Eu queria acordar e dizer "eu sou a pessoa mais feliz do mundo", ou quem sabe apenas "eu sou feliz", ou pior, eu estaria bem dizendo "tenho momentos felizes". Que inocência. Nem minha mente me deixa em paz, imagine as outras pessoas. Se cada um entendesse o que se passa dentro desta merda que chamo de cérebro - o órgão chefe -, na boa, se entendessem... eu não estou surtando à toa.
Órgão chefe fere meu egocentrismo.
Tudo aquilo que me ataca eu reajo. Sou tão reativo quanto nitroglicerina. Mas Ana conseguiu ser tão reativa quanto seu signo de escorpião pode ser na TPM. Escorpião soa mais como mau presságio, mas o veneno dela não me mata, apenas vicia.
Eu tenho comido o suficiente para ter engordado pelo menso quatro quilos neste último mês, mas eu continuo com setenta quilos, até bem distribuídos para meus um metro e oitenta. Há seis meses eu pesava setenta e cinco quilos. Comecei a emagrecer muito rápido após meu batismo de fogo. Deve ser stress. Eu emagreci e fiquei com sessenta e seis quilos. Entrei em choque. Via meus ossos. Procurei um nutricionista, era uma mulher, ela me recomendou uma dieta rica em fibras, carboidratos e proteínas. Eu deveria ganhar peso com saúde, não gorduras. Mas como dispensar um x-bacon?
Eu sentia raiva. Quanto mais raiva, mais fome. Quanto mais fome, mais raiva. Quanto mais raiva, mais fome e mais raiva, mais eu emagrecia.
Tem gente que ia adorar isso. Sério.
Eu não sei o que Ana faz para continuar com aquele corpo perfeito, mas acho que ela se estressa também. Eu não sei o que ela faz além de ter uma banda, mas pelo peso dela é vendedora de alguma loja de roupas, dessas grandes franquias que todos sabem o nome, toda a cidade tem uma. Ela deve vender calças, e deve ter que lidar com compradores tão chatos quanto eu. Só assim para se manter linda sempre e comer pizza todo fim de semana. Ou ela faz academia, é rica, não trabalha, mas se estressa com o jardineiro que plantou tulipas no verão.
Stress parece resposta. Mas é dúvida. Garanto.
Ela quer meu nome. Eu nem sei se sei meu nome.
Para falar a verdade, eu passei tanto tempo fingindo que eu nem sei quem sou. Ou aprendi a fingir? Descobriremos.
Desde que Ana saiu pela porta da frente eu não saio de casa, não como, não durmo, não me banho. E isso foi há dois dias. Enlouqueci. Acendo cigarros freneticamente, jogo bitucas pelo chão. Eu que terei que limpar, então foda-se. Se eu não ligar, ela não liga. Então foda-se. Se ela ligar, o que digo? Foda-se.
É fácil resolver isso tudo. Muito fácil.
Você acha que sua vida é uma droga? Ótimo. A partir deste ponto você se tornou sensato. E quem se torna sensato pode ver o mundo de outra perspectiva. Ou se enganar e continuar sendo trouxa. Mas pelo menos alguns te acharão sensato o suficiente. A vida, mesmo quando uma droga, costuma ser ironicamente consoladora.
Se eu fosse destilar todo meu ódio faltariam alambiques neste pedaço de terra em que sobrevivo.
Aliás, você vive ou sobrevive? É uma pergunta válida.
Eu me levanto da poltrona do envelhecimento e quero encontrar algo capaz de estragar...
Uma buzina.
Um sedam preto.
Minha mente começou a trabalhar numa velocidade que eu nunca tinha experimentado antes. Conseguia pensar no que poderia estar acontecendo na vida de um norte coreano, com sua expectativa não muito agradável em relação ao futuro. Conseguia pensar em tudo o que há de certo e errado na minha vida. Conseguia até mesmo entender toda a dinâmica social e usar isso como artifício para melhorar minha posição. Sem matar gente, nesta última. Tudo isso em um segundo. Saio à porta e quem vejo não me impressiona. A ponta solta. Como pude ser tão negligente?
- Dave, entre, por favor! - não sei reagir de outra forma.
- Cara, você sabe como sumir.
- Às vezes sou um pouco negligente... - admitir dói.
- Tão negligente que está se esquecendo dos amigos novamente. - ele está estranhamente normal.
- Meu trabalho atual consome todo meu tempo.
- Deveria conseguir um emprego melhor. Acho que têm três ou quatro meses que não tomamos uma cerveja. E a garota, continua com ela?
- Eu e Ana brigamos. Ontem. - ele esboçou um sorriso. Maldito, eu vi isso.
- Então cheguei numa boa hora?
- Não sei se eu vejo desta forma. - inflexível.
- Estou aqui para te consolar, meu amigo! - ele está sendo cínico. Eu sei. - Não é pra isso que servem os amigos?
Eu estava centrado o suficiente para dar uma resposta sensacional para Dave, mas hoje eu não quero esclarecer as merdas da minha vida, muito menos pensar no tamanho da culpa que tenho por isso ter acontecido. eu nem me lembro o porquê eu e Dave paramos de sair. Ele sempre passava aqui e íamos beber. Estou de saco cheio de tanta cobrança. Ana me cobra, Armando me cobra, Dave me cobra.
- Dave, realmente não é uma boa hora. - inflexível.
- Se agora não é uma boa hora, então ela provavelmente não existe. - agora sim ele está conversando como gente.
- Você pode ir embora. eu realmente só quero ficar sozinho.
- Claro. Você sabe muito bem o que está fazendo, meu amigo. Só não venha querer minha ajuda depois. - quanto desdem, velho amigo.
- Eu não preciso de ajuda, mas se continuar me insultando assim talvez não possa me insultar amanhã novamente. - inflexível.
- Ou vai fazer o quê? - desafiou...
- Quer descobrir agora ou em alguns minutos? - desafio aceito.
- Você enlouqueceu?
- Sim. - inflexível.
- Eu vou embora. você sabe onde moro, como me encontrar... ou simplesmente esqueça que é meu amigo.
Eu não reagi. Vi meu melhor amigo indo embora. A única pessoa que me ajudou quando Flávia destruiu minha vida. Flávia... o que será que ela deve estar fazendo agora? Deve ter um ano desde que nos falamos pela última vez. Nunca mais a vi, e isso foi bom, no começo. Ajuda a esquecer.
Eu conseguia pensar em soluções para a guerra no oriente médio. Conseguia dissertar contra o comunismo, capitalismo e todos os outros ismos que dividem a humanidade. Eu conseguia até mesmo dar um jeito na minha vida, dentro da minha cabeça, mas eu consigo ser mais teimoso do que eficaz.
O telefone chama pela primeira vez.
O relógio tiquetaqueia. Eu respiro fundo. A velha torneira pinga. Todos esses sons ecoam pela casa silenciosa.
Ao segundo toque alguém atende.
- A essa hora da noite é bom que seja importante. - ela atendeu. Acho que fui tomado por um tipo estranho de euforia.
- Depende o que considera importante.
- Não acredito que ligou para mim.
- Nem eu. - flexível.
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