quinta-feira, 11 de junho de 2015

20. Inferno.

Ana não para de olhar para mim. Se ela quer me perguntar algo, pergunte, mas que acabe com a merda desse silêncio estrondoso. Cada segundo que passamos sentados nessa mesa, com você olhando fixamente para mim, com essa cara lavada de cinismo, enquanto tento comer minha torrada. Sério, não estou nem conseguindo sentir o sabor dela. Pare de me olhar, Ana.
Ela não parou. Deixei a torrada sobre a mesa, me levantei.

- Quer um cigarro? - pergunto da forma mais natural possível.
- Acho que vou aceitar. - seca.
- Vamos lá fora. O ar fresco é mais receptivo.
- Claro... Fumando isso faz muita diferença.
- O  que há com você? - eu preciso perguntar.
- Comigo? Me desculpe... - interrompo.
- Desde que chegou hoje não para de me encarar e não esboçou um sorriso sequer. Eu posso até ser paranoico às vezes, mas hoje tenho certeza de que não. - o cigarro caiu no chão enquanto eu falava. Ela desviou o olhar para o chão. Eu olhava reto. Ela levantou a cabeça para encontrar seu olhar com o meu. ela percebeu minhas mão tremendo.
- Não estou em um bom dia. E você também não deve estar. - seca.
- Eu queria estar. De verdade. - inflexível.
- Queria? Então por que se estressa tanto? Mantém um trabalho secreto? Não me conta seu nome por medo de se envolver... - pausa para um suspiro dramático. Nesse momento eu parei de tremer e minha postura super ereta me engrandeceu. - A quem quer enganar?
- Quer que eu responda tudo? - inflexível.
- Não. - seca. - Apenas me diga se tem medo de ter algo real comigo. - ela caiu nem lágrimas.
- Não. Caso contrário não estaríamos a tanto tempo juntos. - inflexível.
- Tem certeza? - a voz dela teve a tonalidade levemente exaltada.
- A não ser que ache seis meses pouco. - inflexível.
- Não o suficiente.
- Não controlo o tempo. - inflexível.
- Mas sua vida, certamente. - seca.
- O quanto posso. - inflexível.
- Então vou embora. Tem meu número. Quando estiver pronto para viver algo real comigo, me ligue, e quem sabe eu não tenha te trocado por outro babaca que for ver minha banda tocar.

Ela saiu pela porta da sala. Escutei o barulho do portão batendo com força.

Furacões não têm nomes de mulheres à toa.

E eu? Inflexível.

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