vai atirar, senhor Paulo? - sarcástico.
eu fiquei sem reação por um segundo. Eu tentei olhá-lo nos olhos, mas ao invés disso eu via pálpebras costuradas. Uma visão do inferno, mas eu fiz o que pude para me manter firme.
-Diga suas últimas palavras! - eu estava animado para acabar logo com isso.
-Não faça isso senhor! - gritava a velha. Armando bateu com a coronha da minha arma em seu rosto.
-Não liguem para ela. Eu não tenho últimas palavras.
-Que assim seja.
O corpo, que antes estava levemente inclinado para trás, agora amolecera, quase instantaneamente, fazendo com que a cabeça estourada de Santana pendesse para trás e fizesse a cadeira tombar, espalhando pedaços de cérebro pelo chão do pequeno escritório. Um grito de terror vindo da garganta daquela maldita senhora ecoava por toda a sala. Eu não pensei duas vezes.
-Tinha de ser feito. - eu disse.
Armando acenou positivamente com a cabeça. Fomos embora.
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